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CIÊNCIA

Pele de tilápia: fábrica no Ceará terá capacidade para 4 mil curativos por dia

Tecnologia desenvolvida pela UFC já foi utilizada em mais de 350 pacientes com queimaduras e deve ganhar produção em larga escala a partir de 2028

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Pele de tilápia: fábrica no Ceará terá capacidade para 4 mil curativos por dia
Com a produção industrial, o que antes não tinha essa destinação passa a ser aproveitado como matéria-prima para um produto destinado ao tratamento de queimaduras. Foto: Reprodução / TV Cidade Fortaleza

Uma tecnologia desenvolvida no Ceará para o tratamento de queimaduras está prestes a ganhar produção em escala industrial. A pele de tilápia, transformada em um curativo biológico, já foi utilizada em mais de 350 pacientes e agora deve chegar a uma nova etapa com a construção de uma fábrica em Jaguaribara, no interior do estado.

O projeto reúne pesquisa, aplicação na área da saúde e aproveitamento de um material que antes era descartado. A unidade terá capacidade para produzir quatro mil curativos por dia, com expectativa de entrar em funcionamento em 2028.

Leia também: Santa Casa de Fortaleza realiza mais de 3 mil atendimentos à saúde da mulher em 2026

Como a pele de tilápia é usada no tratamento de queimaduras

A aplicação do material já faz parte da trajetória de pacientes que passaram por queimaduras graves. Em 2016, Josué Júnior sofreu queimaduras no braço depois de ser vítima de uma descarga elétrica. Durante a recuperação, recebeu a pele de tilápia como parte do tratamento.

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“Conheci esse homem maravilhoso, inteligente. O Dr. Edmar, me apresentou o projeto da pele de tilápia, e aí eu concordei, vi os benefícios que me traria durante o tratamento. Menos dor e menos tempo de internação.”

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Um dos diferenciais do curativo está no tempo em que ele pode permanecer sobre a ferida. Enquanto o tratamento convencional exige trocas frequentes, a pele de tilápia pode permanecer por vários dias, com a substituição definida de acordo com a evolução do paciente.

Além da permanência maior sobre a lesão, os estudos realizados no Ceará apontaram resultados relacionados à cicatrização, à ocorrência de infecções e aos custos do tratamento.

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Pesquisa com pele de tilápia começou no Ceará em 2015

As pesquisas que identificaram a eficácia do uso da pele de tilápia na recuperação de queimaduras começaram em 2015, na Universidade Federal do Ceará (UFC). O tecido do peixe apresenta concentração de colágeno semelhante à da pele humana, característica que está entre os elementos centrais do desenvolvimento do curativo biológico.

Com o avanço dos testes, os resultados foram considerados promissores. Odorico de Moraes, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC, destaca os resultados observados nos pacientes e o impacto econômico identificado nos estudos.

“A gente viu que teve uma resposta muito boa dos pacientes, diminuiu o tempo de cicatrização, os pacientes não tiveram processos infecciosos, diminuiu consideravelmente os custos. Então nós fizemos um estudo de custos e esses custos foram diminuídos quase 70%.”

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A pesquisa, que começou no estado, já chegou a mais de 350 pacientes com queimaduras. A construção da unidade industrial representa uma mudança de escala para uma tecnologia que até agora esteve associada ao desenvolvimento e à aplicação em pacientes.

Fábrica em Jaguaribara terá capacidade para 4 mil curativos por dia

A nova unidade será instalada em Jaguaribara e terá capacidade para produzir quatro mil curativos diariamente. A previsão é de que o espaço entre em funcionamento em 2028, ampliando a produção da tecnologia desenvolvida pela UFC.

A industrialização também deve ter impacto econômico no município. Segundo Fábio Feijó, secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, a indústria poderá gerar entre 200 e 300 empregos diretos em Jaguaribara, cidade que, segundo ele, tem 10.300 habitantes.

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“Além do fato de a indústria, que tem alto valor agregado, pagar média salarial acima da indústria nacional — o que isso não vai gerar numa cidade chamada Jaguaribara, que tem 10.300 habitantes, em torno de 200 a 300 empregos diretos? Isso abre outras oportunidades produtivas para que o peixe da tilápia seja processado no interior do estado, para fazer, por exemplo, filé de tilápia. E a pele, que é um resíduo, vira um ativo econômico que vai alimentar a matéria-prima da indústria.”

A previsão é de que a expansão da produção permita levar a tecnologia para mais pacientes no Brasil e no mundo. Ao mesmo tempo, o projeto cria uma possibilidade de aproveitamento econômico de uma parte do peixe que anteriormente seria descartada.

Produção industrial pode transformar resíduo em ativo econômico

A pele utilizada na fabricação do curativo tem origem nesse material de descarte. Com a produção industrial, o que antes não tinha essa destinação passa a ser aproveitado como matéria-prima para um produto destinado ao tratamento de queimaduras e lesões externas.

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Antonella Souza, coordenadora de pesquisa do Laboratório da Pele de Tilápia, explica que as características do tecido estão relacionadas à concentração e ao tipo de colágeno encontrado na pele do peixe.

“Esse produto que a gente tem hoje, tão falado e tão conhecido como curativo biológico externo, ele tem origem a partir desse material de descarte. Mas a principal característica dessa pele utilizada nas queimaduras e lesões externas, de um modo geral, é a concentração de colágeno e o tipo de colágenos que essa pele tem, que é semelhante à pele humana. E a vantagem é ele ser tão bom quanto o tratamento convencional.”

Com a fábrica, a tecnologia desenvolvida no Ceará deve passar da etapa de aplicação em pacientes e desenvolvimento científico para uma produção em larga escala. A expectativa é que a unidade de Jaguaribara esteja funcionando em 2028 e contribua para ampliar o alcance do curativo biológico feito a partir da pele de tilápia.

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