O Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza, realizou no último sábado (23) uma cirurgia considerada inédita na rede pública de saúde do Ceará. Um paciente de 20 anos, diagnosticado com paraplegia após ser atingido por um disparo de arma de fogo, passou por procedimento com aplicação de polilaminina, substância experimental estudada para auxiliar na recuperação de lesões na medula espinhal.
A intervenção ocorreu dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e marcou a primeira utilização da técnica em uma unidade pública cearense.
O procedimento foi coordenado pelo neurocirurgião Lucas Chaves e contou com atuação de uma equipe multiprofissional.
IJF realiza cirurgia inédita com polilaminina no Ceará
Segundo informações do hospital, o jovem apresentou comprometimento na região da vértebra T8 após o ferimento provocado pelo tiro.
A cirurgia teve duração aproximada de uma hora.
Durante o procedimento, a aplicação da polilaminina foi realizada diretamente na medula espinhal, acima e abaixo da área lesionada, com auxílio de imagens de raio-X para orientar a infusão da substância.
Além da equipe médica do IJF, profissionais ligados ao estudo clínico acompanharam a cirurgia em Fortaleza.
Um médico do Laboratório Cristália e um pesquisador vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estiveram presentes durante o procedimento.
Paciente ficou paraplégico após disparo de arma de fogo
O paciente já era acompanhado pelo IJF antes da realização da cirurgia.
Ele foi internado na sexta-feira (22) e passou pelo procedimento eletivo no início da tarde do sábado.
A autorização para utilização da polilaminina ocorreu após solicitação judicial apresentada pelo jovem.
O tratamento recebeu aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dentro das regras previstas para uso compassivo de medicamentos experimentais.
Esse tipo de autorização é destinado a pacientes em estado grave ou sem alternativas terapêuticas disponíveis no país.
A regulamentação está prevista na RDC nº 38/2013 da Anvisa e permite o uso individual de substâncias ainda em fase de estudo clínico.
Como a polilaminina atua na medula espinhal
A polilaminina é uma substância desenvolvida a partir da laminina, proteína encontrada naturalmente no organismo humano.
A descoberta ocorreu há mais de duas décadas durante pesquisas conduzidas pela cientista Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.
Os estudos começaram enquanto a pesquisadora realizava investigações nos Estados Unidos sobre mecanismos de associação entre proteínas.
A partir da laminina original, pesquisadores desenvolveram a polilaminina em laboratório com o objetivo de estimular a reorganização das conexões nervosas em áreas lesionadas da medula espinhal.
Pesquisa busca regeneração de conexões nervosas
A medula espinhal é uma estrutura essencial do sistema nervoso central e atua na transmissão dos sinais enviados pelo cérebro para o restante do corpo.
Ela é responsável pelos movimentos, respostas motoras e diversas funções neurológicas.
Por ser extremamente sensível, pode sofrer danos severos em casos de acidentes, quedas, doenças degenerativas, tumores, infecções ou ferimentos provocados por arma de fogo.
Pesquisas sobre a polilaminina apontam potencial de regeneração parcial das conexões nervosas, o que pode contribuir futuramente para recuperação de movimentos em pacientes com lesão medular.
Apesar disso, especialistas destacam que os estudos ainda estão em andamento.
Tratamento experimental foi autorizado pela Anvisa
O uso da substância continua sendo considerado experimental e segue critérios rigorosos para inclusão de pacientes nas pesquisas clínicas.
Segundo informações do Laboratório Cristália, fatores como tipo da lesão, gravidade do quadro, idade do paciente e presença de doenças associadas são avaliados antes da autorização do tratamento.
O procedimento realizado no IJF amplia o debate sobre terapias regenerativas no Brasil e reforça o papel da pesquisa científica no desenvolvimento de novas possibilidades terapêuticas para pacientes com lesões graves na medula espinhal.
Especialistas ressaltam que os resultados dependem de acompanhamento clínico contínuo e de avaliações científicas de longo prazo para comprovação da eficácia do tratamento.




