A palavra “sicário”, atravessando dois milênios, reapareceu nos autos da Petição 15.556, que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, nesta quarta-feira (4), por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Luiz Phillipi Mourão, descrito como o “sicário” do banqueiro, coordenava uma estrutura chamada “A Turma”, recebendo R$ 1 milhão por mês para monitorar adversários, intimidar jornalistas e acessar dados sigilosos de órgãos públicos, incluindo sistemas da Interpol e do FBI.
O termo sicário vem do latim sicarius — homem da adaga — e remonta a assassinos de aluguel na Roma Antiga e a radicais judeus do século I d.C., os sicarii, que apunhalavam alvos selecionados em meio a multidões para servir a um poder maior. Historicamente, o conceito implica um agente a serviço de uma estrutura, e não apenas um executor isolado. Na Operação Compliance Zero, a investigação apontou quatro núcleos da suposta organização criminosa: financeiro, corrupção institucional, ocultação patrimonial e intimidação — este último concentrado no grupo de WhatsApp chamado “A Turma”.
Como funcionava “A Turma”
Segundo a Polícia Federal, Mourão operava com acesso a sistemas restritos de órgãos federais e realizava buscas sobre pessoas consideradas ameaças ao grupo de Vorcaro. Com essas informações, planejava estratégias de neutralização, que incluíam remoção de conteúdos críticos na internet e pressão direta sobre jornalistas e ex-funcionários. Entre os alvos estava o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, com mensagens de Vorcaro sugerindo um assalto forjado. Mendonça afirmou que a operação tinha como objetivo “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”.
As comunicações interceptadas mostram que Mourão recebia ordens diretas de Vorcaro e acionava contatos — como policiais aposentados e ex-servidores públicos — para coletar dados e executar intimidações. A estrutura funcionava como uma vigilância privada, garantindo que denúncias sobre fraudes financeiras e corrupção não fossem expostas. “Enquanto Vorcaro captava recursos e estruturava fraudes, ‘A Turma’ garantia que ninguém falasse, investigasse ou denunciasse”, disse a PF.
Morte de Luiz Phillipi Mourão
Ainda nesta quarta-feira, Luiz Phillipi Mourão atentou contra a própria vida enquanto estava sob custódia da PF em Minas Gerais. Policiais federais realizaram reanimação e acionaram o SAMU, levando-o ao Hospital João XXIII, mas ele não resistiu. A morte encefálica foi constatada pela equipe médica. A Polícia Federal informou que abrirá uma investigação interna sobre o ocorrido e disponibilizará registros em vídeo ao ministro André Mendonça.
O caso evidencia a complexidade das ações de intimidação e espionagem no contexto da Operação Compliance Zero, mostrando a atuação de um grupo organizado para proteger interesses privados e interferir na liberdade de imprensa e fiscalização institucional. A PF segue com as investigações sobre toda a estrutura, incluindo Vorcaro e demais envolvidos.
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