O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta segunda-feira (28), durante ato de campanha em Belém, que ninguém vai “avacalhar” com Nossa Senhora Aparecida enquanto ele estiver na Presidência da República. A declaração ocorreu em meio à repercussão de conteúdos que associaram o candidato Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta proposta para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.
Lula também defendeu o respeito às diferentes manifestações religiosas e citou especificamente as religiões de matriz africana.
“Enquanto eu for presidente da República, ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora Aparecida. As pessoas precisam aprender a respeitar todas as religiões, principalmente as religiões de Matriz Africana. Ninguém é dono da verdade.”
A fala ocorreu no contexto da disputa eleitoral de 2026 e de uma controvérsia que ganhou força nas redes sociais nos últimos dias. O conteúdo que circulou vinculava Flávio Bolsonaro a uma proposta legislativa antiga, apresentada muito antes da atual campanha eleitoral.
Após a declaração, uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará, foi levada até Lula. O presidente levantou a imagem diante do público presente no ato.
A manifestação de Lula também veio um dia depois de o presidente abordar o assunto em entrevista. No domingo (27), ele havia comentado a possibilidade de retirada do título de Nossa Senhora Aparecida e afirmou que considerava a ideia inaceitável.
Durante a entrevista, a jornalista Adriana Araújo questionou Lula sobre a possibilidade de a informação ser uma fake news.
“Mas foi uma fake news, né, presidente?”
Na sequência, Lula respondeu:
“Eu não sei se foi fake news.”
A declaração gerou nova repercussão sobre a forma como o episódio passou a ser tratado na campanha presidencial.
Polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida envolve projeto apresentado em 2007
A origem da controvérsia está em um projeto de lei que realmente existiu, mas que não foi apresentado por Flávio Bolsonaro e está arquivado há anos.
Trata-se do PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, do PMDB de Mato Grosso. Segundo o registro oficial da Câmara dos Deputados, a proposta pretendia alterar a Lei nº 6.802, de 1980, que trata do feriado nacional de 12 de outubro.
O texto propunha substituir na legislação a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta, portanto, alterava a forma como o título aparecia na legislação relacionada ao feriado.
O projeto não avançou no Congresso.
A Comissão de Educação e Cultura da Câmara rejeitou a proposta, e posteriormente a Mesa Diretora determinou seu arquivamento. O registro oficial da Câmara aponta que o arquivamento ocorreu em 22 de agosto de 2008, após o encerramento do prazo para recurso.
A própria Câmara voltou a tratar do assunto em 2018, quando publicou uma reportagem esclarecendo que o projeto estava arquivado e que circulavam nas redes sociais informações falsas sobre uma suposta tramitação do texto.
Portanto, o projeto citado na atual polêmica não é uma proposição nova de 2026 nem uma iniciativa apresentada por Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro nega relação com proposta sobre a Padroeira do Brasil
A circulação do conteúdo levou Flávio Bolsonaro a se manifestar publicamente. O candidato negou ter qualquer projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e classificou a informação como falsa.
Em vídeo divulgado durante a repercussão do caso, Flávio afirmou:
“Isso é uma grande mentira, não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto.”
O candidato também relacionou a disseminação do conteúdo a adversários políticos e afirmou que sua equipe jurídica avaliava medidas relacionadas ao caso.
A controvérsia ganhou dimensão eleitoral porque as publicações passaram a relacionar o projeto de 2007 a declarações feitas pelo próprio Flávio Bolsonaro em agosto.
Na ocasião, ao explicar sua ausência em um debate presidencial, o candidato afirmou:
“Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.”
A frase passou a circular novamente nas redes sociais junto com referências ao antigo projeto de lei. A combinação das duas informações foi utilizada em publicações para sustentar a ideia de que Flávio poderia apoiar uma mudança na condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
O projeto, porém, foi apresentado em 2007 por Victório Galli e arquivado em 2008. A ficha oficial da Câmara não associa a proposição a Flávio Bolsonaro.
Como surgiu a associação entre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida
A associação entre o candidato e o antigo projeto passou a ganhar força nas redes sociais durante a reta final do primeiro turno.
A repercussão levou o tema para o centro do debate eleitoral e também para a esfera judicial. Reportagens recentes registraram que o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de conteúdos que tratavam como verdadeira a informação de que Flávio ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Posteriormente, a discussão avançou para uma disputa sobre os limites da remoção de conteúdos durante o período eleitoral. O tema deixou de envolver apenas a associação entre Flávio e o projeto de 2007 e passou a incluir também questionamentos sobre decisões judiciais e liberdade de expressão.
A dimensão da repercussão nas redes também foi expressiva. Levantamento do Instituto DX citado pelo Poder360 contabilizou 977,6 mil publicações e 8,5 milhões de interações sobre o episódio até a tarde de sábado (26). Os números mostram como uma proposta legislativa arquivada há quase duas décadas voltou a circular em um contexto eleitoral.
Nossa Senhora Aparecida volta ao centro do debate eleitoral
A polêmica colocou a religião novamente entre os assuntos abordados pelos candidatos e pelas campanhas durante a reta final do primeiro turno.
No caso de Lula, a referência a Nossa Senhora Aparecida foi acompanhada da defesa do respeito às diferentes religiões. Em Belém, o presidente também mencionou especificamente as religiões de matriz africana.
Já Flávio Bolsonaro passou a concentrar sua reação na negativa de que exista atualmente uma proposta sua para modificar a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
O ponto objetivo sobre o projeto mencionado nas redes é confirmado pelo histórico oficial do Congresso: o PL 2.623/2007 existiu, foi apresentado por Victório Galli e propunha uma alteração na legislação relacionada ao título da santa. A proposta foi rejeitada e arquivada em agosto de 2008.
Assim, a discussão atual reúne três elementos diferentes que passaram a ser associados nas redes: uma proposta legislativa antiga, declarações recentes de Flávio Bolsonaro sobre sua visão religiosa e manifestações de Lula durante a campanha.
A separação desses fatos é importante para compreender a origem da controvérsia. O projeto que voltou a circular não está em tramitação e não foi apresentado pelo candidato do PL em 2026. O que existe é um texto legislativo de 2007, já arquivado, que passou a ser relacionado à atual disputa eleitoral por meio das publicações que circulam nas redes sociais.
Com a proximidade do primeiro turno, a discussão sobre Nossa Senhora Aparecida se tornou mais um episódio em que religião, redes sociais e política passaram a se cruzar na campanha presidencial de 2026.




