Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25) e se tornou o primeiro brasileiro a conquistar quatro mandatos presidenciais pelo voto. Aos 80 anos, o petista derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno das eleições de 2026, depois de terminar a primeira etapa da disputa atrás do adversário. A vitória também marca uma virada inédita nas eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização: até este domingo, nenhum candidato havia ficado em segundo lugar no primeiro turno e conseguido reverter o resultado na votação final.
Com 99,78% das urnas apuradas, Lula registrava 51,76% dos votos válidos, o equivalente a 64.086.543 votos. Flávio Bolsonaro aparecia com 48,24%, ou 59.731.922 votos, conforme os números divulgados durante a apuração. Os dados correspondem a uma atualização parcial e devem ser diferenciados da totalização definitiva do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A disputa havia começado em desvantagem para o presidente. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença entre os dois foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos, cenário que obrigou o petista a reorganizar a campanha para tentar alcançar o adversário.
Quatro mandatos e 16 anos no Palácio do Planalto
Com a vitória em 2026, Lula amplia uma trajetória eleitoral iniciada há mais de três décadas. Ele foi eleito presidente pela primeira vez em 2002, reeleito em 2006 e voltou ao cargo após vencer Jair Bolsonaro (PL) em 2022. O novo resultado o torna o único presidente brasileiro a conquistar quatro mandatos por meio de eleições.
Ao concluir o período de governo previsto para terminar em 2030, Lula terá acumulado 16 anos na Presidência. A marca amplia seu tempo à frente do Executivo federal e o mantém entre os presidentes que mais permaneceram no cargo na história do país.
Getúlio Vargas governou por aproximadamente 18 anos e seis meses, somando dois períodos: de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. A trajetória, no entanto, teve diferenças importantes em relação à de Lula. Vargas chegou ao poder em 1930 após a chamada Revolução de 1930, foi eleito indiretamente em 1934 e permaneceu no governo durante a ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945. Em 1950, voltou à Presidência por meio do voto direto, mas seu último mandato foi interrompido em 1954, quando morreu por suicídio.
Considerando os presidentes escolhidos diretamente pelos eleitores, Lula amplia o período de permanência no poder por meio de eleições. A vitória também prolonga a sequência de governos do PT no período democrático: a legenda conquistou seis eleições presidenciais desde a redemocratização, mas também sofreu derrotas para Fernando Collor, em 1989, Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, e Jair Bolsonaro, em 2018.
A virada depois do primeiro turno
A diferença registrada na primeira votação exigiu mudanças na organização da campanha petista. Nas três semanas entre os turnos, Lula reduziu a distância nas pesquisas eleitorais, que chegou a quatro pontos percentuais em alguns levantamentos, e terminou a campanha em um cenário de empate técnico com Flávio Bolsonaro.
A articulação política passou a contar com maior participação do senador Camilo Santana (PT-CE) e do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Na comunicação digital, parlamentares com forte atuação nas redes sociais, como André Janones (Rede-MG), trabalharam na mobilização de apoiadores.
A campanha também intensificou os atos presenciais. Na véspera da votação, Lula participou de manifestações na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e na Avenida Paulista, em São Paulo. Os eventos encerraram uma etapa eleitoral que havia começado o segundo turno com preocupações sobre a mobilização da militância.
A virada ocorreu em um contexto no qual Lula conseguiu ultrapassar o adversário em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. O estado tem peso histórico nas disputas presidenciais: desde a redemocratização, o candidato que vence em Minas Gerais também conquista a Presidência. Em 2026, Lula foi o único a virar o resultado em um estado onde havia perdido no primeiro turno, de acordo com os dados fornecidos.
Da infância em Pernambuco ao movimento sindical
A trajetória de Lula começou em condições econômicas difíceis. Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, Luiz Inácio da Silva era o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como dona Lindu. Na época, a família vivia da atividade rural.
Quando Lula ainda estava na barriga da mãe, Aristides migrou para São Paulo em busca de trabalho. Aos sete anos, o menino seguiu com a mãe e os irmãos em um caminhão pau de arara, numa viagem de 13 dias para encontrar o pai. A família viveu em Santos até dona Lindu se separar de Aristides, descrito nos relatos biográficos como um homem violento e alcoólatra que havia constituído outra família durante o período em que viveu longe da esposa.
Dona Lindu passou a cuidar sozinha dos filhos na cidade grande e se tornou uma das principais referências pessoais de Lula, que costuma citá-la como exemplo de força e orientação moral.
Durante a infância e a adolescência, Lula trabalhou como vendedor de laranja, amendoim e tapioca, auxiliar de tinturaria, telefonista, engraxate e office boy. Aos 14 anos, conseguiu o primeiro emprego fixo, na fábrica de parafusos Marte. Aos 15, ingressou em um curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), formação que o levou à metalurgia.
Aos 17 anos, sofreu um acidente de trabalho enquanto operava uma prensa na metalúrgica Independência e perdeu o dedo mindinho da mão esquerda.
A família e a formação política
Lula se casou pela primeira vez aos 23 anos com a operária Maria de Lourdes, que morreu de hepatite quando estava grávida de oito meses. O bebê também morreu. Em 1974, teve a primeira filha, Lurian, fruto de uma relação com a enfermeira Miriam Cordeiro, enquanto namorava Marisa Letícia Rocco Casa.
No fim daquele ano, Lula se casou com Marisa, com quem teve outros três filhos biológicos: Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. Também adotou Marcos Cláudio, filho mais velho de Marisa, que era viúva.
A entrada de Lula no movimento sindical ocorreu em 1969, quando passou a participar de reuniões e atividades do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, levado pelo irmão Frei Chico. Em 1975, foi eleito presidente da entidade e ganhou projeção nacional ao liderar greves de trabalhadores do ABC Paulista no fim da década de 1970, durante os últimos anos da ditadura militar.
Lula chegou a afirmar que inicialmente não gostava de política, mas concluiu que a participação institucional era necessária para promover mudanças. Em 1980, em meio à repressão ao movimento sindical, foi preso com base na Lei de Segurança Nacional. No mesmo ano, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, que reuniu sindicatos, setores progressistas da Igreja Católica, movimentos sociais, universitários e intelectuais de esquerda, entre eles Antonio Candido, Mário Pedrosa, Lélia Abramo e Sérgio Buarque de Holanda.
As derrotas antes da primeira vitória presidencial
A primeira candidatura de Lula ocorreu em 1982, na disputa pelo governo de São Paulo. Foi nesse período que ele acrescentou oficialmente o apelido Lula ao nome, por meio de registro em cartório. Terminou a eleição em quarto lugar.
Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte por São Paulo, com aproximadamente 651,7 mil votos, a maior votação do país naquele pleito. A experiência no Congresso antecedeu três tentativas frustradas de chegar à Presidência.
Em 1989, Lula disputou o segundo turno contra Fernando Collor de Mello, então filiado ao PRN, mas perdeu. Nas eleições de 1994 e 1998, foi derrotado no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
A vitória veio em 2002, após mudanças na estratégia eleitoral. Lula ampliou alianças e escolheu o empresário José Alencar, então do PL, para ser vice. Também publicou a Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometeu a respeitar contratos e manter o equilíbrio das contas públicas. A campanha foi profissionalizada com a contratação do publicitário Duda Mendonça.
No segundo turno, Lula venceu José Serra (PSDB) com 52,8 milhões de votos, cerca de 61,3% dos válidos.
Os dois primeiros governos e o retorno em 2023
No primeiro mandato, Lula colocou o combate à fome entre as prioridades e lançou o Fome Zero, iniciativa que antecedeu o Bolsa Família. Na economia, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, manteve diretrizes do chamado tripé macroeconômico, baseado em metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante.
O fim do primeiro governo foi marcado pelo escândalo do mensalão, esquema de compra de apoio parlamentar no Congresso que levou à saída de José Dirceu do cargo de ministro-chefe da Casa Civil.
Lula recuperou popularidade e venceu Geraldo Alckmin, então no PSDB, no segundo turno de 2006. O segundo mandato foi marcado por grandes obras de infraestrutura e crescimento econômico médio de 4,6% ao ano, apesar da crise financeira internacional de 2008.
Em 2009, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, elogiou Lula em público, chamando-o de um dos políticos mais populares do mundo. No fim de 2010, os índices de aprovação do presidente ultrapassavam 80%: 83% no Datafolha e 87% no Ibope, conforme os levantamentos citados na época.
Lula apoiou a candidatura da então ministra Dilma Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014. Dilma sofreu impeachment durante o segundo mandato, e o vice-presidente Michel Temer assumiu o governo.
Depois de deixar o Planalto, Lula voltou a disputar a Presidência em 2022 e venceu Jair Bolsonaro no segundo turno, retornando ao cargo em janeiro de 2023. Em 2026, conquistou a quarta eleição presidencial. Nascido em 27 de outubro, ele completará 81 anos na terça-feira seguinte à votação e, ao final do novo mandato, terá 85 anos.
A vitória amplia uma trajetória que passou do trabalho na metalurgia à liderança sindical, da fundação de um partido à eleição para a Presidência, e agora chega a uma marca sem precedentes: quatro mandatos presidenciais conquistados nas urnas.




