A participação dos eleitores pode ter influência importante no resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcado para este domingo (25). No Ceará, 1.085.522 eleitores deixaram de votar no primeiro turno, o equivalente a 15,52% do eleitorado apto, segundo os dados informados pela Justiça Eleitoral. O índice ficou abaixo da taxa nacional, de 21,08%. Com a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegando à etapa final, quem faltou à primeira votação ainda pode comparecer às urnas e participar da decisão.
O tamanho do grupo de eleitores ausentes chama a atenção, mas não permite concluir, por si só, que a abstenção beneficiará um dos candidatos. Para isso, seria necessário conhecer as preferências políticas de quem não votou, quantos desses eleitores irão às urnas no domingo e em quem decidirão votar. A ausência pode ter diferentes motivos, desde dificuldades de deslocamento até falta de identificação com as candidaturas.
A cientista política Carla Michelle Quaresma avalia que o segundo turno pode desestimular parte dos eleitores, especialmente nos estados em que outras disputas já foram encerradas. No Ceará, a eleição para governador foi definida no primeiro turno, assim como as disputas proporcionais. Isso reduz a quantidade de cargos em votação e pode influenciar a disposição de comparecer.
“É provável que o segundo turno apresente um índice maior de abstenções”, avalia a cientista política, ao apontar que a rejeição aos candidatos também pode contribuir para afastar eleitores das urnas.
O histórico nacional, porém, mostra que esse aumento não acontece obrigatoriamente em todas as eleições. Em 2022, por exemplo, a abstenção caiu entre o primeiro e o segundo turno, contrariando o padrão observado em pleitos presidenciais anteriores.
Abstenção no segundo turno: o que mostram as eleições anteriores
Nas eleições presidenciais brasileiras, a ausência às urnas historicamente costuma crescer na segunda votação. O fenômeno foi registrado em 2002, 2006, 2010, 2014 e 2018. A explicação possível é que, depois do primeiro turno, parte do eleitorado deixa de se identificar com as duas candidaturas que continuam na disputa.
O maior crescimento da série apresentada ocorreu em 2010, quando a taxa passou de 18,1% no primeiro turno para 21,5% no segundo, um aumento de 3,4 pontos percentuais. Em 2018, a diferença foi menor, mas a abstenção também subiu, de 20,3% para 21,3%.
Em 2022, o comportamento foi diferente. A abstenção recuou de 20,95% para 20,59%, uma redução de 0,36 ponto percentual. Isso demonstra que a polarização política e a mobilização das campanhas podem contribuir para levar mais eleitores às urnas, mesmo quando a tendência histórica aponta para o aumento das ausências.
Os dados não permitem prever o índice de 2026. Servem, contudo, para mostrar que o comparecimento é uma variável importante e que o resultado depende de como os eleitores se comportam em cada disputa.
Ceará teve abstenção menor que a média nacional

O Ceará apresentou um índice de ausência às urnas inferior ao registrado no país no primeiro turno de 2026. Os 15,53% de abstenção no estado ficaram 5,55 pontos percentuais abaixo da taxa nacional, de 21,08%. Em números absolutos, mais de um milhão de eleitores cearenses não compareceram.
A série histórica estadual também mostra que o comportamento varia de uma eleição para outra. No segundo turno presidencial de 2014, o Ceará registrou 21,75% de abstenção. Em 2018, o percentual foi de 18,69%, com 1.185.505 eleitores ausentes, de acordo com dados eleitorais compilados a partir das estatísticas do TSE.
A comparação indica que a ausência às urnas não segue uma trajetória uniforme. Mudanças no cenário político, na mobilização das campanhas e nas condições para votar podem interferir no comparecimento.
O contexto cearense de 2026 tem uma particularidade: a eleição para governador terminou no primeiro turno. O eleitor que comparecer neste domingo votará apenas para presidente, diferentemente da primeira votação, quando também escolheu candidatos para outros cargos.
Carla Michelle Quaresma aponta que essa diferença pode reduzir o estímulo de quem se mobilizou principalmente para participar das disputas locais. Ela também menciona eleitores que mudaram de município, mas não atualizaram o domicílio eleitoral, e pessoas que enfrentam dificuldades para se deslocar até a seção de votação.
Esses fatores, entretanto, não devem ser tratados como explicação única para a abstenção. Sem uma investigação específica sobre os motivos de cada eleitor ausente, não é possível atribuir o índice a uma causa predominante.
Como a abstenção pode influenciar matematicamente o resultado
O professor Emanuel Freitas, de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), considera que a ausência às urnas pode interferir no resultado de uma disputa apertada. Para ele, a parcela do eleitorado que não participa da votação válida representa um contingente capaz de alterar a distribuição dos votos entre os candidatos caso parte dessas pessoas decida comparecer e escolher um dos concorrentes.
O impacto, porém, depende de como esses eleitores se comportam. Não basta que a abstenção diminua: é necessário observar quantos votos válidos adicionais são registrados e como eles se distribuem entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Um exemplo hipotético ajuda a entender a diferença. Se uma eleição terminar com uma margem de 500 mil votos entre os dois candidatos, a entrada de novos votos válidos pode reduzir ou ampliar essa distância, dependendo de quem os recebe. Se os votos adicionais forem distribuídos de maneira semelhante entre os concorrentes, o efeito sobre a margem será menor. Se houver concentração maior em um deles, a diferença poderá mudar de forma mais expressiva.
Esse raciocínio não significa que todos os eleitores ausentes tenham preferência definida por um dos candidatos. Alguns podem continuar sem intenção de votar em qualquer um deles, enquanto outros podem não conseguir comparecer por motivos práticos. A quantidade de ausentes, isoladamente, não revela como seria o resultado caso todos votassem.
Também é importante distinguir a abstenção dos votos brancos e nulos. Quem não comparece não registra voto. Já quem vai à seção eleitoral e escolhe branco ou nulo participa do comparecimento, mas não acrescenta um voto válido a nenhum dos candidatos. No segundo turno presidencial, a disputa é definida pelos votos válidos destinados aos concorrentes, e não pela soma de todos os eleitores aptos.
Por isso, uma eventual redução da abstenção pode aumentar o total de votos válidos, mas não determina automaticamente quem será favorecido.
Rejeição aos candidatos e convencimento do eleitor
A cientista política Carla Michelle Quaresma destaca que o cenário de segundo turno pode deixar parte dos eleitores sem uma candidatura com a qual se identifique. Na avaliação dela, a rejeição aos dois concorrentes pode desestimular o comparecimento, especialmente entre pessoas que não consideram nenhuma das opções representativa de suas preferências.
O professor Emanuel Freitas também relaciona a ausência eleitoral à insatisfação com as candidaturas, as propostas e o funcionamento da disputa política. Ele ressalta, ainda, que a mobilização para levar o eleitor às urnas depende principalmente das campanhas.
Entre os grupos que podem enfrentar mais obstáculos para votar, Freitas cita pessoas idosas, moradores de regiões pobres ou distantes dos grandes centros e mulheres. Essas condições não significam que todos os integrantes desses grupos se abstenham, mas apontam para dificuldades e experiências que podem influenciar a participação.
O desafio das campanhas, portanto, não é apenas convencer eleitores que já escolheram um candidato a mudar de lado. É também estimular o comparecimento de quem está indeciso, desmotivado ou não se sente representado pelas duas opções.
Uma disputa acirrada pode reforçar a percepção de que cada voto importa. Ao mesmo tempo, a sensação de que um candidato já está à frente pode desestimular parte de seus próprios apoiadores, que podem considerar o comparecimento menos necessário. Os dois movimentos são possíveis, mas não permitem antecipar a taxa de abstenção nem o resultado final.
Quem faltou ao primeiro turno pode votar neste domingo?
Sim. O eleitor que não compareceu ao primeiro turno pode votar normalmente no segundo, desde que esteja apto a votar e compareça à sua seção eleitoral. Para a Justiça Eleitoral, cada turno é considerado uma votação independente. A ausência anterior não impede a participação na etapa final.
Quem não puder comparecer deve justificar a ausência conforme os procedimentos e prazos estabelecidos pela Justiça Eleitoral. A justificativa não substitui o voto quando o eleitor tem condições de comparecer, mas é o caminho previsto para regularizar a falta.
O segundo turno será realizado neste domingo (25), das 8h às 17h, no horário de Brasília. Até lá, também seguem em vigor restrições eleitorais relacionadas à propaganda. Desde quinta-feira, está proibida a publicação ou republicação de propaganda com imagens ou vozes de candidatos produzidas ou alteradas por inteligência artificial, restrição que se estende até as 17h de segunda-feira.
A participação eleitoral será uma das variáveis a observar depois da votação. O histórico mostra que o comparecimento pode cair ou aumentar entre os turnos, enquanto os números do Ceará indicam que o estado chegou à etapa final com uma abstenção menor que a média nacional no primeiro turno.
O que os dados não permitem afirmar é que a abstenção decidirá a eleição ou beneficiará necessariamente um dos candidatos. O efeito real dependerá de quantos eleitores comparecerem, de quantos votos válidos forem registrados e de como esses votos se distribuirão entre os concorrentes. O resultado de 2026 só poderá ser conhecido após a votação e a apuração oficial.





