Eduardo Bolsonaro (PL) afirmou que é favorável a que o irmão, Flávio Bolsonaro (PL), deixe o Brasil caso seja derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de 2026. A declaração foi feita nesta sexta-feira (23), durante entrevista ao programa norte-americano Louder with Crowder, apresentado pelo comentarista político Steven Crowder. Na mesma conversa, o ex-deputado federal voltou a questionar a segurança das urnas eletrônicas brasileiras.
Flávio e Lula disputam a Presidência da República no domingo (25), após uma votação apertada no primeiro turno. Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%.
A manifestação de Eduardo ocorreu durante uma conversa sobre o que poderia acontecer com a família Bolsonaro caso o senador não conquistasse a vitória. Questionado por um espectador sobre a possibilidade de o grupo preparar alguma medida para ajudar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Eduardo respondeu inicialmente com uma brincadeira sobre o envio de fuzileiros navais.
Depois da reação no estúdio, a conversa passou a abordar as consequências políticas e judiciais de uma eventual derrota eleitoral. Foi nesse contexto que Eduardo declarou apoio à possibilidade de o irmão sair do país.
“Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza. Com certeza”, afirmou.
A declaração foi apresentada pelo ex-deputado como uma reação ao que ele descreveu como ameaças feitas por Lula durante o debate presidencial. Segundo Eduardo, o petista teria mencionado a possibilidade de investigações contra Flávio depois do fim do mandato parlamentar e da perda da imunidade associada ao cargo.
A fala ocorre na reta final da campanha presidencial, quando os dois candidatos intensificam a disputa por votos e tentam influenciar a avaliação dos eleitores sobre o adversário.
Eduardo Bolsonaro relaciona possível saída do irmão a investigações
Durante a entrevista, Eduardo afirmou que Lula teria sinalizado, durante o debate, que Flávio poderia ser alvo de investigações caso deixasse de ocupar uma cadeira no Senado.
Na interpretação do ex-deputado, a declaração representaria uma ameaça ao irmão. Ele usou esse argumento para justificar sua posição favorável à saída do senador do Brasil em caso de derrota.
A fala, porém, expressa a avaliação de Eduardo sobre o episódio. A eventual abertura de investigações depende dos procedimentos legais aplicáveis e não pode ser confundida, por si só, com uma condenação ou com a comprovação de responsabilidade criminal.
A discussão também coloca em evidência a relação entre a disputa eleitoral e os processos judiciais envolvendo integrantes da família Bolsonaro. Nesse cenário, a eleição presidencial é apresentada por Eduardo não apenas como uma disputa pelo comando do Executivo, mas também como um fator que, na avaliação dele, pode alterar as condições políticas enfrentadas pelo grupo.
A entrevista não estabelece, por si só, que Flávio deixará o país se perder a eleição. O que foi declarado é o apoio de Eduardo a essa possibilidade. A decisão efetiva caberia ao próprio senador.
Eduardo Bolsonaro volta a questionar as urnas eletrônicas
Outro ponto importante da entrevista foi a crítica de Eduardo ao sistema de votação brasileiro. O ex-deputado argumentou que a ausência de cédulas de papel utilizadas diretamente na contagem impediria, em sua avaliação, uma conferência independente dos resultados.
“O problema é que nós não usamos papel, não há contagem pública dos votos, e você precisa confiar na máquina”, afirmou.
Eduardo também atribuiu ao ditador soviético Josef Stálin uma frase sobre a importância de controlar a contagem dos votos. Em seguida, declarou que não poderia provar a ocorrência de fraude, mas que, segundo seu raciocínio, os responsáveis pelo sistema também não poderiam provar a inexistência de irregularidades.
Essa argumentação, contudo, não constitui evidência de fraude eleitoral. A confiabilidade de um sistema de votação deve ser avaliada a partir dos mecanismos de fiscalização, auditoria e verificação disponíveis, e não apenas da possibilidade abstrata de falhas.
No Brasil, as urnas eletrônicas são utilizadas desde 1996. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que não há registro de fraude comprovada no sistema eleitoral eletrônico brasileiro.
Além disso, o processo de votação conta com mecanismos que permitem a conferência dos resultados. Ao final da votação, cada urna emite o Boletim de Urna (BU), documento que apresenta a quantidade de votos registrados naquela seção eleitoral.
Uma via é afixada no local de votação, e representantes de partidos que acompanham o procedimento podem receber cópias. Os boletins também são disponibilizados na internet, permitindo que os números sejam comparados com os resultados oficiais divulgados pela Justiça Eleitoral.
Esses procedimentos são relevantes porque permitem verificar os totais registrados em cada seção, sem que seja necessário divulgar o voto individual de cada eleitor. O sigilo da escolha é preservado, enquanto os resultados podem ser conferidos publicamente.
Debate sobre voto impresso já passou pelo Congresso e pelo STF
Eduardo também criticou o Supremo Tribunal Federal (STF) ao abordar as tentativas de implantação do voto impresso no país. Segundo ele, propostas aprovadas pelo Congresso foram posteriormente barradas pela Corte.
A discussão sobre a impressão de registros de votação tem um histórico legislativo que remonta aos anos 2000. O Congresso aprovou medidas relacionadas ao voto impresso em 2002, 2009 e 2015, mas os dispositivos tiveram destinos diferentes.
A primeira previsão foi revogada pelo próprio Legislativo em 2003. Já os trechos aprovados posteriormente foram derrubados pelo STF, em decisões de 2013 e 2020.
Entre os argumentos apresentados contra a impressão de comprovantes associados ao voto está o risco de comprometer o sigilo da escolha do eleitor. A discussão envolve, portanto, não apenas a possibilidade de conferência dos resultados, mas também a necessidade de impedir que terceiros identifiquem ou comprovem em quem uma pessoa votou.
O debate permanece politicamente relevante porque a confiança nas eleições é um dos elementos centrais da legitimidade democrática. Ao mesmo tempo, questionamentos sobre o sistema precisam ser diferenciados de acusações de fraude que não estejam acompanhadas de provas.
Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos e foi condenado pelo STF
A entrevista também ocorre em um momento de consequências judiciais para Eduardo Bolsonaro. O ex-deputado vive nos Estados Unidos desde 2025 e teve o mandato parlamentar declarado perdido pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, em dezembro daquele ano, por excesso de faltas às sessões.
Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF o condenou, por unanimidade, pelo crime de coação no curso do processo. Conforme a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), acolhida pelo tribunal, Eduardo teria atuado junto ao governo norte-americano para promover medidas contra o Brasil, incluindo tarifas sobre exportações brasileiras e restrições de vistos a integrantes do governo e do Supremo.
A decisão relacionou essas iniciativas à tentativa de interferir no julgamento de Jair Bolsonaro no processo sobre a trama golpista.
A pena estabelecida foi de quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto. Segundo as informações fornecidas sobre o caso, a condenação se tornou definitiva em 3 de outubro de 2026, sem possibilidade de novos recursos. Em decisão assinada em 7 de outubro e divulgada no dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes determinou o início do cumprimento da pena e a expedição de mandado de prisão, além do cancelamento dos passaportes brasileiros de Eduardo.
Esse contexto ajuda a compreender por que o tema das consequências judiciais aparece na entrevista. Ainda assim, a situação jurídica de Eduardo é distinta da disputa eleitoral de Flávio: a condenação do ex-deputado não determina automaticamente o que acontecerá com o senador em caso de derrota.
Com a eleição marcada para domingo, a declaração de Eduardo acrescenta um novo elemento ao debate político nos últimos dias de campanha. Além de defender que o irmão deixe o país se perder, ele voltou a colocar em dúvida o sistema eletrônico de votação, tema que há anos divide discursos políticos, apesar dos mecanismos de auditoria e da ausência de fraude comprovada reconhecida pela Justiça Eleitoral.




