A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial de 2026 fortalece a posição do deputado federal André Janones (Rede-MG), que ganhou protagonismo na campanha do segundo turno ao organizar uma mobilização digital com milhões de apoiadores. O canal “Exército do Lula”, administrado pelo parlamentar no WhatsApp, alcançou 10 milhões de seguidores na reta final da disputa e se tornou uma das principais ferramentas de divulgação de conteúdos favoráveis ao presidente.
Lula venceu o segundo turno com 51,78% dos votos válidos, superando Flávio Bolsonaro (PL). Durante as semanas anteriores à votação, Janones trabalhou para ampliar o alcance da campanha nas redes sociais, com orientações para que os integrantes do canal compartilhassem vídeos, mensagens, publicações e hashtags em diferentes plataformas.
A atuação deu visibilidade nacional ao deputado, que já havia se destacado em campanhas anteriores pelo uso das redes para mobilizar eleitores. Desta vez, porém, a dimensão alcançada pelo canal e a disputa judicial sobre seu funcionamento colocaram Janones no centro de um dos principais debates da reta final da eleição.
O parlamentar encerra o pleito com mais espaço entre os aliados do presidente reeleito. Além de participar da campanha nacional, ele foi reeleito para a Câmara dos Deputados por Minas Gerais, com 78.780 votos, e garantiu o terceiro mandato consecutivo.
Canal reuniu 10 milhões de seguidores na reta final
O “Exército do Lula” cresceu rapidamente durante o segundo turno. Criado para reunir apoiadores do presidente, o canal passou a concentrar orientações de mobilização e sugestões de conteúdos que os participantes poderiam divulgar em suas próprias redes. Em 23 de outubro, dois dias antes da votação, a ferramenta chegou à marca de 10 milhões de seguidores.
A estratégia de Janones era transformar a adesão ao canal em ações coordenadas de comunicação. Entre as iniciativas estavam o compartilhamento de vídeos, a circulação de mensagens favoráveis a Lula, a divulgação de hashtags e convocações para ampliar o número de participantes. O objetivo era aumentar a presença da campanha nos ambientes digitais e fazer com que as mensagens alcançassem usuários além dos perfis oficiais do presidente e do PT.
O canal ganhou ainda mais visibilidade após Lula participar de transmissões ao lado de Janones e incentivar apoiadores a aderir à iniciativa. Em uma das mobilizações, o presidente agradeceu ao deputado pela organização do espaço e estimulou a militância a ocupar as redes sociais na reta final da campanha.
A dimensão do canal, entretanto, não permite concluir que todos os inscritos tenham participado ativamente das tarefas propostas ou que o número de seguidores tenha se convertido diretamente em votos. O alcance evidencia o tamanho potencial da rede de distribuição de conteúdo, enquanto o efeito eleitoral específico da mobilização não pode ser isolado apenas a partir da quantidade de participantes.
Disputa no TSE colocou o canal sob questionamento
A atuação digital de Janones também provocou uma disputa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 11 de outubro, o presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do “Exército do Lula” após um pedido apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro.
A representação apontava suposta disseminação coordenada de conteúdos falsos e ofensivos contra o candidato do PL. A campanha de Flávio também questionou o uso da estrutura para impulsionar publicações negativas e alegou que a iniciativa beneficiava Lula. Janones contestou as acusações e afirmou que o canal tinha como finalidade organizar apoiadores e divulgar mensagens de campanha.
A suspensão não encerrou a disputa. O corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, determinou posteriormente o restabelecimento do canal. Em seguida, Nunes Marques voltou a impor restrições e condicionou a retomada ao registro formal da ferramenta como canal oficial de comunicação da campanha na Justiça Eleitoral.
A campanha de Lula cumpriu a exigência, e o canal voltou a funcionar em 14 de outubro. A sequência de decisões provisórias colocou o funcionamento da iniciativa sob atenção pública durante parte do segundo turno.
A análise técnica do TSE sobre mensagens e vídeos publicados entre 2 e 11 de outubro não identificou, no material examinado, reproduções das afirmações consideradas inverídicas que motivaram a discussão. O relatório, porém, registrou ressalvas sobre mensagens que haviam sido apagadas e sobre os riscos da estrutura para o processo eleitoral. A disputa judicial e as acusações apresentadas pelas campanhas não devem ser confundidas com uma conclusão definitiva sobre todos os conteúdos ou ações do canal.
Trajetória política começou nas redes sociais
André Luis Gaspar Janones nasceu em 5 de maio de 1984, em Ituiutaba, no interior de Minas Gerais. Advogado de formação, foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2018. Em 2022, conquistou outro mandato e, em 2026, voltou a ser eleito para representar o estado na Câmara dos Deputados, agora filiado à Rede Sustentabilidade.
A projeção nacional de Janones cresceu com o uso das redes sociais para comentar acontecimentos políticos, publicar vídeos e fazer transmissões ao vivo. Ele ganhou visibilidade durante a greve dos caminhoneiros de 2018 e, nos anos seguintes, consolidou uma atuação marcada pela comunicação direta com seguidores e por confrontos públicos com adversários.
Em 2022, chegou a lançar uma pré-candidatura à Presidência da República pelo Avante, mas desistiu da disputa para apoiar Lula. Naquele ano, também atuou na mobilização digital em favor do petista. A participação na campanha de 2026 ampliou essa estratégia, desta vez com uma estrutura de alcance maior e uma presença mais concentrada na distribuição coordenada de conteúdos.
A reeleição de Janones para a Câmara ocorreu com 78.780 votos. Embora tenha garantido a vaga, sua votação foi inferior à de 2022, quando recebeu 238.967 votos. O resultado mostra que o fortalecimento político decorrente da atuação na campanha presidencial não se traduziu em crescimento de sua votação individual para deputado.
Caso da chamada “rachadinha” também faz parte da trajetória
A trajetória do parlamentar inclui uma investigação sobre a suspeita de prática de “rachadinha” em seu gabinete, expressão usada para descrever a devolução de parte dos salários de assessores a um político ou integrante de seu grupo. O caso teve desdobramentos tanto no Conselho de Ética da Câmara quanto na esfera criminal.
Em 2024, o Conselho de Ética da Câmara arquivou uma representação relacionada ao caso. Já no Supremo Tribunal Federal (STF), Janones firmou um acordo de não persecução penal com a Procuradoria-Geral da República (PGR), homologado pelo ministro Luiz Fux em março de 2025. No acordo, o deputado admitiu a prática investigada e se comprometeu a pagar cerca de R$ 157,8 mil, valor destinado à reparação aos cofres da Câmara e ao pagamento de multa.
O acordo estabeleceu condições para evitar o prosseguimento da persecução penal nos termos previstos na legislação. Dois assessores investigados no mesmo caso não aceitaram a proposta, e o processo em relação a eles teve encaminhamento próprio. O arquivamento no Conselho de Ética e o acordo na esfera criminal são procedimentos diferentes e não devem ser apresentados como se fossem a mesma decisão.
Vitória de Lula amplia visibilidade de Janones
A participação de Janones na campanha presidencial foi concentrada em uma frente diferente daquela ocupada por dirigentes que coordenaram a articulação política nacional. Enquanto nomes como Camilo Santana e Edinho Silva atuaram na reorganização da campanha, o deputado mineiro investiu na mobilização de apoiadores por meio de plataformas digitais.
A vitória de Lula dá maior visibilidade a essa estratégia e reforça a posição de Janones entre os aliados do presidente. O canal chegou a milhões de pessoas em poucos dias e mobilizou apoiadores em um período em que a campanha buscava reverter a desvantagem do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
O resultado final foi favorável ao petista, que conquistou 51,78% dos votos válidos no segundo turno. Janones encerra a eleição com o mandato parlamentar renovado e projeção nacional pela condução do “Exército do Lula”, embora o impacto direto da ferramenta sobre o resultado das urnas não possa ser determinado apenas pelo número de seguidores.




