A investigação sobre a morte de Isabelle Caracristi, de 22 anos, agora inclui também informações sobre questões financeiras envolvendo a estudante e o namorado, João Munhoz Neto. Em depoimento prestado à Polícia Civil, João relatou que teria entregue R$ 14.035 à jovem para investimentos que, segundo ele, podem ou não ter relação com esquemas de pirâmide.
Ainda de acordo com a versão apresentada por João, a mãe de Isabelle também teria repassado R$ 7 mil para a filha com a mesma finalidade. Os valores e a dinâmica desses supostos investimentos aparecem no depoimento como parte das questões financeiras que, segundo ele, existiam na relação antes da morte da estudante.
João afirmou aos investigadores que Isabelle apresentava expectativas de retorno financeiro elevado. Segundo o depoimento, ela teria mencionado valores que poderiam chegar a cerca de US$ 300 mil, equivalentes, na época, a aproximadamente R$ 1,5 milhão.
João Munhoz relata supostos investimentos feitos por Isabelle
No depoimento, João descreveu a movimentação financeira como uma das situações que faziam parte da convivência com Isabelle. Ele afirmou que entregou o dinheiro porque acreditava na proposta apresentada pela estudante e declarou ter sido “ingênuo” ao participar da operação.
O relato, porém, não estabelece por si só que Isabelle tenha cometido fraude ou que os valores tenham sido desviados. Até o momento, as informações disponíveis não apontam uma conclusão da Polícia Civil sobre eventual crime financeiro relacionado a esses valores.
O conteúdo aparece dentro de um depoimento mais amplo, no qual João apresentou aos investigadores sua versão sobre o relacionamento com Isabelle, a rotina do casal e os acontecimentos anteriores à morte. A polícia ainda analisa documentos, aparelhos celulares, mensagens e outros elementos reunidos durante a investigação.
Depoimento menciona valores entregues pela família
João também afirmou que a mãe de Isabelle teria participado financeiramente dos supostos investimentos. Conforme o depoimento, Isorlanda Caracristi teria entregue R$ 7 mil à filha.
Questões relacionadas a dinheiro já haviam aparecido nos relatos da família sobre o relacionamento. A mãe de Isabelle afirmou anteriormente que a filha teria contado que João pediu seu cartão de crédito emprestado para realizar uma cirurgia e que também teria manifestado interesse em colocar uma empresa no nome dela.
Essa versão, entretanto, é contestada por João. No próprio depoimento, ele negou ter pedido o cartão de crédito de Isabelle ou ter sugerido que uma empresa fosse registrada no nome da estudante. Segundo ele, suas conversas sobre o assunto estavam relacionadas ao incentivo para que ela aprendesse sobre a prática jurídica e empreendedorismo.
As duas versões fazem parte do conjunto de informações que precisam ser confrontadas com outros elementos da investigação.
Questões financeiras são apenas uma parte do depoimento
O depoimento de João não ficou restrito às questões financeiras. Ele também falou sobre a rotina do casal, conflitos anteriores, mensagens trocadas no dia da morte e sua versão sobre o período em que Isabelle caiu do 23º andar de um condomínio na Aldeota, em Fortaleza.
João afirmou que estava em uma missa no momento em que recebeu mensagens de Isabelle, por volta das 19h14 às 19h16. Segundo ele, uma das mensagens dizia: “Realmente eu não estou aguentando. Estou sentindo uma sensação estranha”.
Ele declarou que só soube da morte posteriormente e negou participação na queda da estudante. A versão apresentada no depoimento é confrontada pela investigação com mensagens, imagens de câmeras, perícias e depoimentos de outras pessoas.
A perícia apontou que Isabelle morreu em decorrência de politraumatismo provocado pelo impacto contra o solo. Exames toxicológicos não identificaram substâncias de interesse forense, e o perito-geral Júlio Torres informou que a dinâmica analisada pelos peritos é compatível com uma precipitação voluntária. A investigação, porém, continua apurando os acontecimentos que antecederam a queda.
Polícia investiga relação entre João e Isabelle
Além das questões financeiras, a Polícia Civil do Ceará passou a investigar relatos de comportamento controlador e possível violência psicológica no relacionamento entre João e Isabelle. Segundo o delegado-geral Márcio Gutiérrez, depoimentos reunidos no inquérito indicam situações nas quais a estudante teria tido sua autonomia limitada.
A polícia também verifica se houve eventual destruição ou ocultação de provas. Entre os elementos analisados estão o celular de João e o aparelho de Isabelle, que sofreu danos após a queda e apresentou uma lacuna de aproximadamente 19 horas nos dados recuperados.
Outro ponto investigado envolve as câmeras do condomínio. Não havia equipamento instalado no rooftop de onde Isabelle caiu, embora existam câmeras em outras áreas do prédio. Os investigadores analisam as imagens disponíveis para reconstruir a movimentação da estudante e de outras pessoas antes e depois da morte.
João está preso preventivamente
João Munhoz foi preso preventivamente na terça-feira (22). A prisão foi mantida pela Justiça do Ceará após audiência de custódia realizada nesta quarta-feira (23). Segundo a Polícia Civil, a medida está relacionada, entre outros pontos, à investigação de possível induzimento ou instigação ao suicídio e à análise de uma eventual postura de não colaboração ou obstrução das investigações.
A defesa de João contesta a suspeita de que ele tenha contribuído para a morte de Isabelle e afirma que não existem elementos materiais que comprovem esse tipo de participação. O caso tramita sob sigilo judicial.
A morte de Isabelle ocorreu em 13 de setembro, no condomínio onde ela morava com João e familiares dele. Desde então, a Polícia Civil realizou novas perícias, recolheu aparelhos eletrônicos, analisou imagens de segurança e ouviu pessoas ligadas ao caso.




