A empresária Rita Grangeiro relembrou, durante entrevista ao programa Conexões com Ricardo Bezerra, a trajetória que transformou um terreno de apenas oito hectares em uma das operações mais conhecidas do agronegócio cearense. Fundadora da Fazenda Grangeiro e das marcas MyCoco e SouCoco, ela contou como deixou o mercado imobiliário para apostar na produção agrícola mesmo sem experiência no setor.
Ao longo da entrevista, Rita revelou que enfrentou dificuldades, erros técnicos e descrença de pessoas próximas antes de consolidar o negócio. Segundo ela, o crescimento da fazenda aconteceu a partir de muito aprendizado prático e apoio técnico especializado.
“Eu errei em tudo que você pudesse imaginar. Na muda, no espaçamento, na irrigação”, afirmou. Hoje, a Fazenda Grangeiro produz cerca de 3,5 milhões de cocos por ano e atua também com produtos derivados da fruta, além de culturas como melancia, milho verde, feijão e maracujá.
Rita Grangeiro começou a trabalhar aos 13 anos
Rita contou que começou a trabalhar ainda na adolescência, quando aprendeu técnicas de pergaminho e pintura artesanal com religiosas ligadas ao Bom Pastor. Segundo ela, o desejo de conquistar independência financeira surgiu cedo.
“Meu pai já não me dava mais mesada. Eu dava aulas de pergaminho e trabalhos manuais”, relembrou. O trabalho trouxe retorno rapidamente. Aos 17 anos, ela comprou o primeiro carro com dinheiro próprio. “Foi uma Marajó álcool, zero quilômetro”, contou.
Filha de funcionários da Caixa Econômica Federal, Rita estudou no Colégio Cearense, em Fortaleza, mas disse que nunca teve grande ligação com a vida acadêmica. Ela afirmou que só buscou o certificado de conclusão do ensino médio quando decidiu entrar no mercado imobiliário.
Fazenda Grangeiro nasceu após aposta em terreno em Paraipaba
Antes do agronegócio, Rita trabalhou durante cerca de dez anos como corretora de imóveis. Segundo ela, a entrada no setor aconteceu após incentivo do marido. “Meu marido dizia: ‘Você gosta tanto de vender, por que não vai ser corretora?’”, lembrou.
A empresária contou que construiu a própria clientela de forma independente e vendeu o primeiro terreno na Praia do Futuro ainda no início da carreira. Paralelamente ao mercado imobiliário, começou a investir no campo depois que o sogro ofereceu ao casal um terreno em Paraipaba, no litoral oeste do Ceará.
“Meu sogro disse que aquele pedaço de terra seria a aposentadoria do meu marido”, afirmou. Mesmo sem experiência agrícola, Rita decidiu apostar no cultivo de coco. Para investir no projeto, vendeu um imóvel que possuía no Porto das Dunas.
“Ninguém acreditava naquele projeto. Diziam que não tinha estrada, não tinha energia e que aquilo não daria certo”, contou.
Parceria com a Embrapa mudou os rumos da produção
Os primeiros anos da Fazenda Grangeiro foram marcados por dificuldades técnicas e baixa produtividade. Rita afirmou que a mudança aconteceu quando procurou apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Sem recursos para contratar consultoria privada, ela buscou orientação gratuita junto aos pesquisadores. Segundo a empresária, o pesquisador Fábio Miranda visitou a propriedade e identificou diversos problemas no cultivo.
“Ele chegou lá e disse: ‘Está tudo errado. Suas plantas estão passando fome’”, relembrou. A partir da parceria, a fazenda passou a integrar estudos sobre irrigação e adubação do coco. Rita afirmou que o suporte técnico foi decisivo para a expansão da produção.
“A Embrapa mudou a minha vida. A fazenda virou uma extensão da Embrapa”, declarou. Com o aumento da produtividade, a Fazenda Grangeiro passou a fornecer coco para a indústria Ducoco durante aproximadamente 18 anos.
Fazenda Grangeiro entrou no varejo e ampliou mercado
Após quase duas décadas atuando apenas como fornecedora da indústria, a empresa decidiu entrar no varejo. Segundo Rita, a mudança aconteceu após incentivo de um dos filhos. “Ele dizia que queria entrar no varejo e começou a procurar os supermercados”, contou.
O primeiro cliente foi o Frangolândia. Depois, os produtos chegaram a redes como Pão de Açúcar, São Luís, Pinheiro, Atacadão e Beach Park. Segundo a empresária, a entrada no varejo aumentou significativamente o valor agregado da produção.
“No varejo, você deixa de vender apenas o fruto e passa a vender qualidade, apresentação e experiência”, explicou. Ela também revelou que passou a priorizar cocos maiores para atender supermercados e pontos turísticos. “O turista quer tirar foto com o coco. Então ele precisa ser bonito”, brincou.
MyCoco transformou coco artesanal em produto premium
Um dos momentos mais comentados da entrevista foi a criação do MyCoco, marca de cocos personalizados que ganhou espaço em festas e eventos no Ceará. Segundo Rita, a ideia surgiu depois que um amigo trouxe da Europa um coco descascado vendido em Londres por cerca de 14 libras esterlinas.
“Quando eu vi aquilo, pensei: nós conseguimos fazer algo muito melhor aqui”, afirmou. O produto passou por diversos testes até chegar ao formato atual, com acabamento artesanal e abertura facilitada.
“É um produto artesanal. Um produto de glamour”, definiu.
Ela explicou ainda que o tratamento aplicado após o descascamento aumenta a durabilidade do produto. “Um coco comum dura cerca de oito dias. O MyCoco chega a durar trinta”, afirmou.
SouCoco aposta em tecnologia para manter sabor natural
Outro destaque da entrevista foi a SouCoco, linha de água de coco criada pela Fazenda Grangeiro em parceria com pesquisadores da Embrapa. Rita afirmou que buscava uma bebida que preservasse o sabor natural da fruta, diferente das opções industrializadas disponíveis no mercado.
“Eu só faria uma água de coco premium”, disse. Segundo ela, a solução surgiu a partir de uma tecnologia de microfiltragem a frio desenvolvida pelo pesquisador Fernando Abreu. “O processo não aquece a água. Então ela mantém o gosto natural do coco”, explicou. Durante o programa, Ricardo Bezerra experimentou a bebida ao vivo e elogiou o sabor.
“É a melhor água de coco que eu já tomei na vida”, afirmou o apresentador. Atualmente, a Fazenda Grangeiro possui cerca de 400 hectares entre áreas próprias e arrendadas. Além do coco, a empresa também produz feijão verde, melancia, milho verde e maracujá.
Segundo Rita, a produção anual chega a aproximadamente 3,5 milhões de cocos cultivados em cerca de 10 mil plantas. “É praticamente uma carrada de coco por dia”, afirmou.
Ela destacou que o agronegócio precisa investir em diferenciação e qualidade para crescer no mercado. “O pequeno produtor precisa trabalhar com qualidade e diferenciação”, declarou. A empresária também revelou planos de ampliar a linha de bebidas da marca, incluindo misturas de água de coco com frutas, café e chocolate.
Rita Grangeiro defende valorização do agronegócio
Ao final da entrevista, Rita Grangeiro defendeu maior valorização do agronegócio brasileiro e afirmou que o setor está presente em praticamente todos os aspectos da rotina da população.
“O nosso caminho é o agro. Tudo vem do agro. O que a gente veste, o que come, o que consome”, afirmou.
Questionada sobre o segredo da trajetória empresarial, ela resumiu a experiência em três pilares.
“Gostar, trabalhar e acreditar”, declarou.
O programa Conexões com Ricardo Bezerra é exibido pela Jovem Pan News Fortaleza e também possui edição semanal na TV Cidade.




