Em meio às árvores da Cidade da Criança, no Centro de Fortaleza, uma luminária antiga chama a atenção pela aparência e pelo contraste com os equipamentos urbanos mais modernos. O registro feito pela universitária Rayra Gomes despertou uma reflexão sobre a presença de estruturas históricas na capital e sobre como elementos do passado podem continuar integrados à cidade.
Para Rayra, a possibilidade de observar de perto uma arquitetura de outros períodos ajuda a compreender a história de Fortaleza. Ela destaca que a preservação permite estabelecer uma relação entre diferentes momentos da cidade.
“Poder ter contato com essa arquitetura mais antiga, até porque a gente consegue preservar e daí a gente consegue tirar o que é do passado, o que é do presente”, afirma Rayra.
As luminárias fazem parte da paisagem histórica da Cidade da Criança, mas a maior parte delas desapareceu do local após a requalificação realizada em 2021. As estruturas que permanecem atualmente têm caráter decorativo. Segundo a avaliação da urbanista Patrícia Pessoa, porém, existe a possibilidade de modernizar os equipamentos sem eliminar suas características originais.
Luminárias antigas chamam atenção na Cidade da Criança
As luminárias que ainda permanecem no parque remetem ao início do século passado, período em que a iluminação pública chegou a Fortaleza e passou a fazer parte da transformação da paisagem urbana.
Com o avanço da tecnologia, equipamentos antigos foram gradualmente substituídos por modelos mais modernos. No entanto, para especialistas, isso não significa necessariamente que as estruturas históricas precisem desaparecer.
Patrícia Pessoa cita como exemplo uma intervenção realizada no Rio de Janeiro, no projeto do Porto Maravilha. Segundo a urbanista, foi possível preservar a aparência dos equipamentos antigos e, ao mesmo tempo, atualizar a parte elétrica e a tecnologia utilizada.
“Inclusive, a cidade do Rio de Janeiro fez isso na obra do Porto Maravilha, no sentido de conseguir passar essa fiação elétrica, atualizar a própria tecnologia das lâmpadas”, explica Patrícia.
A solução, segundo ela, permite manter o aspecto visual dos equipamentos sem abrir mão da funcionalidade. “Mesmo preservando a parte estética desse equipamento, ele continue tendo a funcionalidade de iluminar o ambiente a contento”, acrescenta a urbanista.
A possibilidade de recuperar as luminárias ganha importância justamente porque poucas delas permanecem na Cidade da Criança. Em vez de funcionarem apenas como objetos decorativos, elas poderiam voltar a integrar o cotidiano do parque com uma estrutura tecnológica atualizada.
Luminárias ajudam a preservar memória de Fortaleza
Mais do que iluminar espaços públicos, equipamentos urbanos antigos podem funcionar como referências materiais de diferentes períodos da história de uma cidade.
No caso das luminárias da Cidade da Criança, a relação com o início da iluminação pública em Fortaleza amplia o valor histórico das estruturas. Para Patrícia, manter esses elementos ajuda a preservar a memória arquitetônica e as lembranças associadas ao espaço.
A urbanista defende que equipamentos antigos e novas tecnologias podem conviver no mesmo ambiente. Para ela, a modernização não precisa significar o apagamento das referências históricas.
“É importante utilizar esses equipamentos, misturando com novos equipamentos ou novas tecnologias”, afirma Patrícia.
A proposta, segundo ela, é preservar não apenas a aparência das peças, mas também o significado que elas carregam para quem frequenta o local.
“Que eles preservem a história da data onde aquele espaço ali foi construído e tudo o que ele traz de lembranças também emocionais e psicológicas para a população”, explica.
Essa relação entre memória e espaço urbano pode ser percebida especialmente em locais históricos, onde elementos arquitetônicos permanecem como testemunhos de diferentes fases da cidade.
Cidade da Criança reúne passado e presente
A história da Cidade da Criança está diretamente ligada à formação urbana de Fortaleza. O espaço foi inaugurado em 1902, inicialmente com o nome de Parque da Liberdade, em homenagem à abolição da escravidão.
O local é considerado um dos primeiros espaços públicos de lazer da capital e, ao longo de mais de um século, passou por diferentes transformações.
Em 1991, a Cidade da Criança tornou-se Patrimônio Histórico Cultural de Fortaleza, reforçando a importância de sua preservação.
Mais recentemente, o espaço passou por uma nova transformação. Na reforma realizada em 2025, foram acrescentados ambientes lúdicos e interativos voltados para as crianças, incorporando novas possibilidades de uso ao parque.
A presença das luminárias antigas nesse cenário cria justamente o contraste entre diferentes momentos. De um lado, estão as estruturas que remetem à história da iluminação e da arquitetura da capital. Do outro, os novos equipamentos pensados para atender às necessidades atuais dos frequentadores.
Para a universitária Marina Noronha Lemos, manter esses elementos antigos é importante mesmo diante das revitalizações realizadas no espaço.
“Eu acho realmente muito interessante manter essas coisas antigas, apesar da revitalização”, afirma Marina.
Ela destaca que a importância das luminárias vai além da função prática de iluminar o parque. A preservação também está relacionada à memória da cidade e à maneira como seus moradores reconhecem o espaço.
“Não só pela questão funcional de ser um poste, manter a iluminação do local, mas também pela questão da memória”, explica.
Patrimônio histórico segue integrado ao espaço urbano
A Cidade da Criança funciona atualmente como uma área de convivência em meio à movimentação do Centro de Fortaleza. O parque reúne espaços voltados ao lazer infantil e elementos que remetem à história da capital.
Nesse contexto, as luminárias antigas acabam funcionando como pequenos registros visuais de uma Fortaleza de outro período. Para quem passa pelo local, podem parecer apenas objetos decorativos, mas sua permanência permite observar parte da transformação pela qual a cidade passou.
Marina ressalta que Fortaleza possui uma riqueza arquitetônica que pode ser percebida não apenas nos prédios, mas também em objetos e detalhes que compõem os espaços urbanos.
“Fortaleza é uma cidade que é muito rica e a gente vê muito isso na própria arquitetura e no próprio design dos objetos”, afirma.
Para ela, as luminárias também ajudam a revelar diferentes momentos da história da Cidade da Criança e permitem imaginar como o espaço pode continuar sendo transformado sem abandonar suas referências.
“Revela muito do que o parque um dia foi e do que ele ainda pode ser no futuro”, conclui Marina.
A Secretaria Municipal da Cultura informou que acompanha os desdobramentos relacionados à situação das luminárias em articulação com outros órgãos.
A discussão sobre a preservação desses equipamentos mostra um desafio presente em diferentes áreas históricas: encontrar equilíbrio entre a modernização e a conservação da memória. No caso da Cidade da Criança, a possibilidade de adaptar as luminárias à tecnologia atual representa uma alternativa para que elas continuem fazendo parte da paisagem sem deixar de cumprir uma função.
O debate também ajuda a olhar para o patrimônio de Fortaleza para além dos grandes edifícios e monumentos. Postes, luminárias, jardins, praças e outros elementos aparentemente simples podem carregar referências importantes sobre a evolução da cidade.
Na Cidade da Criança, passado e presente dividem o mesmo espaço. Enquanto os novos ambientes ampliam as possibilidades de lazer, as antigas luminárias permanecem como lembrança de uma Fortaleza que começou a incorporar a iluminação pública e que, mais de um século depois, continua transformando sua paisagem.
Preservá-las, portanto, significa manter visível uma parte dessa história — e permitir que novos frequentadores do parque também possam reconhecê-la.




