O número de consumidores negativados no Ceará aumentou 3% em setembro, na comparação com o mesmo mês de 2025. Apesar da alta, o crescimento ficou abaixo da média nacional, de 7%. Os dados são do Radar do Varejo Cearense, elaborado pela Federação das CDLs do Ceará em parceria com o SPC Brasil.
Além de mais pessoas com restrições de crédito, o levantamento aponta aumento no valor médio das dívidas. Em um ano, a quantia passou de R$ 4.350 para R$ 4.762 por consumidor negativado, uma elevação de 9,5%.
O orçamento doméstico é um dos pontos de pressão para quem enfrenta dificuldades para pagar as contas. Despesas com aluguel, alimentação, água e energia elétrica disputam espaço com outros compromissos mensais, e a renda nem sempre é suficiente para cobrir todos os gastos.
Crédito bancário concentra a maior parte das dívidas
O crédito bancário responde por 59% dos débitos dos consumidores negativados no Ceará, segundo o levantamento. As contas de água e energia elétrica aparecem em seguida, com participação de 17,1%.
Os dados também indicam que a inadimplência costuma se prolongar. Em setembro, 92% dos consumidores negativados já estavam nessa situação ou haviam passado por ela em algum momento dos 12 meses anteriores.
Para a Federação das CDLs do Ceará, a renegociação é uma das medidas que podem ajudar os consumidores a regularizar a situação financeira. A proposta é buscar condições de pagamento compatíveis com a renda, incluindo descontos e parcelamentos que permitam quitar os débitos.
O presidente da entidade, Freitas Cordeiro, afirmou que o trabalho passa pelo diálogo com os credores para ampliar as possibilidades de regularização. Ele falou sobre o tema com a TV Cidade Fortaleza:
“O nosso desafio tem sido resgatar esse consumidor, buscando sensibilizar os credores para oferecerem oportunidade a esses devedores para regularizar a sua vida.”
A regularização das dívidas pode permitir que os consumidores recuperem o acesso ao crédito. Para isso, as condições oferecidas precisam considerar a capacidade de pagamento de quem está endividado, evitando que parcelas elevadas comprometam ainda mais o orçamento.
Endividamento traz dificuldades para a vida financeira
O vigilante Adriano Moreira, pai de quatro filhos, relata que o orçamento da família fica apertado, mesmo com a esposa também trabalhando. A família já passou por períodos de inadimplência. “Bem apertado com os custos da família, filho, conciliar tudo... Fica bem apertado”, disse ele à equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza.
Adriano também mencionou o programa Desenrola Brasil, criado para facilitar a renegociação de dívidas. Apesar da ajuda que afirma ter recebido, ele ainda enfrenta restrições relacionadas ao banco: “essa questão do Desenrola Brasil teve uma ajuda, mas ainda o banco fica negativado.”
Juros altos pressionam o orçamento das famílias
O economista Paulo Barbosa aponta o nível das taxas de juros como um dos fatores que dificultam o pagamento das contas. Os juros afetam tanto as compras financiadas quanto os empréstimos, elevando o custo do crédito para consumidores que precisam parcelar despesas ou recorrer a instituições financeiras.
“A gente tem um cenário macroeconômico de juros muito altos. Esses juros, naturalmente, refletem em todos os cenários de compra e de financiamento.”
O cenário exige atenção ao orçamento, especialmente para famílias que já acumulam dívidas. O controle das despesas e o acompanhamento do destino da renda são algumas das medidas recomendadas para reduzir o risco de novos compromissos financeiros.
Barbosa orienta que os consumidores registrem os gastos ao longo do mês, analisem as despesas e reservem, quando possível, uma parte da renda para formar uma reserva financeira. A medida pode ajudar a enfrentar imprevistos sem recorrer a empréstimos bancários.
“Sempre controlar suas contas. Anote tudo, analise com o que você está gastando durante o mês, faça um controle orçamentário, tente sempre destinar uma parte da sua renda para investimentos, para que você possa, num sufoco, ter um suprimento ali a recorrer, não precisar de empréstimos bancários. A dica é sempre essa: controle orçamentário. Saiba para onde o seu dinheiro está indo”, pontua.
Vendas do varejo crescem apesar da inadimplência
O avanço da inadimplência ocorre em um período de crescimento das vendas do comércio varejista no Ceará. De janeiro a agosto, o setor registrou alta de 3,9%, mais que o dobro da média nacional, de 1,7%.
Os números mostram que o aumento das vendas não ocorre necessariamente acompanhado de melhora na capacidade de pagamento de todas as famílias. Mesmo com a expansão do consumo, parte dos consumidores continua enfrentando dificuldades para manter as contas em dia e evitar restrições de crédito.
O desafio é equilibrar as despesas, reduzir o endividamento e manter o consumo dentro dos limites da renda disponível. O cenário econômico, marcado por juros elevados, também influencia as condições de financiamento e o custo de compromissos assumidos anteriormente.




