Antônio Victor de Araújo Ferreira, conhecido como Moskou, foi absolvido da acusação de ordenar um ataque a tiros que deixou cinco homens feridos na Barra do Ceará, em Fortaleza, em 2025. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (5), durante julgamento na 6ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza. Apesar de inocentado das cinco tentativas de homicídio qualificado, ele foi condenado por integrar organização criminosa, assim como os outros dois réus do processo.
Além de Moskou, Igor Rodrigues da Cruz e Ruan Pablo Ribeiro Serra também respondiam pelas acusações. Os três foram absolvidos das tentativas de homicídio, mas receberam condenações pelo crime de integrar organização criminosa, com penas estabelecidas em regime inicial aberto.
A decisão chama atenção porque o processo envolvia um episódio de violência apontado pela investigação policial como uma possível retaliação ao assassinato de duas jovens, Bianca dos Santos, de 15 anos, e Maria Beatriz dos Santos, de 20 anos. Bianca era namorada de Moskou e estava grávida de dois meses quando foi morta.
De acordo com a acusação investigada, o ataque a tiros teria sido ordenado por Moskou poucas horas depois da morte das irmãs. A Justiça, entretanto, absolveu os três acusados especificamente das cinco tentativas de homicídio, não reconhecendo a responsabilidade criminal deles por esses episódios.
As condenações pelo crime de organização criminosa foram mantidas, com penas individuais diferentes para cada réu.
Veja as penas aplicadas aos três condenados
Os três acusados receberam penas de prisão em regime aberto pelo crime de integrar organização criminosa. As sentenças foram estabelecidas da seguinte maneira:
- Antônio Victor de Araújo Ferreira, o Moskou: 3 anos, 10 meses e 16 dias.
- Igor Rodrigues da Cruz: 3 anos, 10 meses e 17 dias.
- Ruan Pablo Ribeiro Serra: 4 anos e 1 mês.
A diferença entre as penas foi definida individualmente durante o julgamento. Embora os três tenham sido absolvidos da acusação de cinco tentativas de homicídio qualificado, todos foram considerados culpados pelo crime relacionado à organização criminosa.
O regime inicial estabelecido foi o aberto. Nesse modelo, o cumprimento da pena ocorre conforme as condições determinadas pela Justiça, observadas as regras previstas na legislação penal.
A decisão também exige atenção à distinção entre as duas acusações. A absolvição das tentativas de homicídio significa que os réus não foram condenados por esse crime no processo julgado. Já a condenação por organização criminosa representa o reconhecimento judicial de responsabilidade por outra infração penal.
No caso de Moskou, a defesa foi composta pelos advogados Benicio Pedrosa do Nascimento, Jhonata Pereira Mendonça, Roberto Levy da Silva Moraes, Anderson Rodrigues dos Santos e Ciderson Thaotris Nascimento Souza.
Ataque na Barra do Ceará aconteceu após morte de duas irmãs
O episódio pelo qual Moskou foi acusado de ordenar aconteceu em maio de 2025, poucas horas depois do assassinato de Bianca e Maria Beatriz.
Segundo a investigação policial, um grupo de homens chegou em um carro ao Campo do Cruzeiro, na Barra do Ceará, e efetuou disparos contra pessoas que estavam no local.
Cinco homens foram atingidos. As vítimas tinham 25, 31, 38, 47 e 68 anos. Inicialmente, elas foram socorridas para uma unidade de saúde e, posteriormente, transferidas para um hospital. Três dos feridos apresentaram quadro considerado grave.
A Polícia Civil investigou a hipótese de que o ataque teria sido uma retaliação pela morte das duas jovens. A área onde os disparos aconteceram era apontada como território de uma facção rival àquela à qual Moskou seria ligado.
A investigação atribuiu ao influenciador a ordem para a realização do ataque. Entretanto, essa acusação não resultou em condenação no julgamento realizado pela 6ª Vara do Júri.
Moskou foi preso no mesmo dia dos disparos, sob suspeita de participação como mandante. Igor Rodrigues da Cruz, apontado pela investigação como um dos participantes da ação, também foi localizado e preso na mesma data.
Igor estava no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, onde foi encontrado com um ferimento provocado por disparo de arma de fogo nas costas.
A prisão dos dois ocorreu durante as diligências realizadas após o ataque. Ruan Pablo Ribeiro Serra também foi denunciado no processo e acabou julgado junto aos outros acusados.
Irmãs foram assassinadas em ataque pelo mar na Barra do Ceará
Antes dos disparos no Campo do Cruzeiro, a morte de Bianca e Maria Beatriz já havia provocado forte repercussão em Fortaleza.
As duas estavam acompanhadas de outras pessoas em um espigão na Vila do Mar, na Barra do Ceará, quando foram atacadas por criminosos que chegaram pelo mar.
Segundo as informações da investigação, os suspeitos utilizaram uma moto aquática e um bote com motor para alcançar o local. Depois de efetuarem os disparos, fugiram.
Maria Beatriz, de 20 anos, morreu ainda no local. Bianca, de 15 anos, chegou a ser socorrida e levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Cristo Redentor, mas não resistiu aos ferimentos.
A adolescente estava grávida de aproximadamente dois meses.
A Polícia Civil apontou o Comando Vermelho (CV) como responsável pelo ataque. Conforme a linha investigativa, o objetivo seria atingir Moskou, apontado como integrante da facção Guardiões do Estado (GDE), grupo rival.
Como ele não estava no espigão, os criminosos teriam disparado contra as duas irmãs.
Em depoimento à Polícia, Moskou afirmou que havia sido convidado pelas jovens para acompanhá-las ao local, mas decidiu não comparecer. Ele relatou que considerava a região perigosa e que estava cansado após gravar vídeos para as redes sociais.
Moskou e as irmãs tinham milhões de visualizações nas redes sociais
O caso também ganhou repercussão pela presença das vítimas e de Moskou no ambiente digital.
Os três participavam de produções de mininovelas publicadas na plataforma Kwai. Os vídeos apresentavam histórias ficcionais, geralmente relacionadas ao cotidiano de moradores de comunidades e situações de drama.
Na época dos assassinatos, os conteúdos acumulavam mais de 10 milhões de visualizações. Bianca e Maria Beatriz, juntas, tinham mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais.
Além das produções de entretenimento, os perfis também eram utilizados para compartilhar aspectos da rotina e divulgar plataformas de jogos on-line, incluindo modalidades popularmente conhecidas como jogo do tigrinho.
A popularidade nas redes contribuiu para ampliar a repercussão das mortes e das investigações. As publicações feitas por Moskou depois do assassinato da namorada também entraram no contexto do caso.
Segundo as informações apresentadas sobre a investigação, ele publicou mensagens lamentando a morte de Bianca e afirmou que o episódio não ficaria sem resposta.
As manifestações ocorreram antes do ataque no Campo do Cruzeiro, que deixou cinco homens feridos.
O que muda com a decisão da Justiça?
O julgamento estabelece uma distinção importante entre as acusações apresentadas contra os três réus.
Embora a investigação policial tenha apontado Moskou como mandante do ataque e atribuído aos outros acusados participação na ação, os três foram absolvidos das cinco tentativas de homicídio qualificado.
Isso significa que não houve condenação criminal deles por esses cinco episódios de violência no julgamento realizado nesta quinta-feira (5).
Por outro lado, a condenação por integrar organização criminosa foi mantida. As penas variam de 3 anos, 10 meses e 16 dias a 4 anos e 1 mês, todas em regime inicial aberto.
O resultado encerra essa etapa do julgamento, mas não altera a gravidade dos acontecimentos que deram origem à investigação: duas jovens foram assassinadas em um ataque na Barra do Ceará e, horas depois, cinco homens ficaram feridos em outro episódio de violência no mesmo bairro.
A decisão judicial deve ser compreendida a partir das acusações efetivamente julgadas e dos resultados de cada uma delas, sem confundir a absolvição das tentativas de homicídio com a condenação por organização criminosa.




