A investigação da Polícia Federal (PF) sobre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz ganhou novos elementos com a descoberta de uma sala blindada em um hangar no Aeroporto de Brasília e a análise de movimentações bilionárias em plataformas de apostas. Os investigadores apuram suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, além de possíveis vínculos financeiros entre o advogado, empresas de apostas e o parlamentar. Os dois são investigados, mas as suspeitas ainda dependem da apuração das autoridades. As informações foram veiculadas na edição desta quarta-feira (21) do Jornal Nacional.
A sala foi localizada durante diligências relacionadas à Operação Sem Desconto, que investiga fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Segundo informações divulgadas pela imprensa a partir de documentos policiais, o compartimento estava escondido atrás de um painel de madeira e tinha uma porta reforçada. No interior, os agentes encontraram uma máquina de contar cédulas e uma mala vazia, mas nenhuma quantia em dinheiro vivo.
A descoberta ampliou as perguntas dos investigadores sobre a estrutura mantida por empresas de aviação ligadas a Tomaz. A PF suspeita que o espaço pudesse servir para guardar ou organizar dinheiro em espécie e apura a possibilidade de transporte de valores em aeronaves particulares. A existência da sala, por si só, não comprova que o local tenha sido utilizado para armazenar recursos ilícitos.
A defesa do advogado afirma que o compartimento e os equipamentos atendem empresas de transporte de valores que utilizam os serviços de aviação. Segundo os representantes de Tomaz, estruturas protegidas e máquinas de contagem são compatíveis com esse tipo de atividade. A defesa também sustenta que nenhuma quantia foi encontrada no local e classifica como infundada a hipótese de uso da sala para dinheiro de origem ilegal.
Ministério da Fazenda aponta movimentação de R$ 5 bilhões em bets
Outro eixo da investigação envolve as operações financeiras de Willer Tomaz em plataformas de apostas on-line. Uma nota técnica do Ministério da Fazenda, divulgada pela imprensa em outubro de 2026, aponta que o advogado movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas ao longo de 2025 e foi a pessoa física com maior volume de depósitos nesse mercado naquele ano. O documento também registra depósitos superiores a R$ 258 milhões e saques próximos de R$ 200 milhões.
O valor bilionário relacionado às apostas não significa que Tomaz tenha recebido R$ 5 bilhões de lucro ou mantido todo esse montante em sua conta. A cifra inclui a circulação de recursos em apostas sucessivas, nas quais valores podem ser utilizados novamente após resultados de jogos. Por isso, a análise dos depósitos, saques, perdas e transferências é importante para compreender a origem e o destino do dinheiro.
A Polícia Federal investiga se operações realizadas em plataformas de apostas podem ter sido utilizadas para dissimular a origem ou a destinação de recursos. Entre as hipóteses examinadas estão possíveis relações entre o investigado, empresas vinculadas às plataformas e estruturas empresariais que poderiam receber ou transferir valores.
O relatório policial citado nas reportagens aponta movimentações consideradas incompatíveis com as atividades econômicas declaradas pelo advogado. A PF também examina registros de operações que, em determinados dias, teriam ultrapassado R$ 35 milhões.
A defesa contesta a interpretação dos dados. Afirma que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com os rendimentos de Tomaz e foram declarados à Receita Federal. O advogado também questiona a divulgação das suspeitas às vésperas do segundo turno presidencial e afirma que a exposição de informações sigilosas pode ter motivação política.
E-mails citam Flávio Bolsonaro em conta de empresa ligada ao advogado
A investigação também considera documentos eletrônicos encontrados no celular de Willer Tomaz. Segundo as informações divulgadas, e-mails indicariam que Flávio Bolsonaro foi cadastrado como usuário master de uma conta bancária da Alcazar, empresa ligada ao advogado.
No mercado financeiro, a expressão costuma designar um perfil com poderes administrativos amplos sobre uma conta. A extensão efetiva das permissões, porém, depende das regras e dos registros da instituição financeira. O cadastro mencionado nos documentos é um dos pontos examinados pelos investigadores para esclarecer a relação entre o parlamentar e as empresas.
A assessoria de Flávio Bolsonaro declarou que o senador nunca manteve conta bancária na qual Willer Tomaz ou alguma empresa dele figurasse como usuário master. A declaração apresenta uma contestação à informação sobre o cadastro, mas não substitui a verificação dos registros bancários que integram a investigação.
Os investigadores também analisam relações empresariais envolvendo a Alcazar e a Cathedral, companhias registradas na Ilha da Madeira, em Portugal. De acordo com o material divulgado, a Cathedral teria sido utilizada para pagar viagens de Flávio e familiares à Europa, em maio de 2025.
A apuração procura esclarecer a natureza dessas relações, a origem dos pagamentos e a eventual existência de interesses econômicos compartilhados. A amizade entre o advogado e o senador, assim como viagens realizadas em conjunto, não comprova isoladamente a prática de crime. O ponto central é determinar se houve participação societária, benefício financeiro indevido ou utilização de operações para ocultar recursos.
Empresas de apostas entram no foco da investigação
Entre as empresas relacionadas ao caso está a Rede Loto, associada à marca Best Bet e ligada a Willer Tomaz por meio de estruturas empresariais. Segundo as informações reunidas na investigação, a Rede Loto obteve autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) em 2023.
A PF apura se a relação entre empresas, contas bancárias e plataformas de apostas pode ter sido usada para movimentar recursos de forma incompatível com a atividade declarada. Os investigadores também procuram entender se valores transferidos entre diferentes estruturas empresariais poderiam retornar por outros caminhos financeiros.
Outro nome mencionado é a Riopag, empresa que atua no segmento de pagamentos relacionados a apostas de lotéricas e bets vinculadas à Loterj. Tomaz vinha negando ser sócio da companhia, mas, em declaração divulgada em 21 de outubro, admitiu manter participação indireta por meio de uma cadeia de sociedades constituídas formalmente.
A defesa afirma que o advogado atua exclusivamente como advogado da Rio Pag e não participa da gestão das empresas citadas. Sustenta ainda que as relações societárias indiretas estão registradas nos órgãos competentes.
A distinção é relevante para a investigação: ter participação societária, prestar serviços jurídicos ou manter relações comerciais são situações diferentes. A apuração busca identificar quais vínculos efetivamente existiam, quais poderes eram exercidos e se houve alguma irregularidade nas operações financeiras.
PF também apura pagamento para retirar reportagens da internet
Mensagens e uma planilha encontradas durante a investigação indicariam que Tomaz pagou R$ 12 mil a uma empresa especializada em serviços de retirada ou desindexação de links na internet. Os conteúdos mencionados nas reportagens relacionavam o advogado a Flávio Bolsonaro.
A defesa afirma que a contratação teve finalidade judicial e buscava retirar dos resultados de pesquisa conteúdos considerados antigos ou desatualizados. Também nega que o objetivo fosse esconder a amizade entre Tomaz e o senador.
O episódio integra o conjunto de documentos analisados pelos investigadores, mas a contratação de um serviço de desindexação não demonstra, por si só, a existência de lavagem de dinheiro. A relevância do material depende do contexto, da finalidade do pagamento e de sua eventual conexão com outras operações investigadas.
O que dizem as defesas de Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro
A defesa de Willer Tomaz rejeita as suspeitas de lavagem de dinheiro e afirma que os recursos movimentados pelo advogado são lícitos e estão declarados. Sobre a sala blindada, sustenta que a estrutura atende empresas de transporte de valores e que não havia dinheiro no compartimento quando a PF realizou a diligência.
Em relação às reportagens, a defesa afirma que buscou a desindexação de conteúdos antigos por vias judiciais. Sobre a Riopag e outras empresas citadas, argumenta que a atuação do advogado é profissional e que eventuais participações indiretas decorrem de estruturas societárias formalizadas.
A defesa também critica a divulgação das suspeitas durante o período eleitoral, alegando possível uso político de informações sigilosas. Essa é a posição apresentada pelos representantes do advogado e não constitui, por si só, comprovação de interferência eleitoral.
Já a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que o senador nunca manteve conta bancária com Willer Tomaz ou empresas dele na condição de usuário master. O material fornecido não apresenta uma manifestação mais ampla da campanha sobre todos os pontos da investigação.
Até que as apurações sejam concluídas, as suspeitas devem ser tratadas como hipóteses investigativas. A análise dos documentos bancários, das relações empresariais e dos registros de movimentação financeira será determinante para esclarecer se houve crime e qual teria sido a participação de cada pessoa envolvida.
Investigação ocorre a poucos dias do segundo turno
A divulgação dos novos elementos acontece durante a campanha para o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro de 2026, no qual Flávio Bolsonaro disputa a Presidência. O calendário eleitoral aumenta a repercussão pública do caso, mas não altera os critérios necessários para comprovar eventuais crimes.
A defesa de Tomaz questiona o momento da divulgação das informações e levanta a hipótese de utilização política de dados sigilosos. Essa alegação também precisa ser examinada com base em elementos concretos. A proximidade com a votação, isoladamente, não comprova motivação política nem invalida automaticamente documentos reunidos por investigadores.
O caso envolve suspeitas de circulação de grandes volumes financeiros, possíveis vínculos empresariais e relações entre um advogado e um candidato à Presidência. O esclarecimento depende da verificação da origem dos recursos, do papel de cada empresa, dos poderes efetivamente atribuídos nas contas e da análise das explicações apresentadas pelas defesas.



