Uma mulher foi filmada fazendo um gesto semelhante à saudação nazista ao sair do Colégio Santo Inácio, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, neste domingo (25), durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O caso foi registrado na 10ª Delegacia de Polícia (Botafogo) como injúria por preconceito e está sob investigação da Polícia Civil do estado.
Nas imagens divulgadas nas redes sociais, a mulher aparece com o braço direito estendido para cima e a palma da mão voltada para baixo, em um gesto usado pelo regime nazista liderado por Adolf Hitler na Alemanha. Ela vestia uma camiseta verde e amarela com a frase “Meu Partido É o Brasil”, estampa que ganhou popularidade entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a campanha eleitoral de 2018, e um boné vermelho com o lema “Make America Great Again” (Faça a América Grande Novamente), usado por seguidores do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A situação provocou a reação de pessoas que estavam nas proximidades e questionaram a mulher sobre o gesto. Durante a discussão, ela perguntou se um dos homens era comunista. Ele respondeu que era judeu, e ela teria retrucado com a expressão “pior ainda”. A fala, registrada em vídeo, motivou críticas de entidades judaicas e passou a integrar as circunstâncias analisadas pela polícia.
A Polícia Civil informou que diligências estão em andamento para esclarecer os fatos. A identidade da mulher não foi divulgada oficialmente, embora informações publicadas após a repercussão do vídeo indiquem que ela já teria sido identificada pelos investigadores.
Ofensa a homem judeu foi registrada na ocorrência
O registro policial levou em consideração não apenas o gesto feito diante de outras pessoas, mas também a resposta dirigida ao homem que afirmou ser judeu. O policial civil João Paulo Nunes, responsável pelo registro da ocorrência, explicou que a manifestação teria sido direcionada especificamente à pessoa após ela revelar sua origem religiosa.
Um dos homens que presenciou a cena e questionou a mulher foi Ian Obraczka, que se identificou como judeu durante a discussão. Ele relatou indignação com o ocorrido e disse que nunca havia passado por uma situação semelhante.
“Nunca tinha passado por isso. É muito triste e revoltante! Espero que ela seja identificada e punida”, afirmou.
Obraczka também questionou a atuação de um policial militar que aparece no vídeo durante a ocorrência. Segundo ele, o agente acompanhou a cena, mas não interveio enquanto a mulher era confrontada pelos presentes.
As imagens mostram dois policiais militares nas proximidades. A gravação não registra uma intervenção dos agentes durante o episódio. A atuação policial também passou a ser mencionada nos relatos sobre o caso.
Federação Israelita do Rio repudia episódio
A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) divulgou uma nota de repúdio após a circulação do vídeo. A entidade classificou a manifestação como antissemitista e afirmou que o comportamento ultrapassa os limites da liberdade de expressão, além de atingir a dignidade humana e a memória das vítimas do nazismo.
A organização informou ter recebido um relato acompanhado de registro em vídeo e afirmou que a mulher teria repetido a saudação mesmo depois de ser questionada por pessoas que presenciaram a cena. A Federação também destacou que o caso ocorreu durante o exercício do voto, em um local destinado à participação democrática.
Na nota, a FIERJ afirmou que levou o episódio ao conhecimento das autoridades policiais e que acompanhará a investigação. A entidade cobrou a identificação dos responsáveis e a adoção das medidas legais cabíveis.
A instituição também alertou para o risco de normalização de manifestações antissemitas e de apologia ao nazismo. Para a Federação, atitudes desse tipo não devem ser relativizadas nem tratadas com indiferença em uma sociedade democrática.
A manifestação ocorreu no mesmo dia em que eleitores de todo o país foram às urnas para o segundo turno presidencial. Para a entidade, o contexto torna o episódio especialmente grave, por envolver um ambiente ligado ao exercício de um direito democrático.
StandWithUs Brasil também condena gesto e fala
A organização StandWithUs Brasil, que atua na educação sobre o Holocausto e no combate ao antissemitismo, também divulgou uma nota condenando o episódio registrado no Colégio Santo Inácio.
A entidade afirmou que o gesto e a resposta dirigida ao homem judeu são incompatíveis com os princípios democráticos. Na avaliação da organização, a saudação remete ao regime nazista, responsável pelo assassinato de seis milhões de judeus e de milhões de outras vítimas.
A StandWithUs Brasil contestou a possibilidade de tratar o episódio como uma manifestação protegida pela liberdade de expressão e destacou que a apologia ao nazismo é crime no Brasil, conforme a Lei nº 7.716/1989. A organização declarou que acompanhará a investigação da Polícia Civil e manifestou solidariedade ao homem que foi alvo da ofensa e à comunidade judaica brasileira.
A entidade também mencionou o trabalho desenvolvido pelo Centro de Educação e Memória do Holocausto (CEMH), por meio do qual promove atividades em escolas, universidades e junto à sociedade civil. As iniciativas contam com especialistas e sobreviventes do Holocausto que encontraram refúgio no Brasil.
A organização defendeu que manifestações antissemitas sejam combatidas com firmeza, independentemente de sua origem, e relacionou a tolerância ao ódio a um quadro de enfraquecimento democrático.
O que diz a legislação sobre apologia ao nazismo
A Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, prevê punições para determinadas condutas de divulgação de símbolos nazistas com a finalidade de propagar essa ideologia. O artigo 20, parágrafo 1º, estabelece pena de reclusão de dois a cinco anos e multa para quem fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a suástica para divulgar o nazismo.
A investigação sobre o episódio no Rio foi registrada como injúria por preconceito. A análise das circunstâncias, incluindo o gesto feito pela mulher e a fala dirigida ao homem que se identificou como judeu, cabe às autoridades responsáveis pelo caso.
A ocorrência ainda está sob investigação, e a Polícia Civil não divulgou oficialmente a identidade da mulher. A apuração deverá esclarecer os fatos e avaliar as medidas legais cabíveis.
Foto com camisetas nazistas também repercutiu no Maranhão
O caso registrado em Botafogo ocorreu um dia depois de uma fotografia feita em Grajaú, no Maranhão, provocar repercussão nas redes sociais. A imagem foi registrada na noite de sábado (24), durante uma carreata de apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Na fotografia, jovens aparecem sorrindo e posando abraçados, com viaturas policiais ao fundo. As camisetas que vestem trazem referências explícitas ao nazismo e ao fascismo. Uma das estampas retrata Flávio Bolsonaro caracterizado como Adolf Hitler e fazendo a saudação nazista.
A peça também inclui símbolos ligados ao regime alemão, uma referência às SS, milícia nazista, e a frase em inglês “long live fascism”, que significa “vida longa ao fascismo”.
Assim como no episódio do Rio, o uso de símbolos nazistas pode ser enquadrado na Lei nº 7.716/1989 quando há a finalidade de divulgar ou propagar essa ideologia. A legislação prevê pena de reclusão e multa para condutas específicas envolvendo a divulgação de símbolos nazistas, incluindo a suástica, com esse objetivo.




