A Polícia Federal identificou uma estrutura digital que, segundo relatório técnico-pericial, teria sido utilizada para produzir documentos destinados a dar aparência de legitimidade a operações de crédito atribuídas à Tirreno Consultoria. A análise aponta o uso combinado de dados reais de clientes, ferramentas do Microsoft Office, programas desenvolvidos pela área de tecnologia e edição de arquivos PDF.
A estrutura foi descrita a partir da análise de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. Intitulado “Investigações internas – Banco Master”, o arquivo tem 30 slides e reúne informações sobre atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025.
Segundo a perícia, o procedimento funcionava como uma espécie de “linha de montagem” digital. Informações extraídas de sistemas internos eram usadas na produção de documentos em grande quantidade, enquanto páginas com assinaturas eram preparadas separadamente e posteriormente incorporadas aos arquivos finais.
PF descreve “linha de montagem” para criação de documentos
De acordo com o relatório, os documentos eram preparados a partir de dados reais de clientes obtidos nos sistemas internos. As informações serviam de base para a elaboração das peças que compunham os dossiês relacionados às operações de crédito.
Na sequência, documentos eram produzidos em escala com ferramentas do Microsoft Office. Paralelamente, páginas destinadas às assinaturas eram geradas por meio de programas desenvolvidos pela própria área de tecnologia.
As diferentes partes eram posteriormente reunidas em arquivos PDF. O conjunto resultava em documentos organizados para representar contratos e operações de crédito como se fossem regulares. A análise técnica da PF busca reconstruir como esse processo funcionava e de que maneira os arquivos produzidos foram utilizados nas operações investigadas.
Documentos usavam dados reais de clientes
Um dos elementos identificados pelos peritos foi a utilização de informações reais de clientes na elaboração dos documentos. Segundo a análise, os dados eram retirados dos sistemas internos e empregados na preparação das peças que formavam os dossiês dos contratos. A utilização dessas informações fazia parte do procedimento de produção dos arquivos relacionados às operações atribuídas à Tirreno Consultoria.
O processo combinava ferramentas convencionais de edição de documentos com recursos de programação. Além dos arquivos principais, páginas de assinaturas eram produzidas separadamente e incorporadas posteriormente aos documentos finais.
Para a investigação, a utilização de informações reais é um dos elementos que precisa ser analisado para compreender como os documentos foram estruturados e apresentados nas operações.
Datas também eram alteradas ou removidas
O relatório pericial também aponta alterações em informações que poderiam indicar a origem ou o momento de produção de determinados documentos. Em alguns casos, elementos que indicavam datas consideradas incompatíveis com a documentação apresentada teriam sido removidos ou modificados.
Um dos exemplos citados pela perícia é um Termo de Consentimento que apresentava originalmente a data de 24 de fevereiro de 2023. Segundo a análise da PF, esse registro foi posteriormente removido, em julho de 2025. A alteração é apontada no relatório como parte dos elementos utilizados para reconstruir a forma como os documentos foram produzidos e modificados.
Tirreno aparece no centro da operação investigada
A análise pericial aponta uma relação entre Tirreno Consultoria, Banco Master e Banco de Brasília (BRB) nas operações investigadas. Segundo a investigação, a Tirreno teria sido utilizada como empresa de fachada para formalizar cessões de créditos consignados que seriam fictícias. O valor atribuído a essas operações chega a R$ 7,15 bilhões.
A apuração aponta ainda que o Banco Master teria utilizado essas carteiras de créditos para posteriormente vendê-las ao BRB. Nesse contexto, a produção dos documentos seria utilizada para fornecer suporte documental às operações e apresentar os ativos como créditos legítimos. As conclusões ainda fazem parte da investigação conduzida pelas autoridades e devem ser analisadas em conjunto com os demais elementos reunidos no caso.
Como funcionava a produção dos arquivos
A documentação analisada pela Polícia Federal permite identificar diferentes etapas no processo de preparação dos arquivos. Primeiro, informações reais eram extraídas dos sistemas internos. Depois, documentos eram produzidos em quantidade utilizando ferramentas do Microsoft Office.
Em outra etapa, páginas destinadas às assinaturas eram preparadas separadamente com o auxílio de códigos e programas desenvolvidos pela área de tecnologia. Por fim, os diferentes componentes eram reunidos em arquivos PDF, formando conjuntos documentais relacionados aos contratos e operações investigadas. A combinação desses procedimentos levou a perícia a descrever a estrutura como uma espécie de “linha de montagem” digital.
Relatório pericial detalha atividades de 2025
O arquivo apreendido pelos investigadores registra atividades realizadas durante pouco mais de quatro meses de 2025. O período documentado vai de 18 de junho a 24 de outubro. Nos 30 slides da apresentação interna, são descritos procedimentos relacionados à preparação de documentos de cessão de créditos consignados destinados às operações envolvendo o BRB.
A análise técnica identificou o uso combinado de diferentes recursos tecnológicos. O procedimento descrito pela PF não se limitava à edição manual de contratos, mas envolvia extração de dados, produção em escala, programação, preparação de páginas de assinatura e montagem dos arquivos finais.
Elementos como códigos, registros de edição, versões de documentos e informações que originalmente constavam nos arquivos também podem ser utilizados pelos peritos para reconstruir quando e como determinadas peças foram produzidas ou modificadas.
Investigação busca esclarecer operações de R$ 7,15 bilhões
O valor de R$ 7,15 bilhões citado no relatório corresponde às cessões de créditos consignados que a investigação aponta como fictícias e atribuídas à Tirreno Consultoria. A apuração busca esclarecer como essas operações foram estruturadas, qual teria sido a participação das instituições envolvidas e de que maneira os documentos produzidos foram utilizados para dar suporte às transações.
A análise dos arquivos digitais é uma das frentes empregadas pela Polícia Federal para reconstruir a dinâmica das operações. Entre os elementos examinados estão documentos, códigos, versões de arquivos e registros que podem ajudar a estabelecer a sequência de produção e alteração das peças.




