Milhões de americanos vão às urnas nesta terça-feira (3) para escolher os representantes que ocuparão as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado dos Estados Unidos. A votação também definirá os governadores de 36 dos 50 estados. Conhecidas como eleições de meio de mandato, ou midterms, as disputas podem alterar a composição do Congresso e a capacidade do presidente Donald Trump de avançar com sua agenda nos dois últimos anos de governo.
O pleito ocorre dois anos depois da eleição presidencial de 2024, que levou Trump de volta à Casa Branca. Embora o presidente não seja candidato, seu governo está no centro da campanha. O resultado das urnas será acompanhado como um indicador da avaliação dos eleitores sobre a administração republicana, especialmente diante das preocupações com o custo de vida, a imigração e os efeitos da guerra envolvendo o Irã.
Atualmente, o Partido Republicano, legenda de Trump, controla as duas Casas do Congresso. Na Câmara, os republicanos têm 218 deputados, enquanto os democratas contam com 214. Há ainda um deputado independente e duas cadeiras vagas. No Senado, a bancada republicana reúne 53 parlamentares, contra 47 senadores da oposição, número que inclui dois independentes que costumam votar com os democratas.
As pesquisas nacionais divulgadas antes da votação apontam vantagem dos democratas na preferência partidária para a Câmara, mas esse indicador não determina diretamente o resultado das disputas em cada distrito. No Senado, o cenário permanece indefinido, com os republicanos defendendo cadeiras em diferentes estados.
Uma mudança na maioria de qualquer uma das Casas pode afetar a relação do governo com o Legislativo a partir de janeiro de 2027.
O que são as midterms e por que a votação ocorre nesta terça?
As midterms são eleições realizadas na metade do mandato presidencial americano, que tem duração de quatro anos. Por isso, o pleito ocorre dois anos depois da escolha do presidente e serve para renovar parte do Congresso e outros cargos estaduais e locais.
A votação de 2026 acontece em 3 de novembro. Os parlamentares eleitos tomarão posse em janeiro de 2027, enquanto o mandato de Trump termina em janeiro de 2029. A próxima eleição presidencial está prevista para 2028, quando os americanos também voltarão a escolher todos os integrantes da Câmara e aproximadamente um terço do Senado.
O nome “eleições de meio de mandato” está ligado justamente a esse intervalo entre as eleições presidenciais. Como o presidente não concorre nessa ocasião, os eleitores não escolhem diretamente quem ocupará a Casa Branca, mas podem modificar a composição do Congresso que acompanha e fiscaliza o governo federal.
A renovação da Câmara ocorre a cada dois anos porque os deputados têm mandatos de duração menor. Já os senadores permanecem seis anos no cargo, e as eleições são organizadas de forma escalonada para que aproximadamente um terço das cadeiras seja submetido à votação a cada dois anos.
Quais cargos estão em disputa nos Estados Unidos?
Além das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e das 35 vagas do Senado, os eleitores escolherão os governadores de 36 estados. Também haverá disputas para cargos legislativos estaduais e outras funções locais, de acordo com as regras de cada região.
A eleição para a Câmara ocorre em todos os estados. Cada parlamentar representa um distrito eleitoral, uma divisão territorial definida de acordo com a população. Estados mais populosos têm direito a um número maior de deputados, enquanto regiões menos habitadas elegem menos representantes.
O Senado segue uma lógica diferente: cada um dos 50 estados tem dois senadores, independentemente do tamanho da população. Assim, a Casa reúne 100 integrantes. Nesta eleição, 35 dessas cadeiras estão em disputa.
As eleições para governador também terão destaque em estados como Califórnia, Flórida, Geórgia, Michigan, Ohio, Pensilvânia, Texas e Wisconsin. Antes da votação, os republicanos comandavam 26 governos estaduais, enquanto os democratas estavam à frente de 24.
Algumas disputas estaduais são acompanhadas por possíveis mudanças históricas. Na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms concorre contra o republicano Rick Jackson. Se vencer, Bottoms poderá se tornar a primeira mulher negra eleita governadora dos Estados Unidos.
Em Michigan, a disputa envolve a democrata Jocelyn Benson e o republicano John James. Os dois tentam suceder Gretchen Whitmer, que não pode concorrer novamente por causa do limite de mandatos. Arizona, Iowa, Nevada, Ohio, Geórgia, Michigan e Wisconsin também estão entre os estados com disputas para governador acompanhadas de perto.
Como o resultado pode afetar o governo de Donald Trump?
A composição do Congresso tem influência direta sobre a capacidade do presidente de aprovar projetos, negociar o orçamento e avançar com medidas de governo. Com a maioria nas duas Casas, os republicanos controlam a pauta legislativa e têm melhores condições de apoiar as propostas da administração Trump.
Uma eventual mudança de maioria na Câmara ou no Senado pode tornar as negociações mais difíceis. Os democratas, caso conquistem espaço suficiente, poderão bloquear iniciativas, ampliar a fiscalização sobre o Executivo e abrir investigações conduzidas por comissões parlamentares.
A Câmara também tem a atribuição de aprovar acusações em processos de impeachment. Trump já enfrentou dois processos desse tipo durante seu primeiro mandato, em 2019 e 2021, e foi absolvido pelo Senado em ambos. Uma eventual maioria democrata na Câmara poderia facilitar a abertura de um novo processo, embora a aprovação das acusações não signifique a destituição automática do presidente: o julgamento cabe ao Senado.
O republicano também já foi alvo de quatro processos criminais. Em Nova York, foi condenado por falsificação de registros comerciais e recebeu uma decisão de liberação incondicional, sem pena de prisão ou multa. Os outros três casos mencionados, relacionados à eleição de 2020, aos documentos sigilosos e à tentativa de reverter o resultado eleitoral na Geórgia, foram arquivados.
Pesquisas apontam aprovação de Trump em 32%
Uma pesquisa Reuters/Ipsos concluída na segunda-feira (2) indicou que 32% dos entrevistados aprovavam o desempenho de Trump na Presidência. O índice ficou próximo do menor patamar registrado pelo presidente nesse levantamento, de 31%.
Na mesma pesquisa, 46% dos eleitores registrados disseram que escolheriam candidatos democratas nas eleições para o Congresso, enquanto 38% indicaram preferência pelos republicanos. A diferença de oito pontos percentuais foi menor que a registrada na semana anterior, quando a vantagem democrata era de 11 pontos.
O levantamento ouviu 1.765 adultos americanos pela internet e apresentou margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa também apontou que 50% dos eleitores independentes registrados consideravam o voto uma manifestação contra Trump, enquanto 13% disseram que votariam a favor do presidente. Para 33%, ele não era um fator determinante na escolha.
O custo de vida aparece entre as principais preocupações. Na pesquisa, 78% dos entrevistados afirmaram que a alta dos preços seria um tema muito importante ou o mais importante na decisão do voto. Entre os participantes, 43% disseram confiar mais nos democratas para lidar com essa questão, ante 32% que apontaram os republicanos.
Os preços de alimentos, combustíveis, energia e moradia estão entre os assuntos que pesam na avaliação da economia. A guerra envolvendo o Irã também entrou no debate, especialmente pelos efeitos sobre o mercado internacional de energia e a pressão sobre os combustíveis.
A imigração é outro tema central, principalmente por causa das operações de fiscalização conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). As medidas adotadas pelo governo e a atuação dos agentes provocam divergências entre os partidos e mobilizam eleitores em diferentes regiões.
Mais de 57 milhões votaram antecipadamente
A votação desta terça-feira ocorre depois de semanas de participação antecipada. Mais de 57 milhões de americanos já haviam depositado seus votos até a segunda-feira (2), de acordo com dados do Election Lab, da Universidade da Flórida.
O número supera o registrado nas eleições legislativas de 2022, quando aproximadamente 46 milhões de pessoas votaram antecipadamente. Os eleitores americanos podem participar presencialmente antes do dia oficial ou utilizar o voto pelo correio, conforme as regras de cada estado.
Diferentemente do Brasil, o voto não é obrigatório nos Estados Unidos. Também não existe um órgão nacional equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) responsável por organizar e apurar todas as eleições do país. Cada estado estabelece suas regras e conduz a contagem dos votos em seu território.
O horário de encerramento das urnas varia conforme a localidade. Na Flórida, por exemplo, a votação termina às 19h; em Nova York, às 21h. No Tennessee, o horário pode variar de acordo com o condado.
A apuração costuma começar depois do fechamento dos locais de votação, mas a definição do controle do Congresso pode levar mais tempo. A contagem de cédulas enviadas pelo correio e as diferenças nos procedimentos estaduais podem atrasar a divulgação dos resultados consolidados. Em 2022, a disputa pela maioria na Câmara levou mais de uma semana para ser definida.
Como funciona a eleição para o Senado?
Cada estado americano elege dois senadores, que têm mandatos de seis anos. Como a renovação é escalonada, nem todos os estados escolhem representantes para a Casa na mesma eleição. Em 2026, 35 vagas estão em disputa.
A definição da maioria no Senado tem uma particularidade: o vice-presidente dos Estados Unidos também exerce a presidência da Casa e pode desempatar votações. Como J.D. Vance é republicano, o partido precisa manter pelo menos 50 cadeiras para continuar contando com a possibilidade do voto de desempate.
Os democratas precisam conquistar 51 assentos para obter maioria sem depender dessa prerrogativa. Atualmente, a legenda conta com 47 senadores, incluindo dois independentes que costumam votar com a oposição. Segundo a análise publicada pela Reuters na véspera da eleição, os democratas precisam conquistar quatro cadeiras para assumir o controle da Casa.
Eleições também antecipam debate sobre 2028
O resultado das midterms deve influenciar as articulações dos partidos para a próxima eleição presidencial, prevista para novembro de 2028. No Partido Republicano, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio aparecem entre os nomes citados em discussões sobre possíveis candidaturas futuras.
Entre os democratas, o desempenho nas urnas poderá orientar o debate sobre a estratégia para recuperar espaço nacional. Caso conquistem a maioria da Câmara, os oposicionistas poderão escolher Hakeem Jeffries para presidir a Casa, atualmente comandada pelo republicano Mike Johnson.




