O deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB) afirmou que o bolsonarismo precisa reagir ao que classificou como uma “humilhação” promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Em entrevista à Rádio Arapuan, o parlamentar defendeu o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e recorreu a um episódio da história alemã para explicar o crescimento eleitoral da direita.
Cabo Gilberto foi reeleito deputado federal nas Eleições 2026 e terminou a apuração como o candidato mais votado para a Câmara dos Deputados na Paraíba, com 267.142 votos, equivalentes a 11,11% dos votos válidos. Os dados foram divulgados pela Justiça Eleitoral após a totalização das urnas.
Ao comentar o cenário político após as condenações relacionadas à tentativa de ruptura institucional, o deputado afirmou que o objetivo seria “fazer justiça” por meio da cassação de Alexandre de Moraes. Ele também disse que uma eventual reação política não deveria, em sua avaliação, ultrapassar o que chamou de “humilhação”.
A declaração foi acompanhada por uma analogia histórica envolvendo a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e a ascensão de Adolf Hitler. Cabo Gilberto afirmou que a derrota alemã e as condições impostas no pós-guerra teriam criado um ambiente que fortaleceu Hitler politicamente.
A comparação, porém, veio acompanhada de uma referência histórica incorreta. O deputado citou Winston Churchill como um dos líderes responsáveis pela suposta humilhação da Alemanha ao final da Primeira Guerra Mundial.
Churchill não ocupava o cargo de primeiro-ministro britânico naquele período. Ele participou da política britânica durante a Primeira Guerra Mundial e ocupou funções no governo, mas só chegou ao cargo de primeiro-ministro em 1940, já durante a Segunda Guerra Mundial.
O que aconteceu com a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial
A referência feita por Cabo Gilberto remete ao Tratado de Versalhes, assinado em 1919, um ano após o fim da Primeira Guerra Mundial. O acordo impôs à Alemanha uma série de condições, incluindo perdas territoriais, limitações militares e obrigações financeiras.
O tratado também estabeleceu a chamada cláusula de culpa pela guerra, responsabilizando a Alemanha pelos danos decorrentes do conflito. O acordo passou a ser explorado politicamente por movimentos nacionalistas e de extrema direita no período posterior à guerra.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos aponta que o sentimento de derrota e as condições estabelecidas em 1919 contribuíram para o ambiente político que favoreceu a ascensão do nazismo. A instituição, no entanto, também destaca outros fatores, como a crise econômica, o desemprego, a instabilidade da República de Weimar, a Grande Depressão e a atuação política dos próprios nazistas.
A história, portanto, não se resume a uma relação direta entre “humilhação” e ascensão de Hitler.
O Partido Nazista explorou ressentimentos existentes na sociedade alemã e apresentou propostas de reconstrução nacional, militarização e recuperação do território. Ao mesmo tempo, difundiu teorias racistas e antissemitas e atacou as instituições democráticas da República de Weimar.
Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha em janeiro de 1933. Nos meses seguintes, os nazistas desmontaram progressivamente as estruturas democráticas e transformaram o país em uma ditadura de partido único.
Churchill só se tornou primeiro-ministro em 1940
A cronologia é um dos principais pontos de correção na declaração de Cabo Gilberto.
Winston Churchill já era uma figura política relevante durante a Primeira Guerra Mundial. Ele foi ministro e participou diretamente do governo britânico durante o conflito. Também serviu militarmente no período.
Isso, contudo, não significa que tenha sido primeiro-ministro ou líder do governo britânico durante a negociação do pós-guerra.
O governo do Reino Unido era chefiado por David Lloyd George no período da Conferência de Paz de Paris e da elaboração do Tratado de Versalhes. Churchill não comandava o governo britânico na ocasião.
Ele chegou ao cargo de primeiro-ministro somente em 1940, depois da renúncia de Neville Chamberlain, quando a Europa já estava envolvida na Segunda Guerra Mundial. Churchill comandou o governo britânico durante a maior parte do conflito e permaneceu no cargo até 1945.
A Primeira Guerra Mundial ocorreu entre 1914 e 1918. Já a Segunda Guerra Mundial começou em 1939 e terminou em 1945.
Por isso, a afirmação de que Churchill teria sido um dos líderes que “humilharam” a Alemanha ao final da Primeira Guerra Mundial mistura períodos distintos da trajetória política britânica.
O que foi o nazismo
O nazismo foi o movimento político liderado por Adolf Hitler que assumiu o controle da Alemanha em 1933 e estabeleceu uma ditadura totalitária até a derrota alemã em 1945.
A ideologia nazista era baseada em nacionalismo extremo, racismo, antissemitismo e rejeição da democracia. Os nazistas defendiam uma suposta hierarquia racial e apresentavam os alemães considerados pertencentes à chamada “raça ariana” como superiores a outros grupos.
A perseguição aos judeus ocupava posição central nessa ideologia. Depois de chegar ao poder, o regime adotou leis e medidas destinadas a retirar direitos dos judeus, excluí-los da vida econômica e social e submetê-los a perseguições cada vez mais violentas.
Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, essa política chegou ao genocídio sistemático conhecido como Holocausto. Cerca de seis milhões de judeus europeus foram assassinados pela Alemanha nazista, seus aliados e colaboradores. Outros grupos também foram perseguidos e mortos pelo regime.
O nazismo também eliminou partidos políticos, restringiu liberdades civis, perseguiu opositores e concentrou o poder nas mãos de Hitler.
Esse contexto é importante para entender a dimensão da comparação feita pelo deputado. O nazismo não foi apenas uma reação política ao resultado da Primeira Guerra Mundial. A ideologia nazista tinha características próprias, entre elas o racismo, o antissemitismo, o autoritarismo e a defesa de uma sociedade organizada segundo critérios raciais.
Cabo Gilberto nega comparação entre Bolsonaro e Hitler
Durante a entrevista, o jornalista Luis Torres questionou Cabo Gilberto sobre a possibilidade de a fala representar uma comparação entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e Adolf Hitler.
O deputado negou essa interpretação.
Segundo Cabo Gilberto, a referência à Alemanha seria apenas uma menção histórica utilizada para explicar sua leitura sobre os efeitos de uma suposta humilhação política. Na mesma resposta, ele voltou a criticar o STF e afirmou que haveria uma “ditadura do Judiciário”.
Em outro momento, o parlamentar afirmou que, se os aliados não tivessem “humilhado” a Alemanha, Hitler não teria alcançado força política suficiente para chegar ao poder e, consequentemente, a Segunda Guerra Mundial não teria ocorrido.
Essa relação causal também precisa ser colocada em perspectiva. O contexto posterior à Primeira Guerra Mundial teve influência sobre a ascensão do nazismo, mas a historiografia identifica um conjunto de fatores políticos, econômicos e sociais no processo que levou Hitler ao poder.
A crise econômica provocada pela Grande Depressão, iniciada em 1929, teve papel importante na expansão eleitoral do Partido Nazista. A instabilidade da República de Weimar e a atuação de setores conservadores que aceitaram a nomeação de Hitler também fizeram parte do processo.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos destaca que os nazistas exploraram as fragilidades do sistema democrático e utilizaram o ambiente de crise para ampliar o apoio político ao partido.
Deputado volta a defender impeachment de Alexandre de Moraes
Após a entrevista, Cabo Gilberto manteve a defesa do impeachment de Alexandre de Moraes.
O parlamentar afirmou que, em um eventual cenário de mudança política, seria necessário “fazer justiça” sem repetir aquilo que classificou como uma prática de humilhação contra adversários.
A defesa do impeachment do ministro faz parte de uma posição política que o deputado já vinha apresentando. Na entrevista, ele associou essa pauta às críticas às decisões do STF envolvendo os responsáveis pela tentativa de golpe de Estado.
As declarações ocorreram depois da eleição de 2026, na qual Cabo Gilberto ampliou sua votação na Paraíba. Ele foi o deputado federal mais votado do estado, com 267.142 votos, à frente de Aguinaldo Ribeiro (PP), que recebeu 180.720 votos.
A nova legislatura terá início em 2027, quando Cabo Gilberto seguirá para um novo mandato na Câmara dos Deputados.




