O candidato do Avante à Presidência da República, Augusto Cury, afirmou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotaria Flávio Bolsonaro (PL) caso os dois chegassem ao segundo turno das eleições de 2026. A declaração foi feita durante sabatina da revista Veja, em meio à movimentação das candidaturas para concentrar votos na reta final do primeiro turno. Cury também rejeitou a possibilidade de apoiar qualquer um dos dois adversários se sua candidatura não avançar para a etapa decisiva.
Na entrevista, o candidato apresentou uma avaliação crítica tanto do projeto político associado ao atual presidente quanto da candidatura de Flávio Bolsonaro. Ao comentar um eventual confronto entre os dois, Cury afirmou que Lula teria condições de derrotar o senador e utilizou uma expressão contundente para descrever o possível resultado.
“O modelo de Lula da Silva está falido, o modelo de Flávio Bolsonaro também. Se o pai perdeu, o filho também vai perder e tudo o que o Lula quer é pegar Flávio Bolsonaro no segundo turno. Ele vai destruir Flávio.”
A fala ocorreu em um momento em que Lula e Flávio passaram a ocupar posição central na disputa presidencial, enquanto os demais candidatos tentam preservar espaço no eleitorado. O movimento também envolve o chamado voto útil, estratégia pela qual partidos e candidatos buscam convencer eleitores de outras candidaturas a concentrar suas escolhas nos nomes que aparecem nas primeiras posições das pesquisas.
Augusto Cury afirma que Lula derrotaria Flávio Bolsonaro no segundo turno
Apesar de dizer que Lula venceria Flávio em um eventual segundo turno, Cury deixou claro que essa avaliação não representa uma manifestação de apoio ao presidente. O candidato do Avante afirmou que pretende chegar à etapa final da eleição e que, caso isso não aconteça, não pretende declarar apoio a nenhum dos dois.
Segundo Cury, lideranças dos diferentes campos políticos têm procurado sua candidatura, mas ele afirmou que vem recusando essas aproximações. O escritor também disse que seu objetivo político é disputar diretamente com Lula no segundo turno.
“Eu quero Lula no segundo turno porque nós vamos aposentá-lo. Não há possibilidade, de maneira clara, de apoiar nenhum e nem outro.”
A posição coloca Cury em uma situação distinta da estratégia de concentração eleitoral que vem ganhando espaço entre candidatos e partidos. Em vez de indicar preferência entre Lula e Flávio, ele sustenta que sua candidatura deve permanecer como uma alternativa própria na corrida presidencial.
Cury também fez uma avaliação sobre o histórico dos governos de Lula. Segundo ele, o primeiro mandato do petista teve desempenho que considerou positivo, mencionando a atuação de Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda. Na avaliação apresentada pelo candidato, porém, a condução posterior do governo teria perdido qualidade.
Questionado sobre se a promessa de “aposentar” Lula poderia representar uma sinalização indireta a Flávio Bolsonaro, Cury negou. Ele reforçou que, em sua avaliação, o senador também não deveria receber apoio.
O candidato ainda criticou Flávio em relação às explicações dadas sobre o financiamento de uma produção audiovisual relacionada à trajetória de Jair Bolsonaro. Cury citou especificamente a chamada planilha da Dark Horse ao questionar o assunto.
Datafolha mostra migração de votos de Cury para Flávio e Lula
Os dados mais recentes do Datafolha ajudam a dimensionar a disputa pelo eleitorado das candidaturas alternativas. Levantamento divulgado em 23 de setembro mostra que, considerando conjuntamente os eleitores de Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury, Flávio Bolsonaro concentra 43% das intenções em um eventual segundo turno contra Lula, enquanto o petista registra 30%. Outros 26% optam por branco, nulo ou nenhum candidato.
O próprio eleitorado de Cury apresenta uma divisão relevante. No recorte divulgado pelo Datafolha, 41% dos que declararam voto no candidato do Avante no primeiro turno afirmam que escolheriam Flávio no segundo, enquanto 35% indicam Lula. Outros 23% optariam por branco ou nulo. A margem de erro específica desse segmento é de seis pontos percentuais, o que coloca os dois candidatos em situação de empate técnico nesse recorte.
O levantamento mostra, portanto, que a declaração de Cury sobre um possível segundo turno não corresponde automaticamente ao comportamento eleitoral de seus próprios eleitores. O posicionamento individual do candidato e a intenção declarada por sua base eleitoral são fenômenos diferentes e podem apresentar resultados distintos.
No conjunto dos quatro candidatos considerados pelo instituto, a margem de erro é ainda maior, de dez pontos percentuais, devido ao tamanho da amostra utilizada para esse recorte. Por isso, os números devem ser interpretados especificamente como uma fotografia das intenções declaradas naquele levantamento, e não como uma previsão do resultado da eleição.
Disputa entre Lula e Flávio aparece tecnicamente empatada
No cenário geral de segundo turno testado pelo Datafolha, Lula aparece com 46% das intenções de voto, contra 44% de Flávio Bolsonaro. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o resultado configura empate técnico. O levantamento também registra 8% de votos brancos ou nulos e 1% de eleitores indecisos.
A pesquisa anterior do instituto, divulgada em 8 de setembro, já apontava um cenário semelhante, com 46% para Lula e 44% para Flávio. Naquele levantamento, a margem de erro também era de dois pontos percentuais.
A pesquisa mais recente também aponta elevada fidelidade dos eleitores dos dois principais candidatos. Lula mantém 98% de sua base de primeiro turno no cenário de segundo turno analisado, enquanto Flávio preserva 99%. Entre os eleitores que inicialmente optam por branco, nulo ou nenhum candidato, 62% afirmam que manteriam essa escolha na etapa decisiva.
Outro levantamento divulgado nesta semana, realizado pela BTG/Nexus, encontrou cenário igualmente apertado: Lula aparece com 40% no primeiro turno, Flávio com 37% e Cury com 6%. Na simulação de segundo turno entre Lula e Flávio, os números foram de 46% a 45%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Os diferentes levantamentos, porém, utilizam metodologias, períodos de campo e amostras distintos. Por isso, os resultados não devem ser tratados como equivalentes nem como antecipação do resultado eleitoral.
Nesse ambiente de disputa acirrada, a fala de Augusto Cury acrescenta um novo componente à corrida presidencial: a tentativa de manter uma candidatura alternativa mesmo diante da pressão para que eleitores de nomes menores concentrem seus votos nos dois candidatos mais bem posicionados. Ao mesmo tempo, os dados do Datafolha indicam que parte significativa dos eleitores de Cury pode se dividir entre Lula, Flávio e o voto branco ou nulo em uma eventual segunda etapa.
A definição do primeiro turno, portanto, não depende apenas da posição dos candidatos que lideram as pesquisas. O comportamento dos eleitores das demais candidaturas também pode ter peso na composição de um eventual segundo turno, caso a eleição chegue a essa configuração.




