Uma caminhada realizada no domingo (27), na Avenida Beira-Mar, em Fortaleza, reuniu pacientes transplantados, familiares, pessoas que aguardam por um transplante, doadores e profissionais da saúde em uma mobilização pela conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos.
A data da atividade também marcou o Dia Nacional da Doação de Órgãos. Além da prática de exercício físico, o encontro foi espaço para homenagens e relatos de pessoas que tiveram a vida diretamente transformada por um transplante ou pela decisão de doar.
Caminhada reúne pessoas que tiveram a vida transformada pelo transplante
Para quem já precisou de um transplante, a campanha ganha um significado ligado à própria história. Diógenes de Castro passou por uma doença cardíaca e permaneceu meses internado antes de conseguir realizar o procedimento.
Ele conta que enfrentou quatro tentativas até que o transplante pudesse ser realizado. A experiência fez com que passasse a defender o aproveitamento de órgãos e tecidos que podem ser destinados a outras pessoas.
“Já doeu o meu velho coração. Ele foi para Curitiba retirar as válvulas e salvar alguém. Quer dizer, você não pode desperdiçar nada que pode ser dado. Por isso que a campanha é de órgãos e tecidos, por causa disso, que tem as córneas, válvulas, tem osso, tem pele. Tudo pode ser transplantado, uma pessoa pode salvar oito”, afirma Diógenes de Castro, transplantado.
Durante a caminhada, diferentes personagens ligados aos transplantes foram homenageados. A atividade reuniu pacientes que receberam órgãos, familiares, doadores e profissionais envolvidos na assistência à saúde.
Transplantados relatam importância de um “sim” para a doação
Vera Santos recebeu um transplante de fígado há 23 anos. Desde então, segundo ela, a relação com os familiares da pessoa que possibilitou o transplante permaneceu próxima e se transformou em uma forma de preservar a gratidão pelo gesto.
“A família do doador, eu tenho uma amizade enorme com eles, a gente se dá muito bem, eu chamo meus irmãos, que eu sou eternamente grata a eles. Porque no momento de muita dor, eles disseram sim e salvaram minha vida”, explica Vera Santos, presidente da Associação Cearense dos Pacientes Hepáticos Transplantados.
A história de Roni Figueiredo também está diretamente ligada à doação. Ele recebeu um rim da própria irmã há mais de 35 anos e, atualmente, atua na defesa da causa.
Segundo Roni, a decisão da irmã mudou sua trajetória e contribuiu para que ele passasse a atuar na conscientização sobre a doação de órgãos.
“Ela foi minha doadora aos 20 anos de idade, dividiu a vida dela comigo. Deus me deu essa irmã para que eu pudesse ter o rim dela, ela me salvar. E eu estou aqui hoje fazendo esse trabalho de ativismo em defesa da doação de órgãos há 40 anos”, afirma Roni Figueiredo, transplantado e presidente da Asprede.
As histórias compartilhadas durante o evento mostraram diferentes etapas relacionadas aos transplantes: a espera pelo órgão, o recebimento, a relação com familiares de doadores e a mobilização para conscientizar outras pessoas.
Família de Maria Sofia é homenageada por campanha de doação
Entre as homenagens realizadas na caminhada esteve a campanha Maria Sofia, do Grupo Cidade de Comunicação. A estudante e influenciadora precisou de um transplante e sua história passou a integrar ações de conscientização sobre a doação de órgãos.
Após a morte da filha, Gaída Dias autorizou a doação dos órgãos de Maria Sofia. A decisão possibilitou que outras pessoas recebessem órgãos destinados ao transplante.
Diretora de Marketing da TV Cidade, Gaída foi homenageada durante o evento e recebeu um certificado como madrinha das associações. Ela também participou de um momento simbólico com a soltura de balões em homenagem aos pacientes transplantados.
Emocionada, ela falou sobre o significado da decisão tomada pela família e sobre a importância de discutir o tema antes de uma situação de luto.
“Hoje é um dia muito importante para a nossa vida, para a vida da minha família, o Dia Nacional da Doação de Órgãos. E nós que tivemos a honra de receber um sim e demos também um sim para outras famílias. Então, eu não estava programada para essa emoção, mas isso foi muito natural. E eu acho que a nossa vida, ela é assim, a gente dar o sim para poder salvar outras vidas, acho que é o maior significado, a gratidão”, destaca Gaída Dias.
A experiência também fez com que Gaída passasse a defender que o assunto seja discutido entre familiares. Para ela, falar previamente sobre a vontade de doar pode ajudar a família a compreender a decisão em um momento de perda.
“Eu não tinha como rezar pedindo para uma pessoa morrer. Eu rezei para que uma pessoa desse sim. E nós recebemos esse sim. Então hoje, sempre que eu toco no assunto, é emoção, vão fazer três anos, mas é como se tivesse sido ontem. E todo dia as pessoas estão precisando desse sim. Então fica aqui a nossa dica, fica o nosso apelo para que as pessoas possam conversar com seus familiares e darem o sim, entenderem da melhor forma possível para que a gente possa salvar vidas”, conclui Gaída Dias.
Mobilização reforça importância de conversar com a família
A caminhada realizada na Beira-Mar levou para um espaço público histórias de pessoas diretamente ligadas ao universo dos transplantes. O objetivo da mobilização foi ampliar a conscientização sobre a doação e estimular o diálogo dentro das famílias.
Os relatos apresentados durante o evento mostraram perspectivas diferentes sobre o tema. Há pacientes que receberam órgãos, familiares que acompanharam a espera por um transplante e pessoas que participaram da decisão de doar em meio à perda de alguém próximo.
Para os transplantados, o órgão recebido representa uma nova etapa da vida. Já para familiares de doadores, a decisão pode representar a possibilidade de outras pessoas continuarem suas histórias mesmo diante do luto.
Por isso, a conversa dentro de casa apareceu como um dos principais pontos da mobilização. Conhecer previamente a vontade de um familiar pode ajudar a tornar mais clara uma decisão que poderá ser necessária em uma situação de perda.
A presença de transplantados, familiares, doadores e profissionais da saúde também reforçou a dimensão coletiva da campanha. As experiências individuais compartilhadas na caminhada foram utilizadas como forma de aproximar a população de um tema que envolve tanto saúde quanto decisões familiares.




