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ELEIÇÕES

Fortaleza decide a eleição? Entenda o peso da capital e do interior na disputa pelo Governo do Ceará

Com cerca de 2,4 milhões de habitantes, a capital concentra uma parcela relevante do eleitorado cearense e também funciona como centro político, econômico e de formação de lideranças

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Fortaleza pesa na eleição estadual, mas não decide sozinha o Governo do Ceará
O comportamento dos eleitores costuma variar entre capital e interior, e entender essas diferenças pode ser fundamental para entender os rumos das eleições no Ceará. Foto: Divulgação / Justiça Eleitoral

Fortaleza ocupa uma posição particular nas eleições para o Governo do Ceará. É a maior cidade do estado, concentra uma parcela expressiva da população, reúne instituições políticas e econômicas e funciona como espaço de projeção para lideranças que pretendem ampliar sua atuação para além da capital. Ao mesmo tempo, a eleição estadual não se resolve apenas dentro dos limites da cidade.

O histórico recente ajuda a explicar essa relação. Em 2018, Camilo Santana (PT) venceu a disputa pelo governo tanto em Fortaleza quanto no interior do Ceará. Quatro anos depois, porém, o mapa foi diferente: Capitão Wagner (União) foi o mais votado na capital, enquanto Elmano de Freitas (PT) terminou a eleição estadual na primeira colocação.

Leia também: Lei Seca nas Eleições 2026: veja estados e horários da proibição de bebidas

Os resultados põem em questão o relevo da cidade no cenário estadual, mas também as diferenças fundamentais entre o eleitorado presente na capital e aquele do interior do estado.

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Relevância de Fortaleza vai para além dos números

Para Paula Vieira, socióloga, cientista política e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará (Lepem-UFC), a dimensão de Fortaleza explica parte desse peso, mas o alcance territorial é indispensável em uma eleição majoritária estadual.

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“Quando se pensa em eleições estaduais, dificilmente se elege apenas com os votos da capital. Há maior chance quando é para deputado estadual. Entretanto, federal, senado e governo precisam, necessariamente, expandir.”

O Censo 2022 registrou 2.428.708 habitantes em Fortaleza, diante de 8.794.957 em todo o Ceará. A capital, portanto, concentrava cerca de 27,6% da população estadual. A estimativa do IBGE para 2026 é de 2.582.360 habitantes em Fortaleza e 9.302.211 no Ceará.

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O peso eleitoral, porém, não se resume à quantidade de votos. A capital também concentra meios de comunicação, instituições, segmentos empresariais, organizações sociais e parte significativa das estruturas que participam da organização de uma campanha.

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Mariana Dionisio, cientista política, considera que esse conjunto transforma uma votação expressiva em Fortaleza em um ativo político que pode ultrapassar a própria apuração municipal.

“Fortaleza funciona como um polo político, e o que se ganha nessa eleição se converte em outros tipos de capital, como o aumento na visibilidade dos candidatos, o ganho do status de liderança política consolidada e o consequente ganho de musculatura no campo das decisões das alianças.”
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O que as eleições de 2018 e 2022 mostram

Os números das duas últimas eleições gerais ajudam a visualizar a diferença entre a votação da capital e a do estado.

Em 2018, Camilo Santana recebeu 79,96% dos votos válidos no Ceará, segundo os dados apresentados para a comparação. Em Fortaleza, ficou com 62,32%. General Theophilo (PSDB), por sua vez, teve 11,30% no Estado e 22,45% na capital.

A diferença é ainda mais evidente entre os candidatos seguintes. Hélio Góis (PSL) alcançou 6,53% no Ceará e 9,89% em Fortaleza. Ailton Lopes (PSOL) passou de 2,10% no Estado para 5,09% na capital, enquanto Gonzaga (PSTU) teve 0,12% no Ceará e 0,24% em Fortaleza.

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Em 2022, o comportamento foi diferente. Capitão Wagner obteve 31,72% dos votos válidos no Estado e chegou a 41,51% em Fortaleza. Elmano de Freitas, que venceu a eleição estadual com 54,02%, registrou 37,62% na capital. Roberto Cláudio (PDT) teve 14,14% no Ceará e 20,67% em Fortaleza.

O contraste é suficiente para mostrar que a capital pode produzir um resultado diferente daquele observado no conjunto do estado. Em 2022, por exemplo, Wagner terminou à frente em Fortaleza, mas Elmano venceu a disputa estadual. Elmano foi eleito no primeiro turno, com 2.808.300 votos e 54,02% dos válidos.

Na prática, portanto, Fortaleza tem capacidade de alterar a aritmética de uma eleição, mas não funciona como um retrato isolado do Ceará.

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Fortaleza como ponto de partida para lideranças estaduais

A relação entre capital e estado também aparece na trajetória de políticos que construíram sua carreira inicialmente em Fortaleza e depois ampliaram a atuação para outras regiões.

Um dos exemplos é Capitão Wagner. Antes de chegar à Câmara dos Deputados, ele foi vereador de Fortaleza entre 2013 e 2014 e deputado estadual entre 2014 e 2018, além de uma disputa pela Prefeitura de Fortaleza, tendo chegado ao segundo turno em 2016.

Luizianne Lins apresenta outro percurso de origem fortalezense. Nascida em Fortaleza, ela foi vereadora da capital de 1996 a 2002, deputada estadual de 2002 a 2004 e prefeita da cidade por dois mandatos, entre 2005 e 2012. Depois, ampliou a atuação para o Congresso Nacional, onde exerceu mandatos de deputada federal. Agora, tenta uma vaga no Senado.

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Em outro momento da história política cearense, Tasso Jereissati também se projetou a partir da capital. Natural de Fortaleza, iniciou a trajetória eleitoral ao ser eleito governador em 1986 e posteriormente voltou ao cargo em outros dois mandatos, além de ter exercido o mandato de senador.

Essas trajetórias não significam que a capital seja necessariamente suficiente para uma candidatura estadual. Elas ajudam a demonstrar, porém, como Fortaleza pode funcionar como espaço de construção de reconhecimento político, exposição pública e formação de redes que posteriormente podem ser levadas para outros territórios.

Para Mariana Dionisio, essa expansão não deve ser tratada como uma regra em apenas uma direção.

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“Não dá para afirmar como regra que é mais fácil estadualizar a influência da capital para o interior do que o contrário. O que a literatura na Ciência Política mostra é que cada origem traz vantagens e dívidas diferentes, e o que decide é a capacidade de montar ponte com o outro território.”

A cientista política aponta ainda uma diferença entre reconhecimento público e capacidade de mobilização eleitoral. Na capital, a exposição de uma liderança pode ser maior; no interior, redes formadas por prefeitos, vereadores e lideranças locais podem ter outro papel na organização das campanhas.

“Reconhecimento não é voto. O eleitor da capital tende a votar de forma mais individualizada, guiado por imagem, mídia e avaliação de governo. No interior pesam mais os prefeitos, vereadores e lideranças locais, que funcionam como intermediários do voto.”
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Capital e interior não formam blocos políticos permanentes

A divisão entre Fortaleza e interior também costuma ser descrita a partir de uma oposição entre direita e esquerda. As especialistas, porém, colocam ressalvas a uma leitura exclusivamente ideológica.

Paula Vieira reconhece a concentração recente de votos da direita na capital e na Região Metropolitana e um desempenho proporcionalmente maior da esquerda em diferentes áreas do interior. Para ela, entretanto, a organização dos grupos políticos e das prefeituras ajuda a explicar essa distribuição.

“Quando a gente olha, para olhar como é que está sendo votado de capital a interior, o principal é ver com quem estão os grupos políticos do estado.”
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A pesquisadora ressalta que essa configuração não é permanente. O próprio histórico eleitoral do Ceará mostra momentos em que o interior apresentou forte identificação com o PSDB, partido de Tasso Jereissati, enquanto o cenário atual tem outra composição.

“Depende dos grupos políticos que estão formados. Para ganhar um Governo do Estado, para sustentar, sustentar no sentido de ter um Governo do Estado que funcione e que chegue no território estadual, precisa ter grupos políticos como aliados. Desde os governos do Cid Gomes nós temos os grupos políticos, o Governo do Estado, alinhados com quem está no governo, então a tendência é que esses grupos estejam com o apoio da esquerda.
Mapas dos resultados das eleições de 2002 (à esquerda) e de 2022 (à direita), no Ceará. Em 2002, a maior parte do interior do estado votou no candidato do PSDB, Lúcio Alcâncatara, enquanto Fortaleza deu mais votos a José Airton, do PT. Já em 2022, exatamente 20 anos depois, Elmano de Freitas (PT) venceu em quase todo o interior do Ceará, enquanto Capitão Wagner (União Brasil) venceu na capital. Foto: Reprodução / Wikimedia Commons

Mariana Dionisio também trata a divisão como uma tendência, que não deve ser usada para fazer previsões:

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“A correlação existe, mas com duas ressalvas: ela é uma tendência e não uma regra, e só em parte é ideológica.”

Na avaliação dela, a capital possui um eleitorado urbano e heterogêneo, no qual temas como segurança, costumes e avaliação dos governos podem assumir peso diferente daquele observado em municípios do interior. Mesmo dentro de Fortaleza, contudo, o comportamento eleitoral não é uniforme.

“O interior vota em quem entrega, e a capital é mais sensível a temas de costumes, segurança e rejeição ao partido do governo. Quando o PSDB controlava o estado, o interior era tucano, e hoje ele pende para quem governa e tem ligação com o governo federal. Se o poder mudar de mãos, esse mapa pode se redesenhar, como já aconteceu antes. Além disso, a divisão ocorre também dentro da cidade: bairros nobres como Aldeota e Meireles votam de modo muito diferente das periferias, e muitas delas ainda votam com tendência numérica à esquerda."
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O papel das alianças para chegar ao interior

A diferença entre capital e interior também passa pela estrutura de alianças. Uma candidatura que parte de Fortaleza pode ter maior exposição e acesso a estruturas políticas, mas precisa estabelecer conexões com diferentes regiões para transformar esse reconhecimento em votos distribuídos pelo estado.

Paula Vieira destaca que a dimensão territorial das alianças é especialmente importante em uma eleição para governador.

“Nas eleições estaduais do Ceará, ter um arco pequeno de alianças é desvantagem.”
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Na leitura da pesquisadora, prefeitos e grupos políticos municipais funcionam como estruturas de sustentação territorial. Essa lógica ajuda a explicar por que uma candidatura pode apresentar desempenho muito diferente na capital e no interior, mesmo quando a disputa é nacionalizada ou marcada por divisões ideológicas.

Mariana Dionisio acrescenta outro aspecto: a campanha estadual também exige recursos humanos, financeiros e técnicos que estão mais concentrados na capital.

“Doadores de campanha, empresários e associações estão concentrados na capital, o que significa que um desempenho forte nas urnas facilita captação de recursos e atrai quadros técnicos e cabos eleitorais experientes, o que ajuda a expandir a campanha para o interior.”
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Por que Fortaleza continua sendo estratégica em 2026

Na eleição de 2026, a divisão entre capital e interior ganha relevância no sentido em que uma diferença maior de votos entre um e outro pode fazer a eleição pender para um dos dois lados. Isso é eleitoralmente importante especialmente em uma disputa que se desenha como acirrada, conforme é possível inferir nas últimas pesquisas eleitorais divulgadas — Elmano e Ciro aparecem com pontuações próximas, consistentemente.

As especialistas descrevem uma disputa territorializada, com comportamentos distintos entre capital, Região Metropolitana e interior. na Dionisio acrescenta outro aspecto: a campanha estadual também exige recursos humanos, financeiros e técnicos que estão mais concentrados na capital.

Mariana Dionisio explica como isso vem guiando as estratégias das campanhas:

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“Aqui a vantagem na capital deixa de ser um bônus e passa a ser o centro da estratégia dos dois lados, porque os campos têm forças quase opostas. Ciro tem maior vantagem na Capital e Região Metropolitana, enquanto Elmano é mais forte no Interior, com Lula, Camilo Santana, prefeitos e a máquina pública. Quando cada candidato domina um território diferente, a disputa vira uma soma de blocos, e Fortaleza pesa mais do que o tamanho do seu eleitorado, e é justamente por isso que os dois estão concentrando tanta energia na capital. Para Ciro Gomes, a capital é a base de sustentação: se ele abrir boa vantagem em Fortaleza, pode compensar o interior. Para Elmano de Freitas, o objetivo é reduzir o prejuízo em Fortaleza, e por isso a chapa escalou Luizianne Lins para o enfrentamento ao cirismo na capital."

Paula Vieira ecoa a observação, mas destaca ainda que Ciro, para além da capital, consegue ter votos também em outras partes do estado, como em Sobral, sua terra natal. Destaca ainda o apoio do prefeito de Juazeiro do Norte, Glêdson Bezerra (Podemos), importante polo da região do Cariri:

“Outros não conseguiram esse alcance porque, quando a campanha de fato se inicia, há ativos políticos que são movimentados pela máquina do governo. Isso significa que ações e políticas passam a ser vinculadas a figura de quem está no governo e aciona o apoio das prefeituras dos grupos políticos que estão na base."
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