As eleições para senador no Ceará passaram por diferentes ciclos políticos nas últimas quatro décadas, com alternância de partidos, ex-governadores, lideranças tradicionais e nomes que chegaram ao Senado em momentos de mudanças no cenário estadual e nacional. Em 2026, a disputa terá uma característica que não aparece em todas as eleições: cada eleitor cearense terá dois votos para senador, porque duas das três cadeiras do Estado estarão em disputa.
A regra não significa que o Ceará passou a ter mais senadores. O Estado continuará representado por três parlamentares no Senado Federal. O que muda é a quantidade de vagas renovadas neste ciclo. Como o mandato de senador dura oito anos, a renovação da Casa acontece a cada quatro anos, alternando eleições para um terço e para dois terços das cadeiras.
A última eleição cearense para o Senado ocorreu em 2022, quando apenas uma vaga estava aberta. Naquele ano, o então governador Camilo Santana (PT) foi eleito com 3.389.513 votos, equivalentes a 69,80% dos votos válidos.
Quatro anos depois, o eleitor terá duas opções para preencher na urna para o cargo de senador. Os votos devem ser destinados a candidatos diferentes, e os dois mais votados serão eleitos.
Eleições para senador no Ceará: como funciona a renovação
O Senado possui 81 cadeiras, sendo três para cada estado e três para o Distrito Federal. Os senadores são eleitos pelo sistema majoritário e têm mandato de oito anos. A cada eleição geral, realizada de quatro em quatro anos, parte da composição é renovada.
Quando a renovação é de um terço, apenas uma vaga de cada estado é colocada em disputa. Foi o que ocorreu no Ceará em 2022. Quando a renovação é de dois terços, como em 2026, são duas vagas por estado.
Em 2026, as duas cadeiras escolhidas em 2018 chegam ao fim de seus respectivos mandatos. Por isso, o eleitor terá de fazer duas escolhas para o Senado. Ao todo, 54 das 81 cadeiras da Casa estarão em disputa no país.
2022: Camilo Santana teve votação expressiva

A eleição de 2022 teve apenas uma vaga para o Senado em disputa no Ceará. Camilo Santana, então governador do Estado, deixou o cargo para concorrer ao Senado e recebeu 3.389.513 votos, correspondentes a 69,80% dos votos válidos. Kamila Cardoso (Avante) obteve 1.273.272 votos.
A vitória levou Camilo ao Senado para um mandato de oito anos. Posteriormente, ele deixou o exercício do mandato para assumir o Ministério da Educação no governo federal, e a vaga passou a ser ocupada pela primeira suplente, Augusta Brito.
A eleição de 2022 ocorreu em um cenário nacional marcado pela disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. No Ceará, Camilo estava politicamente ligado ao campo que apoiava Lula, enquanto a disputa pelo governo estadual também envolvia uma reorganização das forças políticas.
2018: Cid Gomes e Eduardo Girão foram eleitos

Quatro anos antes, a configuração era diferente. Em 2018, duas vagas estavam em disputa no Ceará. Os eleitos foram Cid Gomes (PDT), com 3.228.533 votos (41,62%), e Eduardo Girão (PROS), com 1.325.786 votos (17,09%). Eunício Oliveira (MDB), que tentava a reeleição, ficou em terceiro, com 1.313.793 votos (16,93%).
Aquele pleito ocorreu em um ambiente político nacional de mudanças. Jair Bolsonaro foi eleito presidente, enquanto, no Ceará, a disputa pelo Senado reuniu diferentes grupos políticos.
A eleição de Cid também marcou o retorno do ex-governador a uma disputa majoritária no Ceará depois de ter comandado o Executivo estadual por dois mandatos.
2014: Tasso Jereissati voltou ao Senado

Em 2014, apenas uma cadeira estava em disputa. Tasso Jereissati (PSDB) foi eleito com 2.314.796 votos, ou 57,91%. O segundo colocado foi Mauro Benevides Filho (PROS), com 1.573.732 votos, correspondentes a 39,37%.
A eleição marcou o retorno de Tasso ao Senado depois de um período fora da Casa. O tucano já havia ocupado o cargo anteriormente e também havia sido governador do Ceará.
2010: Eunício Oliveira e José Pimentel conquistaram duas vagas

Em 2010, novamente duas cadeiras estavam disponíveis. Eunício Oliveira (PMDB) foi o mais votado, com 2.688.833 votos (36,32%), seguido por José Pimentel (PT), que recebeu 2.397.851 votos (32,39%).
Tasso Jereissati (PSDB), que buscava a reeleição, terminou em terceiro, com 1.754.567 votos, ou 23,70%. O resultado mudou a composição da bancada cearense no Senado. Tasso, que havia sido eleito em 2002 e retornado à disputa em 2010, não conseguiu permanecer na Casa naquele ciclo.
2006: Inácio Arruda venceu disputa apertada

Em 2006, uma vaga estava em disputa. Inácio Arruda (PCdoB) foi eleito com 1.912.663 votos (52,25%). O segundo colocado foi Moroni Torgan (PFL), com 1.680.362 votos, equivalentes a 45,90%.
A diferença entre os dois foi menor do que a observada em outras eleições recentes para o Senado no Ceará. A disputa ficou concentrada entre as duas candidaturas, com os demais concorrentes somando uma parcela menor da votação.
2002: Tasso Jereissati e Patrícia Saboya foram eleitos

A eleição de 2002 colocou novamente duas vagas em disputa. Tasso Jereissati (PSDB) terminou em primeiro, com 1.915.781 votos (31,52%), enquanto Patrícia Saboya (PPS) recebeu 1.864.404 votos (30,67%).
Naquele momento, Tasso ocupava o cargo de governador do Ceará e concorreu ao Senado. Patrícia Saboya também já tinha trajetória política no Estado. Os dois ficaram separados por pouco mais de 50 mil votos, em uma eleição na qual outros candidatos também tiveram votações expressivas.
1998 e 1994: alternância entre uma e duas vagas
Luiz Pontes

Em 1998, apenas uma cadeira foi renovada. Luiz Pontes (PSDB) foi eleito com 1.433.020 votos (62,22%), enquanto Paes de Andrade (PMDB) teve 734.180 votos, ou 31,88%.
Lúicio Alcântara e Sérgio Machado

Quatro anos antes, em 1994, duas vagas estavam em disputa. Lúcio Alcântara (PDT) venceu com 1.193.819 votos (30,34%) e Sérgio Machado (PSDB) foi eleito com 888.961 votos (22,60%).
A eleição de 1994 também teve a participação de dois senadores que buscavam permanecer no cargo: Mauro Benevides e Cid Sabóia de Carvalho. Eles terminaram, respectivamente, com 11,70% e 9,82%.
1990: Beni Veras foi eleito após a redemocratização

Na eleição de 1990, a única vaga em disputa ficou com Beni Veras (PSDB), que recebeu 1.026.965 votos (52,87%). Paes de Andrade (PMDB) ficou em segundo, com 752.950 votos (38,77%), e Durval Ferraz (PT) teve 162.415 votos (8,36%).
O pleito ocorreu no período de consolidação das instituições democráticas após a Constituição de 1988, em uma fase de reorganização dos partidos e das forças políticas nacionais e estaduais.
1986: Mauro Benevides e Cid Sabóia abriram o período democrático

A eleição de 1986 é um marco para esta retrospectiva por ter ocorrido durante o processo de redemocratização do país. Duas vagas estavam em disputa, e as duas foram conquistadas por candidatos do PMDB: Mauro Benevides, com 1.219.289 votos (30,44%), e Cid Sabóia de Carvalho, com 950.231 votos (23,72%).
O resultado colocou dois representantes do mesmo partido na bancada cearense. Os dados do Senado também registram Mauro Benevides e Cid Sabóia entre os representantes do Ceará na legislatura iniciada em 1987.
A partir daí, a história recente das eleições para o Senado no Ceará passou a ser marcada pela alternância entre pleitos com uma e duas vagas, seguindo o modelo de renovação da Casa.
Disputa de 2026 chega à reta final com três nomes próximos
A eleição deste ano também apresenta uma característica destacada pela cientista política Carla Michelle Quaresma: o elevado grau de indefinição entre os eleitores na escolha para o Senado.
Ao analisar o comportamento do eleitorado, Carla afirma que essa costuma ser uma das disputas menos acompanhadas pelos votantes. "Dessas vagas da disputa para o Senado é a que o eleitor menos se envolve", afirmou.
A avaliação encontra respaldo nos levantamentos eleitorais recentes. Em pesquisa Datafolha divulgada em 25 de setembro, Cid Gomes aparecia com 23%, Capitão Wagner com 20% e Luizianne Lins com 19%, em situação de empate técnico entre os três, considerando a margem de erro.
Para Carla, justamente por serem duas vagas e haver proximidade entre os principais nomes, a definição ainda estava aberta na reta final. "O Wagner e a Luizianne disputando ali essa segunda vaga pelo menos é o que essas pesquisas têm indicado. Muito próximos, a diferença é de um ponto percentual", afirmou.
A cientista política também chama atenção para o volume de eleitores que ainda não haviam definido completamente suas escolhas. Em levantamento anterior do Datafolha, realizado no início de setembro, 67% das respostas para as duas vagas apareciam indefinidas na pergunta espontânea. Na pesquisa de 23 de setembro, esse índice havia recuado para 60%.
Carla observa que a situação é diferente para os candidatos que conseguem manter uma base mais estável durante a campanha. "Essa situação do Cid é mais confortável porque ele se mantém estável desde as primeiras pesquisas para intenção de voto para o Senado", afirmou.
Sobre Capitão Wagner, a cientista política aponta que seu desempenho apresentou oscilações ao longo da campanha. "O Wagner começou na frente e historicamente o que tem acontecido com ele nessas eleições é essa situação de perda de intenção de voto ao longo da campanha", disse.
A leitura, porém, não representa uma previsão do resultado. Pesquisas eleitorais retratam as intenções declaradas no período em que os entrevistados foram ouvidos e estão sujeitas à margem de erro e às mudanças de comportamento do eleitorado.
Participação feminina também entra no debate sobre o Senado
A composição das chapas majoritárias e a presença de mulheres nas disputas eleitorais também são temas abordados por Carla Michelle Quaresma.
A cientista política afirma que a participação feminina na política brasileira é resultado de um processo histórico marcado por exclusão. Segundo ela, apesar dos avanços institucionais, ainda existem obstáculos para que mulheres tenham condições semelhantes de disputar cargos majoritários.
"O campo da política ainda é majoritariamente masculino", afirmou Carla.
Na avaliação dela, as dificuldades não estão apenas relacionadas à cultura política. A especialista também aponta questões relacionadas à estrutura partidária, formação, organização das candidaturas e distribuição de recursos eleitorais.
"Ainda há necessidade que os partidos políticos abram mais espaços para que as mulheres realmente possam ter a formação política adequada", disse.
Carla também destaca que a competitividade eleitoral depende das condições materiais oferecidas às candidaturas. "Isso também depende da destinação dos recursos financeiros, para que realmente essas candidaturas se tornem competitivas", afirmou.
Ao comentar a disputa atual no Ceará, ela cita o caminho percorrido por Luizianne Lins para garantir espaço na chapa majoritária. A cientista política relaciona o episódio aos obstáculos históricos enfrentados por mulheres que buscam participar de eleições para cargos de maior projeção.
Candidatos ao Senado pelo Ceará em 2026:
- Alcides Fernandes (PL)
- Capitão Wagner (União)
- Catarina Matos (UP)
- Cid Gomes (PSB)
- Guilherme Theophilo (Novo)
- Lino Alves (PCO)
- Luizianne Lins (Rede)
- Reginaldo (PSTU)
Uma história de alternância que chega a 2026
A retrospectiva das eleições para o Senado no Ceará mostra como o número de vagas em disputa altera completamente a dinâmica da votação.
Em 1986, foram duas vagas. Em 1990, uma. Em 1994, duas. Em 1998, uma. Em 2002, duas. Em 2006, uma. Em 2010, duas. Em 2014, uma. Em 2018, duas. E, finalmente, em 2022, uma.
A sequência não é casual. Ela é resultado direto da regra constitucional que estabelece mandatos de oito anos e renovação alternada de um terço e dois terços da representação do Senado.
Por isso, o eleitor que em 2022 encontrou apenas uma opção para o Senado na sequência de votação terá, em 2026, duas escolhas.
A diferença é especialmente importante porque o voto para senador é majoritário. Em uma eleição de duas vagas, os dois candidatos mais votados são eleitos. Não há necessidade de alcançar metade dos votos válidos.
Assim, a eleição de 4 de outubro definirá duas das três cadeiras destinadas ao Ceará no Senado para o próximo ciclo de oito anos. A terceira continuará com o mandato iniciado em 2022.
Mais do que uma mudança na quantidade de números que o eleitor precisará digitar na urna, 2026 representa uma renovação significativa da bancada cearense na Câmara Alta. É a consequência de um sistema que combina mandatos longos com renovação periódica, permitindo que parte dos senadores permaneça na Casa enquanto outra parte é submetida novamente ao voto popular.
Resumo histórico das últimas eleições para o Senado no Ceará:
| Ano/Vagas/Eleitos/Votação | |||
| 2022 | 1 | Camilo Santana (PT) | 3.389.513 — 69,80% |
| 2018 | 2 | Cid Gomes (PDT) | 3.228.533 — 41,62% |
| Eduardo Girão (PROS) | 1.325.786 — 17,89% | ||
| 2014 | 1 | Tasso Jereissati (PSDB) | 2.314.796 — 57,91% |
| 2010 | 2 | Eunício Oliveira (PMDB) | 2.688.833 — 36,32% |
| José Pimentel (PT) | 2.397.851 — 32,39% | ||
| 2006 | 1 | Inácio Arruda (PCdoB) | 1.912.663 — 52,25% |
| 2002 | 2 | Tasso Jereissati (PSDB) | 1.915.781 — 31,52% |
| Patrícia Saboya (PPS) | 1.864.404 — 30,67% | ||
| 1998 | 1 | Luiz Pontes (PSDB) | 1.433.020 — 62,22% |
| 1994 | 2 | Lúcio Alcântara (PDT) | 1.193.819 — 30,34% |
| Sérgio Machado (PSDB) | 888.961 — 22,60% | ||
| 1990 | 1 | Beni Veras (PSDB) | 1.026.965 — 52,87% |
| 1986 | 2 | Mauro Benevides (PMDB) | 1.219.289 — 30,44% |
| Cid Sabóia de Carvalho (PMDB) | 950.231 — 23,72% |




