Fortaleza e o estado do Ceará têm escolhido o mesmo campo político nas eleições presidenciais desde 2006, mas a intensidade desse apoio mudou ao longo dos anos. Enquanto a capital concedeu margens expressivas aos candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT) no início dos anos 2000, os resultados mais recentes mostram uma vantagem proporcionalmente maior para o partido no estado como um todo, mesmo quando a votação petista diminui em Fortaleza.
A série histórica do segundo turno entre 2002 e 2022 evidencia essa diferença. Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 88,2% dos votos em Fortaleza, contra 71,78% no Ceará. Quatro anos depois, a capital ainda deu maioria expressiva ao presidente, mas o resultado estadual passou a ser ligeiramente superior. Desde então, a distância entre os dois recortes aumentou, sobretudo em 2018, quando Fernando Haddad teve 55,6% dos votos na capital e 71,11% no estado.
Os números ajudam a entender por que a preferência pelo PT na eleição para presidente não se traduz necessariamente em apoio equivalente nas disputas pelo Governo do Ceará. Especialistas ouvidas pelo GCMAIS apontam que a avaliação dos governos federais, as políticas sociais, a composição do eleitorado e as preocupações com segurança pública contribuem para explicar as diferenças entre as escolhas feitas nas urnas.
Como Fortaleza e Ceará votaram desde 1998
A eleição de 1998 já indicava que a capital e o restante do estado não necessariamente acompanhavam a mesma preferência. Naquele ano, Lula recebeu 48,8% dos votos em Fortaleza e foi o candidato mais votado na capital. No conjunto do Ceará, porém, não alcançou o mesmo resultado: a maior parte dos municípios em que teve vantagem estava concentrada em Fortaleza e na Região Metropolitana, enquanto muitos municípios do interior votaram mais em Ciro Gomes ou Fernando Henrique Cardoso (FHC).
A eleição presidencial terminou no primeiro turno, com a vitória de FHC. Por isso, o resultado de 1998 não pode ser comparado diretamente aos percentuais de segundo turno das eleições seguintes.
Em 2002, quando Lula enfrentou José Serra no segundo turno, Fortaleza concedeu ao petista 88,2% dos votos. No Ceará, o percentual foi de 71,78%. A diferença de mais de 16 pontos percentuais indicava uma adesão particularmente forte ao candidato na capital naquele momento.
Em 2006, na disputa pela reeleição, a distância praticamente desapareceu. Lula obteve 81,6% em Fortaleza e 82,38% no Ceará. Foi a primeira eleição da série em que o percentual estadual superou o da capital, embora por menos de um ponto percentual.
A diferença aumentou em 2010, quando Dilma Rousseff concorreu à Presidência. A candidata recebeu 71,8% dos votos em Fortaleza e 77,35% no Ceará. Em 2014, na disputa pela reeleição, a vantagem estadual permaneceu: Dilma alcançou 67,9% na capital e 76,73% no estado.
O contraste ficou maior em 2018, quando Fernando Haddad representou o PT no segundo turno contra Jair Bolsonaro. Haddad recebeu 55,6% dos votos em Fortaleza, enquanto o percentual estadual chegou a 71,11%. A capital continuou favorável ao candidato petista, mas a votação foi consideravelmente menor do que a registrada nos pleitos anteriores.
Em 2022, Lula voltou a disputar o segundo turno, desta vez contra Bolsonaro. O petista obteve 58,18% dos votos em Fortaleza e 69,97% no Ceará. Houve uma recuperação em relação ao resultado de Haddad na capital em 2018, mas o percentual estadual continuou quase 12 pontos acima do registrado na cidade.


A sequência demonstra que não houve uma ruptura completa entre as escolhas da capital e do estado na eleição presidencial. O que mudou foi a margem de vantagem: depois de um resultado especialmente elevado em Fortaleza em 2002, os percentuais estaduais passaram a superar os da capital a partir de 2006, com diferenças mais expressivas nos pleitos seguintes.
Políticas públicas ajudam a explicar a força do PT no interior
Para a cientista política Carla Michele Quaresma, a diferença entre os resultados da capital e do estado está ligada, em parte, à relação construída entre os governos petistas e a população nordestina. Na avaliação dela, os investimentos em infraestrutura e a ampliação de serviços públicos contribuíram para consolidar a preferência pelo partido em diferentes municípios.
“O Nordeste brasileiro foi negligenciado durante muito tempo por sucessivos governos. E, com a chegada de Lula à Presidência, houve uma atenção muito grande ao desenvolvimento de infraestrutura, grandes obras, descentralização de serviços essenciais, e tudo isso faz com que essas populações sejam beneficiadas através de políticas públicas”, afirma.
A leitura da especialista considera que a aprovação dos governos não se limita à identificação ideológica com um partido. Ela também pode decorrer da percepção de mudanças na vida cotidiana, como acesso a serviços, renda e investimentos públicos. Essa relação, segundo Quaresma, ajuda a compreender a votação petista no Ceará.
Mariana Dionisio, doutora em Ciência Política, também aponta a influência das políticas sociais, mas destaca a mudança na composição do eleitorado que passou a sustentar o lulismo. Segundo ela, depois do escândalo do mensalão, o apoio de parte da classe média urbana ao PT diminuiu, enquanto o partido ganhou força entre eleitores de menor renda, especialmente no interior do Nordeste.
“Quem mais sentiu o efeito do Bolsa Família, da valorização do salário mínimo, da aposentadoria rural e do emprego foi o interior, e é lá que a margem do PT cresce”, explica Mariana.
A diferença ajuda a explicar por que o apoio ao partido pode continuar elevado em municípios do interior mesmo quando a votação na capital cai. A composição econômica e social dos municípios não é uniforme, e a maneira como cada grupo de eleitores avalia os resultados de um governo pode variar de acordo com suas necessidades e experiências.
Por que Fortaleza apresenta um eleitorado mais competitivo?
A capital reúne uma estrutura social diferente daquela encontrada em grande parte dos municípios do interior. Mariana destaca a presença de uma classe média e de uma classe alta numerosas, além de um setor de serviços amplo e de periferias nas quais a segurança pública ocupa espaço importante no debate político.
Essa composição ajuda a compreender por que candidatos de direita podem ter desempenho competitivo em Fortaleza, mesmo quando o PT mantém vantagem na eleição presidencial. O eleitor da capital não forma um bloco homogêneo: renda, religião, local de moradia, percepção sobre violência e avaliação dos serviços públicos podem influenciar o voto de maneiras distintas.
Mariana cita o resultado de 2022 como exemplo dessa diversidade. Naquele ano, Bolsonaro venceu em cinco bairros de Fortaleza, todos de renda elevada, como Aldeota e Meireles. Ainda assim, a especialista observa que o candidato teve desempenho mais competitivo em outras áreas da cidade do que no interior.

Ela também aponta que Capitão Wagner conseguiu resultados melhores do que Bolsonaro em algumas áreas periféricas. Para a cientista política, esse comportamento sugere que parte do eleitorado popular urbano responde a pautas de segurança pública e religião, além de questões ligadas à renda e aos programas sociais.
Voto para presidente e para governador segue lógicas diferentes
Uma das principais diferenças entre os resultados presidenciais e estaduais está no tipo de avaliação que o eleitor faz de cada governo. Mariana Dionisio explica que a eleição para presidente tende a ser mais influenciada pela percepção sobre renda, emprego e benefícios sociais.
“Na eleição presidencial, o voto é nacionalizado e pesa a avaliação do que o Governo Federal entrega. Aí Lula tem uma marca pessoal forte e um crédito claro”, afirma a especialista.
Para a eleição estadual, a segurança pública tem peso especial em Fortaleza. Como o governo do estado responde pela área, eleitores que se sentem inseguros tendem a cobrar diretamente o governador, ainda que apoiem o presidente da República. Mariana também cita o desgaste de uma gestão que permanece no poder há mais de uma década como um fator a considerar na análise da disputa local.
Isso se dá em um contexto em que o PT leva a melhor nas disputas presidenciais na capital, mas nem sempre na eleição estadual. Este ano, apesar de ter vencido no Ceará, o governador Elmano de Freitas não levou a melhor na capital cearense, ficando atrás de Ciro Gomes na disputa. O mesmo aconteceu em 2022, na primeira eleição do petista ao Governo do Estado: na ocasião, Capitão Wagner venceu na cidade, deixando Elmano em segundo lugar.
Carla Michele Quaresma também lembra que as escolhas para os dois níveis de governo não precisam necessariamente seguir uma única orientação política. Ela destaca que os candidatos da oposição estadual não são sempre identificados com o bolsonarismo, o que pode causar distorções ao analisar o comportamento do eleitor oposicionista no Ceará.

A especialista cita o caso de Ciro Gomes e de outros nomes da oposição no estado, como os ex-prefeitos de Fortaleza Roberto Cláudio e José Sarto. Mesmo quando recebem apoio de setores ligados à direita nacional, esses candidatos podem manter uma identidade própria perante o eleitor. Quaresma observa que Ciro tem uma trajetória associada ao desenvolvimentismo e não necessariamente é percebido como parte do mesmo projeto político de Bolsonaro — que está frequentemente mais associado a políticas liberais na economia, por exemplo.
Mariana faz uma distinção semelhante. Segundo ela, chamar todo o eleitorado que apoia candidatos de oposição no Ceará de “direita” pode simplificar demais o cenário, especialmente porque Ciro tem uma trajetória política que também passa, nos anos anteriores, pela centro-esquerda e pelo centro.
A força das alianças municipais nas eleições
Além da avaliação dos governos, a organização política nos municípios também pode interferir no desempenho dos candidatos. Carla Michele Quaresma destaca que a presença do PT no Governo do Ceará e a maioria na Assembleia Legislativa contribuem para estabelecer relações com prefeitos, vereadores e outras lideranças locais.
Segundo a cientista política, essas relações envolvem participação nas decisões administrativas e acesso a recursos públicos, criando uma rede de alianças que pode ter efeitos durante as campanhas eleitorais. A capacidade de articulação com os municípios, na avaliação dela, ajuda a explicar a força dos candidatos apoiados pelo governo estadual.
“Isso gera uma proximidade muito grande dessas lideranças com os municípios, prefeitos, vereadores... Eles acabam se vinculando ao Governo do Estado, recebendo também, obviamente, recursos, participando das decisões na esfera administrativa”, afirma.
A especialista cita como exemplo a eleição estadual de 2026, na qual Elmano de Freitas venceu no segundo turno com apoio de uma parcela expressiva das prefeituras. Para ela, a presença de aliados em diferentes municípios amplia a capacidade de mobilização da candidatura e contribui para os resultados eleitorais.

Esse tipo de estrutura, no entanto, não deve ser tratado como explicação única para o voto. A existência de alianças políticas pode facilitar a organização de campanhas, a circulação de informações e a mobilização de eleitores, mas o resultado também depende da avaliação dos candidatos e dos temas que orientam a disputa.
Na eleição presidencial, a força de uma liderança nacional e a avaliação das políticas federais podem ter influência própria. Isso se dá também porque a campanha e a busca por votos para a disputa presidencial se dá com a ajuda dessas lideranças locais no interior do estado, garantindo capilaridade a uma campanha que tem 184 municípios para percorrer.
O que pode mudar no segundo turno presidencial de 2026?
A disputa presidencial de 2026 tem uma particularidade no Ceará: no segundo turno, os eleitores votam apenas para presidente, sem uma nova eleição estadual simultânea — como também ocorre em vários outros estados cujas disputas terminaram já no primeiro turno. Esse cenário pode alterar a mobilização nos municípios, sobretudo porque parte da estrutura política local costuma atuar também nas campanhas para governador e para outros cargos.
Mariana Dionisio avalia que o efeito sobre a abstenção é incerto. No primeiro turno, o Ceará registrou a menor taxa de abstenção do país, mas, segundo ela, o ambiente político era menos mobilizado. A disputa atual, na avaliação da especialista, apresenta maior intensidade e pode estimular o comparecimento às urnas.
O resultado do primeiro turno também pode influenciar a mobilização dos dois lados. Como Lula terminou aquela etapa em desvantagem, Mariana considera que seus apoiadores podem sentir maior urgência em comparecer. A mesma lógica pode mobilizar eleitores que dependem de programas sociais e que podem avaliar o resultado da eleição como relevante para a continuidade dessas políticas.
A especialista pondera, porém, que a ausência de uma disputa estadual pode reduzir os incentivos para a mobilização em parte do interior. Nesses municípios, redes de apoio de prefeitos e deputados podem ajudar a organizar o transporte e o comparecimento de eleitores que moram longe dos locais de votação ou que têm voto facultativo.
“Como é onde Lula é mais forte, o risco de perda de votos é maior para ele”, avalia Mariana, ao comentar a possibilidade de uma mobilização menor no interior no segundo turno.
Na capital, a dinâmica pode ser diferente. De acordo com a cientista política, a abstenção tende a estar mais relacionada ao desinteresse ou ao cansaço com a polarização. Nesse caso, a mobilização de rua pode ter menos alcance entre quem já decidiu não comparecer, enquanto redes sociais e imprensa podem influenciar o debate eleitoral.
As campanhas também adotaram estratégias diferentes na disputa de 2026. Mariana observa que aliados de Lula, entre eles Cid Gomes e Luizianne Lins, vincularam suas campanhas regionais à candidatura presidencial. O objetivo declarado, segundo ela, é ampliar a participação do petista nos votos válidos, mobilizar a base e reduzir a abstenção e os votos nulos.

Na avaliação da especialista, a estratégia também ajuda a manter uma estrutura de campanha espalhada pelo estado. Já Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno sem um palanque local organizado da mesma forma. Mariana afirma que Ciro Gomes manteve uma campanha regionalizada, não demonstrou apoio a Flávio e que integrantes da bancada do PL consideravam improvável que o nome do senador fosse utilizado na propaganda local de Ciro.
Ceará vota à esquerda?
As vitórias consecutivas do PT na eleição presidencial podem levar à interpretação de que o eleitorado cearense tem uma orientação predominantemente à esquerda. Carla Michele Quaresma, porém, considera que os resultados não são suficientes para sustentar essa conclusão de forma automática.
A cientista política lembra que o Ceará passou por transformações importantes na organização de seu sistema político. Durante décadas, o estado foi marcado por práticas clientelistas e pelo poder de grupos tradicionais. A eleição de Tasso Jereissati, em 1986, é apontada por ela como um momento de ruptura nessa dinâmica, seguido por governos de perfil mais moderado e, posteriormente, por administrações com maior identificação com a esquerda.
Para Quaresma, a preferência por candidatos petistas na eleição presidencial está mais ligada aos resultados atribuídos às políticas públicas do que a uma identidade ideológica uniforme entre os eleitores.
“Então, é muito mais em virtude de benefícios reais, de políticas públicas que realmente melhoraram a condição das populações locais, com fortalecimento do poder de compra do salário, com grandes obras, com desenvolvimento de infraestrutura”, afirma.
Essa interpretação não exclui a influência da identificação partidária ou da imagem pessoal de Lula. Ela indica, porém, que a continuidade do voto petista pode ser compreendida também a partir das experiências concretas dos eleitores com políticas sociais, renda, emprego e serviços públicos.
Os resultados históricos apontam, assim, para um eleitorado capaz de combinar escolhas distintas. Fortaleza e o Ceará mantiveram preferência pelos candidatos do PT à Presidência desde 2006, mas as margens variaram, e a capital se tornou mais competitiva em eleições recentes. Nas disputas estaduais, temas como segurança pública, avaliação do governo e alianças políticas podem alterar as escolhas.




