A cada quatro anos, milhões de cearenses ajudam a definir a composição da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). Embora 46 deputados estaduais sejam eleitos, alguns nomes se destacam ao concentrar votações que os colocam no topo da preferência do eleitorado.
Nas últimas seis eleições estaduais, entre 2002 e 2022, os candidatos mais votados foram Delegado Cavalcante, Marcos Cals, Camilo Santana, Capitão Wagner, André Fernandes e Carmelo Neto. A lista atravessa diferentes momentos da política cearense e ajuda a mostrar como o perfil dos campeões de votos mudou ao longo de duas décadas.
Dos políticos ligados a estruturas partidárias tradicionais e bases eleitorais consolidadas no interior, o Ceará passou a registrar, mais recentemente, o crescimento de candidaturas jovens e fortemente impulsionadas pelas redes sociais.
Em 2026, 353 candidatos disputam as 46 vagas na Assembleia Legislativa. O novo resultado mostrará quem ocupará o posto de deputado estadual mais votado do Ceará e se a tendência observada nos dois últimos pleitos será mantida.
Mais votados para deputado estadual no Ceará
Nas seis eleições realizadas entre 2002 e 2022, estes foram os candidatos a deputado estadual que receberam o maior número de votos no Ceará:
- 2002 – Delegado Cavalcante (PSDB): 140.929 votos
- 2006 – Marcos Cals (PSDB): 104.350 votos
- 2010 – Camilo Santana (PT): 131.171 votos
- 2014 – Capitão Wagner (PR): 194.239 votos
- 2018 – André Fernandes (PSL): 109.742 votos
- 2022 – Carmelo Neto (PL): 118.603 votos
Entre eles, Capitão Wagner registrou a maior votação do período analisado. Em 2014, recebeu 194.239 votos, equivalentes a 4,34% dos votos válidos destinados aos candidatos ao cargo naquele pleito. A marca permanece como a maior entre os campeões de votos das seis eleições consideradas no levantamento.
De Camilo Santana a Capitão Wagner
Os resultados também retratam diferentes momentos da política estadual. Em 2002, Delegado Cavalcante, então filiado ao PSDB, liderou a votação para a Assembleia Legislativa com 140.929 votos. Quatro anos depois, outro tucano ficou na primeira posição: Marcos Cals, com 104.350 votos.
Em 2010, o posto passou para Camilo Santana (PT), que recebeu 131.171 votos. Naquele momento, Camilo iniciava a trajetória parlamentar que, anos depois, o levaria ao Governo do Ceará e ao Senado.
A eleição seguinte produziu a maior votação da série analisada. Em 2014, Capitão Wagner, então no PR, conquistou 194.239 votos e ficou muito à frente da segunda colocada, Aderlânia Noronha (Solidariedade), que recebeu 97.172 votos. A diferença entre os dois primeiros colocados naquele ano foi superior a 97 mil votos.
André Fernandes e Carmelo Neto lideraram as duas últimas eleições
A partir de 2018, o perfil do candidato mais votado passou por uma mudança significativa. Naquele ano, André Fernandes (PSL), então com 20 anos, foi eleito deputado estadual com 109.742 votos. Quatro anos depois, Carmelo Neto (PL), aos 21 anos, repetiu o desempenho de uma candidatura jovem ao terminar a eleição na primeira posição, com 118.603 votos.
Em 2022, a disputa pelas primeiras colocações foi mais equilibrada. Depois de Carmelo, apareceram Evandro Leitão (PDT), com 113.808 votos; Marta Gonçalves (PL), com 112.787; e Fernando Santana (PT), com 111.639.
A professora de Ciência Política da Universidade Federal do Ceará (UFC), Paula Vieira, avalia que a influência dos meios de comunicação na construção de lideranças políticas não surgiu com as redes sociais, mas ganhou novas características com a expansão das plataformas digitais.
“Enquanto eles conseguirem movimentar estratégias de impacto nas redes sociais, com linguagens e comunicação específica, devem manter o interesse de usuários dessas redes”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, televisão e rádio já exerciam esse papel anteriormente, mas a internet ampliou as possibilidades de comunicação direta entre candidatos e determinados segmentos do eleitorado.
Bases eleitorais continuam importantes
Apesar da ascensão das redes sociais, a força das bases territoriais continua sendo um elemento relevante nas eleições para a Assembleia Legislativa.
Entre 2002 e 2022, alguns parlamentares conseguiram atravessar diferentes ciclos eleitorais mantendo presença na Alece. Zezinho Albuquerque, João Jaime e Osmar Baquit, por exemplo, foram eleitos nos seis pleitos realizados no período analisado.
Para Paula Vieira, a manutenção de vínculos políticos locais ajuda a explicar a longevidade de determinados nomes.
“A base territorial tende a ser mais permanente. Estar na chapa dos candidatos mais competitivos auxilia a ter visibilidade da candidatura dos deputados estaduais. São capitais políticos que podem ser mobilizados”, esclareceu a professora.
Ao longo das duas décadas, também houve mudanças de partido entre parlamentares que permaneceram competitivos. Parte dessas movimentações acompanhou alterações nas alianças e nos grupos que ocuparam o Governo do Ceará.
Segundo Paula, essa adaptação pode aumentar as possibilidades eleitorais dos candidatos e, ao mesmo tempo, contribuir para que parte do eleitorado estabeleça uma identificação maior com grupos políticos e lideranças do que propriamente com as siglas.
Como são eleitos os deputados estaduais?
A votação para deputado estadual funciona de maneira diferente das disputas majoritárias para presidente, governador e senador. Os deputados são escolhidos pelo sistema proporcional. Isso significa que não basta simplesmente ordenar os 46 candidatos mais votados individualmente para definir quem ocupará as vagas da Assembleia.
Os votos dados aos candidatos e os votos de legenda entram nos cálculos que determinam quantas cadeiras cada partido ou federação poderá conquistar. Depois, as vagas são preenchidas pelos candidatos conforme as regras do sistema proporcional.
Por isso, um candidato com votação individual inferior à de outro concorrente pode ser eleito enquanto o adversário fica sem mandato, a depender do desempenho das respectivas legendas ou federações.
Nas últimas décadas, o voto nominal ganhou ainda mais peso entre os eleitores cearenses. Em 2002, os votos de legenda representavam 13,17% da votação para deputado estadual. Em 2022, essa participação ficou em aproximadamente 7,23%.
Mulheres avançaram na Assembleia, mas continuam minoria
Outra transformação observada ao longo das últimas eleições está na participação feminina. Em 2022, nove mulheres foram eleitas deputadas estaduais, o maior número dentro do período analisado. Elas representaram aproximadamente 19,5% das 46 cadeiras da Assembleia.
Em eleições anteriores, a presença feminina havia oscilado. Foram seis eleitas em 2002, duas em 2006, seis em 2010, sete em 2014 e seis em 2018.
Algumas mulheres também chegaram às primeiras posições da votação geral. Em 2014, Aderlânia Noronha foi a segunda candidata mais votada do Ceará, com 97.172 votos. Em 2022, Marta Gonçalves terminou na terceira posição geral, com 112.787 votos.
Mesmo com o avanço, a presença feminina no Legislativo estadual continua proporcionalmente inferior à participação das mulheres na população cearense.
Paula Vieira aponta dificuldades enfrentadas pelas candidaturas femininas dentro das próprias estruturas partidárias.
“Campanhas de mulheres não tendem a ser prioridade de investimento do partido, seja investimento político, seja investimento econômico.”
Eleição de 2026 definirá novo campeão de votos
Neste domingo (4), o Ceará voltará às urnas para escolher os 46 deputados estaduais que formarão a próxima legislatura da Assembleia. O resultado também mostrará quem ocupará o topo da votação individual em 2026.
A comparação com os pleitos anteriores permitirá observar se o eleitorado manterá a tendência recente de colocar candidaturas jovens e com forte presença digital nas primeiras posições ou se um perfil diferente aparecerá entre os candidatos mais votados.
Texto produzido pela estagiária Fernanda Duarte, sob supervisão de Igor Silveira.



