O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou nesta quarta-feira (5) que a Polícia Federal (PF) abra um inquérito para investigar o crime organizado no Rio de Janeiro, incluindo possíveis conexões com o poder público. A decisão foi tomada pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, que visa supervisionar as ações policiais contra facções e coibir abusos.
O inquérito terá como foco principal a apuração de esquemas de lavagem de dinheiro das facções criminosas, em especial o Comando Vermelho, e a infiltração dessas organizações no aparelho estatal. A investigação busca identificar mecanismos financeiros que sustentam o crime organizado e sua influência dentro das estruturas públicas, com o objetivo de desmontar a base econômica dessas facções e recuperar o controle das áreas dominadas pelo tráfico e milícias.
A determinação ocorre pouco mais de uma semana após a mais letal operação policial da história do país no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 121 pessoas, incluindo quatro policiais. Em reunião com representantes de entidades de direitos humanos, o ministro Moraes ressaltou a importância de respostas concretas do Estado para garantir a segurança pública duradoura e a retomada dos territórios dominados pelo crime. Ele também destacou que o STF acompanhará as investigações relacionadas às mortes na operação.
O representante da Procuradoria-Geral da República (PGR), Nicolao Dino, ressaltou que o Brasil tem sido pressionado por organismos internacionais, como o Sistema Interamericano de Direitos Humanos da OEA e a ONU, devido ao alto índice de letalidade policial, tendo recebido 368 recomendações sobre o tema. A ação do STF reforça a necessidade de uma repressão uniforme ao crime organizado que ultrapasse o âmbito estadual e envolva órgãos federais para uma atuação mais eficaz.
Mortes nos complexos da Penha e do Alemão
A cidade do Rio de Janeiro viveu um dos dias mais violentos de sua história recente na última semana, na terça-feira (28), com uma megaoperação das polícias Civil e Militar nos Complexos da Penha e do Alemão, na zona norte. A ação, considerada a maior mobilização policial dos últimos 15 anos na cidade, envolveu cerca de 2,5 mil agentes e teve como objetivo principal atacar lideranças e integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) e impedir seu fortalecimento.
A operação superou o histórico negativo da intervenção no Jacarezinho em 2021, apontada como chacina, confirmando pelo menos 64 mortes. Dentre os mortos, estão 60 suspeitos ligados ao crime organizado e quatro policiais – dois civis e dois militares – que também foram vítimas durante os confrontos. Além disso, 75 pessoas ficaram baleadas e mais de 80 foram presas, algumas delas integrantes de uma facção criminosa do Pará que estavam refugiadas no Rio de Janeiro.
Durante a operação, a polícia apreendeu cerca de 70 fuzis, além de pistolas, granadas e diversos armamentos pesados. A reação do tráfico se estendeu para outras partes da cidade, com barricadas formadas por veículos e entulhos bloqueando importantes vias como a Linha Amarela, Grajaú-Jacarepaguá e a Rua Dias da Cruz no Méier.

