PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
HISTÓRIA

As eleições que mudaram o Ceará: relembre disputas históricas pelo Governo do Estado

Em ano de eleição, uma viagem pela história das urnas mostra como diferentes disputas ajudaram a transformar os grupos políticos que comandaram o Ceará nas últimas décadas

Compartilhe
As eleições que mudaram o Ceará: relembre disputas históricas pelo Governo do Estado
Disputas pelo Governo do Ceará marcaram mudanças de grupos políticos e diferentes momentos da história eleitoral do Estado. Reprodução/Memorial da Democracia

Os cearenses voltam às urnas neste domingo (4), no primeiro turno das Eleições 2026, para escolher governador, dois senadores, deputados federais e estaduais e presidente da República. A votação ocorre em um Estado cuja trajetória eleitoral nas últimas décadas foi marcada por mudanças de grupos políticos, disputas acirradas e diferentes ciclos no comando do Governo do Ceará. Nesta retrospectiva, o Portal GCMais reúne eleições apontadas por especialistas como momentos relevantes dessa trajetória, desde a vitória de Tasso Jereissati, em 1986, até a disputa que será definida neste domingo.

Leia também: Líder do 1º turno venceu todas as disputas presidenciais com 2º turno desde 1989, aponta levantamento

Ao longo das últimas quatro décadas, diferentes grupos chegaram ao Palácio da Abolição, alianças foram refeitas e projetos políticos ganharam continuidade ou foram interrompidos. Para a cientista política Carla Michele Quaresma, o ponto central para identificar uma eleição histórica está justamente na mudança de ciclo.

“Em política, existem ciclos. E a transição de um ciclo para outro é o que marca uma virada histórica. É quando há uma ruptura com um padrão antigo que já não tem mais legitimidade, que já não satisfaz a população, e há uma mudança de um projeto político para outro”, explica a cientista.

PUBLICIDADE

A partir desse critério, a eleição de 1986 aparece como um dos principais pontos de inflexão da história recente do Estado. Outros pleitos, como 1990, 2002, 2006 e 2022, ajudam a acompanhar a continuidade, o desgaste e a reorganização dos grupos que passaram pelo comando do Ceará.

PUBLICIDADE

1986: a eleição que mudou a lógica política do Ceará

Para compreender o peso da eleição de 1986, é preciso voltar ao período de redemocratização do país. Depois de anos de eleições indiretas para o governo estadual durante a ditadura militar, os cearenses voltaram a escolher diretamente o governador.

Naquele ano, o empresário Tasso Jereissati, do PMDB, enfrentou Adauto Bezerra. Tasso venceu a disputa e assumiu o Governo do Ceará em 1987, inaugurando uma nova fase da política estadual. O registro histórico da Assembleia Legislativa aponta a eleição como parte de uma mudança na estrutura política cearense.

PUBLICIDADE

Marcelo Uchôa, advogado, professor de Direito e analista político, coloca a eleição de 1986 ao lado de outro episódio da redemocratização: a eleição de Maria Luiza Fontenele para a Prefeitura de Fortaleza, em 1985. Para ele, os dois momentos ajudaram a formar um ambiente político diferente no Ceará.

PUBLICIDADE

Ao reconstruir aquela época, Marcelo lembra também do impacto que a campanha das Diretas Já teve em Fortaleza e de como a abertura política modificava o ambiente de participação pública. A vitória de Maria Luiza, segundo ele, foi fundamental para a consolidação de um novo espaço político na capital.

Mas foi no ano seguinte que a disputa pelo Governo do Estado produziu uma mudança de maior alcance. “1986 foi uma eleição fundamental porque ela põe fim à era dos coronéis”, resume o professor.

PUBLICIDADE

Carla faz uma ressalva sobre essa ruptura. Na avaliação dela, a mudança não surgiu de uma hora para outra. O processo já vinha sendo construído na eleição anterior, em 1982, mas encontrou em 1986 o momento de consolidação. “Essa ruptura já vinha sendo construída desde 1982, mas ela se consolida em 1986, quando os coronéis precisam se unir para tentar derrotar Tasso”, explica.

PUBLICIDADE

A própria maneira de fazer campanha também mudou. Segundo Carla, Tasso apresentou uma candidatura mais profissionalizada, com estratégias de comunicação diferentes das utilizadas pelos grupos tradicionais. “A campanha foi muito diferente. Tasso contratou profissionais especializados, enquanto os coronéis ficavam discutindo quem iria comandar a campanha”, relata a cientista política.

Ela chama atenção ainda para o uso da televisão e para a construção da imagem de Tasso como empresário e gestor. O desafio era apresentar um candidato conhecido no meio empresarial, mas ainda pouco familiar para parte do eleitorado do interior.

PUBLICIDADE

“Era um candidato que tinha uma trajetória empresarial, mas não era tão conhecido no interior. Então, a televisão teve um papel muito importante para apresentar aquele candidato e vender a ideia de um gestor eficiente, que poderia levar para a administração pública ferramentas utilizadas na iniciativa privada”, explica a cientista política. A campanha também reuniu apoios que, à primeira vista, poderiam parecer pouco prováveis dentro da divisão política daquele período. Ela também lembra que a candidatura de Tasso recebeu apoio de nomes ligados à esquerda e de artistas.

O resultado das urnas, porém, foi além da vitória de um candidato. Para Carla, aquele momento consolidou uma ruptura na forma como o poder estadual vinha sendo organizado. “Tasso foi uma ruptura”, resume. A partir dali, o grupo político que chegou ao governo em 1986 permaneceria no centro da política cearense por anos, ainda que com mudanças de nomes, alianças e disputas internas.

1990: quando a mudança de 1986 ganhou continuidade

Quatro anos depois da vitória de Tasso Jereissati, uma nova eleição colocou em disputa a continuidade daquele grupo político no comando do Ceará. Em 1990, Ciro Gomes, então integrante da mesma composição política, venceu a eleição para governador e assumiu o cargo em 1991, permanecendo à frente do Estado até 1994. O registro histórico da Assembleia Legislativa aponta Ciro como sucessor de Tasso no Governo do Ceará.

PUBLICIDADE

Na avaliação de Marcelo, a eleição de Ciro deve ser observada dentro do ciclo político iniciado em 1986. Para ele, a vitória de 1990 representou a permanência de um grupo que havia chegado ao poder quatro anos antes e seguia ocupando espaço central na política estadual.

A trajetória de Ciro também ultrapassaria o cenário cearense. Antes de chegar ao Governo do Estado, ele havia sido deputado estadual e prefeito de Fortaleza. Depois de deixar o Palácio da Abolição, assumiu funções no governo federal e passou a disputar espaço na política nacional.

Dessa forma, a eleição de 1990 aparece na retrospectiva como um momento de continuidade dentro da sequência iniciada em 1986, e não como uma nova ruptura. Essa distinção acompanha o critério apresentado por Carla Michele Quaresma para analisar eleições históricas: nem toda troca de governador representa, necessariamente, uma mudança de ciclo político.

PUBLICIDADE

2002: quando a permanência no poder ficou por apenas 3.047 votos

A eleição de 2002 trouxe um cenário muito diferente. De um lado estava Lúcio Alcântara, candidato apoiado pelo grupo de Tasso Jereissati. Do outro, José Airton, do PT, que chegou ao segundo turno e transformou a disputa em uma das mais apertadas da história eleitoral do Ceará. Lúcio venceu o segundo turno por apenas 3.047 votos: recebeu 1.765.726 votos, contra 1.762.679 de José Airton.

A diferença ganha ainda mais significado quando se considera que o cenário nacional também estava passando por uma mudança naquele mesmo ano. Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República, enquanto o Ceará registrava uma disputa estadual praticamente decidida voto a voto.

Uchôa acompanhou aquela eleição de dentro da campanha. Ele atuou como coordenador jurídico da candidatura de José Airton e, por isso, sua lembrança daquele momento é também uma memória de bastidor. Na leitura dele, o resultado mostrou que o grupo político que havia chegado ao poder em 1986 já não tinha a mesma segurança eleitoral dos anos anteriores.

PUBLICIDADE

O analista também relaciona aquela eleição ao ambiente nacional e às regras eleitorais daquele período. Ele lembra que questões jurídicas da campanha cearense chegaram a ter repercussão nacional e cita, entre outros pontos, a discussão sobre a verticalização das alianças.

Mais do que o resultado apertado, entretanto, o episódio é importante porque mostrou que o ciclo inaugurado em 1986 poderia ser interrompido. José Airton não venceu. Mas, para Marcelo, o fato de ter chegado tão perto de assumir o governo pelo PT transformou 2002 em uma eleição que merece ser lembrada.

É uma distinção importante para a reconstrução histórica: o dado objetivo é a pequena diferença entre os candidatos; a interpretação sobre o que aquela diferença representou politicamente pertence ao entrevistado.

PUBLICIDADE

2006: uma nova mudança chega ao Palácio da Abolição

Se 2002 mostrou que o grupo que havia dominado a política estadual desde 1986 podia ser derrotado, 2006 produziu, de fato, uma nova configuração. A disputa colocou frente a frente Cid Gomes, do PSB, e Lúcio Alcântara, então governador e candidato à reeleição. Cid venceu ainda no primeiro turno e assumiu o governo em janeiro de 2007.

O resultado representou a saída do grupo tucano do comando do Estado depois de duas décadas de protagonismo. A vitória também reuniu uma nova composição de forças políticas em torno do candidato eleito. Para Uchôa, esse é outro dos momentos em que uma eleição pode ser compreendida como mudança de ciclo.

Ao falar sobre a disputa, ele destaca que a chegada de Cid não foi apenas uma troca de nomes. Houve, segundo sua leitura, uma reorganização dos grupos políticos que passaram a comandar o Estado. E essa reorganização teria consequências que ultrapassariam o mandato de Cid.

PUBLICIDADE

O então candidato seria reeleito em 2010. Quatro anos depois, seu grupo político apoiaria Camilo Santana, que venceu a eleição para governador. Camilo seria reeleito em 2018. É nesse encadeamento que Carla Michele Quaresma identifica uma característica importante da política cearense das últimas décadas: a capacidade de determinados projetos atravessarem diferentes governos.

A cientista política chama atenção especialmente para áreas como infraestrutura e educação. “Há um projeto que começa com Cid Gomes e depois é transmitido para Camilo Santana, e depois há uma continuidade com Elmano”, explica Carla.

Ela ressalta que a continuidade não significa que os governos sejam iguais. O ponto, segundo a análise da cientista política, é que algumas políticas públicas e determinadas linhas de atuação permanecem mesmo quando o governador muda.

PUBLICIDADE

2022: outra configuração política no Ceará

A eleição de 2022 levou essa sequência a uma nova etapa. Camilo Santana deixou o Governo do Ceará para disputar o Senado. Para sucedê-lo, a aliança política lançou Elmano de Freitas, que venceu a eleição para governador ainda no primeiro turno, com 2.808.300 votos, equivalentes a 54,02% dos votos válidos.

O resultado marcou uma mudança importante na composição do governo, mas também preservou elementos da estrutura política construída nos anos anteriores. No mesmo pleito, Camilo foi eleito senador com 3.389.513 votos, correspondentes a 69,80% dos votos válidos no Ceará.

O cenário estadual estava conectado à disputa nacional. Lula também venceu no Ceará no primeiro turno, com 3.578.355 votos, equivalentes a 65,91% dos votos válidos. O analista político considera 2022 um momento de grande reorganização das forças políticas. Ele relaciona a eleição estadual ao ambiente nacional e à disputa presidencial, mas essa leitura pertence à análise do entrevistado.

PUBLICIDADE

Carla, por outro lado, chama atenção para um aspecto de longo prazo. Ao analisar a sequência de governos, ela destaca que a política cearense não pode ser observada apenas a partir dos nomes que ocupam o Palácio da Abolição. “O Ceará conseguiu construir um projeto que atravessou governos e que teve continuidade em áreas importantes, principalmente na educação. Isso também ajudou o Estado a ganhar projeção nacional”, explica a cientista.

Na avaliação dela, indicadores educacionais e outras políticas públicas passaram a fazer parte da identidade administrativa construída ao longo desse período. A interpretação da cientista política ajuda a entender uma diferença fundamental entre as eleições analisadas: algumas representam uma ruptura; outras revelam como um grupo ou determinado projeto conseguiu sobreviver às mudanças de nomes.

O que as eleições revelam sobre os ciclos políticos do Ceará

Vista em sequência, a história eleitoral do Ceará não é formada por uma sucessão linear de governos.

PUBLICIDADE

A eleição de 1986 representa, para os especialistas entrevistados, uma ruptura com uma estrutura política anterior. Em 1990, a eleição de Ciro Gomes mostra a continuidade do grupo que havia chegado ao poder. Em 2002, a disputa apertada evidencia o crescimento de uma força capaz de ameaçar aquela permanência. Em 2006, Cid Gomes inaugura uma nova composição política. Em 2022, Elmano assume o governo dentro de uma estrutura que já havia passado por Cid e Camilo.

É justamente essa diferença entre troca de governante e mudança de ciclo que Carla Michele Quaresma considera essencial para interpretar a história política. Uma eleição pode mudar o nome no cargo sem necessariamente alterar a estrutura de poder. Em outros casos, uma vitória eleitoral pode produzir efeitos que permanecem por anos e reorganizam alianças, grupos e projetos.

Para Uchôa, as eleições mais importantes são justamente aquelas que inauguram uma nova era.

PUBLICIDADE

A percepção também aparece quando ele retoma a própria experiência de vida. Nascido em 1974, Marcelo cresceu durante a transição entre a ditadura militar e a redemocratização. Ele lembra da chegada a Fortaleza depois da Anistia de 1979, da mobilização pelas Diretas Já e das transformações políticas que acompanhou ainda jovem.

Por isso, ao olhar para as eleições cearenses, ele não as enxerga apenas como datas no calendário eleitoral.

São momentos em que grupos políticos surgem, se consolidam, entram em disputa e, em alguns casos, deixam o poder.

PUBLICIDADE

2026: a eleição que ainda está sendo escrita

Neste domingo (4), os eleitores cearenses voltarão às urnas para escolher o próximo governador do Estado, além dos demais cargos em disputa. Caso seja necessário, o segundo turno para governador e presidente será realizado em 25 de outubro.

A eleição deste ano reúne novamente nomes que já fizeram parte da história política do Ceará. O atual governador, Elmano de Freitas, disputa a reeleição, enquanto Ciro Gomes volta a concorrer ao Governo do Estado décadas depois de ter ocupado o cargo. O pleito também reúne outras candidaturas.

Mas há uma diferença entre 2026 e as eleições que já podem ser analisadas historicamente: o efeito político desta disputa ainda não pode ser conhecido.

PUBLICIDADE

É possível reconstruir o contexto, identificar os grupos em confronto e registrar as mudanças que já ocorreram durante a campanha. O que não é possível, antes da votação, é afirmar qual será o impacto que o resultado produzirá nos próximos anos.

Foi assim também com as eleições que hoje parecem definitivas. Em 1986, ninguém poderia antecipar completamente os efeitos que a vitória de Tasso Jereissati teria sobre as décadas seguintes. Em 2006, ainda não era possível saber até onde chegaria o grupo político liderado por Cid Gomes. Em 2022, o resultado de Elmano abriu uma nova etapa cuja dimensão histórica também só poderá ser medida com distância.

É por isso que, às vésperas de mais uma eleição, revisitar o passado ajuda a compreender o presente sem tentar antecipar o futuro. As urnas deste domingo vão registrar mais um resultado na história política do Ceará. O significado desse resultado, porém, dependerá das mudanças que vierem depois dele.

PUBLICIDADE

E é justamente a capacidade de produzir uma nova transição de ciclo que, para Carla Michele Quaresma, transforma uma eleição em um marco histórico. “A transição de um ciclo para outro é o que marca uma virada histórica.” Para ela, neste domingo (4), o Ceará escreve mais uma página dessa história.

Leia também
Líder do 1º turno venceu todas as disputas presidenciais com 2º turno desde 1989, aponta levantamento
ELEIÇÕES 2026
Líder do 1º turno venceu todas as disputas presidenciais com 2º turno desde 1989, aponta levantamento
03 de out. de 2026 - 09:16
Qual a diferença entre voto branco e voto nulo?
QUAL A DIFERENÇA?
Qual a diferença entre voto branco e voto nulo?
03 de out. de 2026 - 09:00
Eleições 2026: veja como consultar título, zona, seção e local de votação
ELEIÇÕES 2026
Eleições 2026: veja como consultar título, zona, seção e local de votação
03 de out. de 2026 - 08:28