A cantora Alcione, de 78 anos, chamou atenção nas redes sociais ao registrar sua participação nas Eleições 2026 usando uma roupa com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. O registro foi publicado neste domingo (4), dia do primeiro turno, e veio acompanhado de uma mensagem em defesa da democracia e de referência a diferentes manifestações religiosas.
Na publicação, a artista escreveu:
“Viva a DEMOCRACIA! E que Deus, Nossa Senhora Aparecida, os Orixás e todas as forças do bem abençoem nosso país!”
A manifestação de Alcione ocorre em um momento em que a imagem de Nossa Senhora Aparecida passou a ocupar espaço no debate político nacional, especialmente por causa de uma controvérsia envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e conteúdos que circularam nas redes sociais.
O registro da cantora também reúne elementos diferentes em uma mesma mensagem. Ao mencionar Deus, Nossa Senhora Aparecida, os Orixás e “todas as forças do bem”, Alcione apresentou a participação eleitoral como um gesto relacionado à democracia e à diversidade religiosa.
O episódio ganhou repercussão nas redes justamente pela combinação entre a roupa escolhida pela artista, sua manifestação política já conhecida e o contexto de disputa em torno do símbolo religioso.
Cantora já havia declarado apoio a Lula
Alcione já havia manifestado apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição neste domingo.
Antes da votação, a cantora também publicou um vídeo direcionado especialmente aos eleitores com mais de 70 anos. Nessa faixa etária, o voto é facultativo no Brasil, conforme estabelece a legislação eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral confirma que a obrigatoriedade do voto vale para eleitores alfabetizados entre 18 e 70 anos; acima dos 70, o comparecimento às urnas é uma escolha do cidadão.
Na gravação, Alcione defendeu a participação dos idosos na eleição e relacionou a escolha nas urnas a temas do cotidiano da população.
“Então, nem vem dizer que o seu voto não importa. Somos nós que vamos decidir essa eleição. Essa eleição não é sobre Lula. É sobre a escola de seu filho. É sobre o salário mínimo. Essa eleição é sobre o preço da comida. O Lula fez muita coisa nesse governo, mas essa eleição não é sobre ele”, afirmou.
A fala foi direcionada a um segmento do eleitorado que não é obrigado a votar, mas que continua habilitado a participar da definição dos cargos em disputa.
A cantora também colocou o ato de votar acima da figura individual do candidato ao dizer que, na avaliação apresentada por ela, a escolha eleitoral envolve assuntos como educação, renda e custo dos alimentos.
A participação de Alcione nas redes sociais, portanto, ocorreu em duas frentes: a artista registrou sua própria ida às urnas e, anteriormente, estimulou os eleitores idosos a exercerem o direito de voto.
Polêmica com Nossa Senhora Aparecida ganhou força na reta final da eleição
A escolha de Alcione para o registro deste domingo ocorre no mesmo período em que Nossa Senhora Aparecida passou a aparecer com frequência no debate político.
A controvérsia começou a circular nas redes sociais a partir de conteúdos que relacionavam Flávio Bolsonaro a uma suposta intenção de alterar o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.
A associação, porém, não corresponde à autoria do projeto de lei usado como base para as publicações. O Projeto de Lei 2.623/2007 foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT), e não por Flávio Bolsonaro. O texto propunha modificar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro para utilizar a expressão “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, em vez de “padroeira do Brasil”.
A Câmara dos Deputados registra que a proposta foi arquivada em agosto de 2008, após ser rejeitada quanto ao mérito. Portanto, trata-se de uma proposição antiga e que não está em tramitação no Congresso Nacional.
Esse ponto é fundamental para compreender a controvérsia eleitoral. A existência do projeto de 2007 é um fato documentado. A atribuição de sua autoria ou iniciativa a Flávio Bolsonaro, porém, não encontra respaldo nos registros oficiais da Câmara.
O Projeto Comprova também classificou como desinformação os conteúdos que afirmavam que Flávio Bolsonaro havia apresentado ou apoiado uma proposta para retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil.
Flávio Bolsonaro negou relação com projeto sobre a padroeira
Flávio Bolsonaro reagiu à circulação dos conteúdos e afirmou que a informação era falsa. O candidato passou a tratar o episódio como uma tentativa de associá-lo a uma iniciativa que não foi apresentada por ele.
A controvérsia ganhou nova dimensão depois de um comentário feito no programa “Em Pauta”, da GloboNews, sobre o assunto. Posteriormente, a emissora corrigiu a informação e esclareceu que o projeto citado havia sido apresentado em 2007 e não tinha relação com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A discussão também envolveu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Flávio acusou integrantes da entidade de terem participado da disseminação das informações. A CNBB negou envolvimento e afirmou que não integra estruturas político-partidárias. A entidade voltou a se manifestar neste domingo, dia da votação, ao publicar uma mensagem pedindo proteção para o Brasil e fazendo referência a Nossa Senhora Aparecida.
O episódio acabou levando um símbolo religioso de forte presença na cultura brasileira para o centro da disputa eleitoral, em meio à circulação de conteúdos nas redes sociais e às respostas dos envolvidos.
Projeto de 2007 não foi criado por Flávio Bolsonaro
Os registros oficiais da Câmara ajudam a separar os fatos documentados das informações que circularam durante a campanha.
O PL 2.623/2007 foi apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli, de Mato Grosso. A proposta alterava a Lei 6.802, de 1980, responsável por estabelecer o feriado nacional de 12 de outubro em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.
O projeto pretendia modificar a denominação utilizada na legislação. Em vez de “Padroeira do Brasil”, a proposta estabelecia a referência a Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
A Câmara informa que a proposta acabou arquivada em 22 de agosto de 2008. Não se trata, portanto, de um projeto atualmente em análise no Congresso.
Essa informação é relevante porque a polêmica eleitoral foi alimentada justamente pela reutilização de um projeto antigo em conteúdos publicados nas redes sociais.
A checagem do histórico legislativo permite identificar uma diferença entre duas situações: o projeto de 2007 efetivamente existiu, mas sua autoria não pertence a Flávio Bolsonaro e a proposta foi arquivada há anos.
Registro de Alcione ocorre em meio ao debate sobre religião e política
A publicação de Alcione acrescentou uma nova dimensão ao episódio porque a cantora escolheu justamente a imagem de Nossa Senhora Aparecida para representar seu momento de votação.
A artista, ao mesmo tempo, mencionou diferentes referências religiosas em sua mensagem. O gesto foi publicado em uma eleição marcada pela presença de símbolos religiosos no discurso de candidatos e apoiadores.
A cantora não apresentou, na mensagem publicada neste domingo, uma manifestação sobre o projeto de lei de 2007. Sua postagem se concentrou na democracia e em uma mensagem de bênção para o país.
O contexto, entretanto, fez com que o registro ganhasse repercussão adicional nas redes sociais. A roupa usada pela artista passou a ser associada ao debate que havia dominado parte da reta final da campanha.
A participação de celebridades nas eleições não altera as regras de votação, mas pode ampliar a circulação de mensagens políticas e estimular discussões entre diferentes grupos de eleitores.
No caso de Alcione, o episódio reúne três elementos que tiveram forte presença no primeiro turno: a participação de artistas no debate político, a mobilização de eleitores idosos e a disputa em torno de símbolos religiosos.
O voto dos maiores de 70 anos é facultativo, mas continua tendo o mesmo peso na urna que os demais votos válidos. Já a manifestação de apoio de uma personalidade pública, embora possa alcançar milhões de pessoas pelas redes sociais, permanece como uma posição individual da artista.
Neste domingo, Alcione registrou sua escolha de participar da eleição e utilizou o momento para reforçar uma mensagem de defesa da democracia e de convivência entre diferentes referências religiosas. O gesto ocorreu justamente quando Nossa Senhora Aparecida se tornou um dos símbolos mais presentes na disputa política nacional.




