O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 será realizado neste domingo (25), com uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O resultado será definido em um cenário de forte polarização política, que também marcou as últimas eleições presidenciais brasileiras.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. Na totalização oficial divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio recebeu 56.104.503 votos, contra 53.879.538 do petista. A diferença foi de 1,87 ponto percentual, o equivalente a pouco mais de 2,2 milhões de votos.
A disputa atual dá continuidade a uma trajetória de mudanças no sistema partidário, nas estratégias de campanha e no comportamento do eleitorado brasileiro. Desde 1989, quando o país voltou a escolher diretamente o presidente da República após o período da ditadura militar, as eleições passaram por diferentes configurações políticas, de disputas entre projetos econômicos à consolidação de campos eleitorais fortemente identificados com seus candidatos.
A retrospectiva das eleições presidenciais decididas em segundo turno ajuda a compreender como o Brasil chegou ao atual cenário. A análise também exige considerar os pleitos de 1994 e 1998, vencidos no primeiro turno, que marcaram a estabilização econômica e a consolidação de uma disputa entre PSDB e PT.
1989: a volta do voto direto e a disputa entre Collor e Lula
A eleição presidencial de 1989 marcou o retorno do voto direto para presidente depois de 29 anos. Realizada após o fim da ditadura militar e a promulgação da Constituição de 1988, a votação reuniu 22 candidatos e refletiu a reorganização das forças políticas brasileiras.
O cenário era de inflação elevada, crise econômica e desgaste do governo de José Sarney. Nesse contexto, Fernando Collor de Mello, do PRN, apresentou-se como uma alternativa aos grupos políticos tradicionais, com um discurso de combate à corrupção. Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, representava a esquerda sindical e os setores ligados aos movimentos populares.
No primeiro turno, Collor obteve 30,47% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 17,18%. O petista superou Leonel Brizola por uma diferença estreita e garantiu a vaga na etapa decisiva.
Para Fernando Costa, professor de História, a eleição também foi marcada pelo contexto internacional e pela centralidade dos meios de comunicação tradicionais.
“A eleição de 1989 foi o retorno do voto direto para presidente depois de 29 anos e inaugurou o segundo turno na Nova República. Foi uma disputa de alta mobilização, muita polarização ideológica e intensa presença da televisão, decidida entre Fernando Collor e Lula”, contextualiza o historiador.
A televisão teve papel central na campanha, com debates, pesquisas de intenção de voto e propaganda eleitoral. A internet ainda não fazia parte das estratégias de comunicação política, o que tornava o rádio, a TV e os eventos de rua fundamentais para alcançar o eleitorado.
No segundo turno, Collor venceu Lula com 53,03% dos votos válidos, contra 46,97% do adversário. A diferença foi de 6,06 pontos percentuais. A campanha também mobilizou setores conservadores e empresariais preocupados com a possibilidade de uma vitória da esquerda, enquanto Lula recebeu apoio de lideranças como Leonel Brizola e Mário Covas.
De 1994 a 2010: estabilização econômica e consolidação partidária
As eleições de 1994 e 1998 foram decididas no primeiro turno, mas são fundamentais para compreender a trajetória das disputas presidenciais. Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, venceu os dois pleitos em um período marcado pelo Plano Real, pela estabilização da moeda e pela possibilidade de reeleição presidencial, aprovada durante seu primeiro mandato.
A partir de 2002, as eleições presidenciais voltaram a exigir segundo turno. Naquele ano, Lula derrotou José Serra, do PSDB, com 61,27% dos votos válidos, contra 38,73% do adversário. A vitória representou a chegada à Presidência de um líder operário de esquerda e consolidou uma mudança importante na política nacional.
Em 2006, Lula foi reeleito ao vencer Geraldo Alckmin por 60,83% a 39,17%. Quatro anos depois, Dilma Rousseff, também do PT, tornou-se a primeira mulher eleita presidente do Brasil. Ela derrotou José Serra, do PSDB, com 56,05% dos votos válidos, contra 43,95%.
Para Danyelle Nilin, socióloga, esse período foi marcado pela predominância de duas forças políticas na disputa pelo Palácio do Planalto.
“Já na segunda eleição (1994), esse número de candidaturas caiu e inaugurou o ciclo de disputas marcadas sobretudo pelos partidos PSDB e PT”, explica a socióloga.
Essa dinâmica se manteve até 2014, quando Dilma Rousseff enfrentou Aécio Neves em uma das eleições presidenciais mais apertadas daquele período. A petista venceu com 51,64% dos votos válidos, contra 48,36% do tucano, uma diferença de 3,28 pontos percentuais.
O resultado ocorreu em meio ao desgaste do governo federal e às tensões políticas posteriores às manifestações de junho de 2013. Danyelle também destaca o questionamento do resultado eleitoral por Aécio Neves como um elemento que contribuiu para o aumento das tensões políticas nos anos seguintes.
Da crise política à ascensão de Bolsonaro
O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, marcou uma nova fase da política brasileira. O enfraquecimento do PSDB e o desgaste de partidos tradicionais abriram espaço para novas forças políticas, entre elas a candidatura de Jair Bolsonaro, que chegou à Presidência em 2018.
Naquele ano, Bolsonaro venceu Fernando Haddad, do PT, com 55,13% dos votos válidos, contra 44,87% do adversário. A campanha foi marcada pelo uso intensivo das redes sociais, pela circulação de mensagens em aplicativos de comunicação e pela rejeição a partidos tradicionais.
Na avaliação de Danyelle, a ascensão da extrema direita também alterou as condições de participação política e o ambiente das campanhas eleitorais.
“Essa guinada à extrema direita trouxe mudanças inclusive para as campanhas. Medo de ser agredido em função da posição política, silenciamentos e violência física passam a ser a marca desses processos, ajudados pelas redes sociais, ambientes que permitem esse tipo de comportamento cotidianamente”, afirma a socióloga.
A mudança na comunicação eleitoral foi uma das características desse período. Se, em 1989, a televisão e o rádio concentravam grande parte da comunicação política, em 2018 e 2022 as redes sociais e os aplicativos de mensagens ampliaram a velocidade de circulação de conteúdos e a capacidade de mobilização dos grupos políticos.
Lula e Bolsonaro: a disputa mais apertada desde a redemocratização
Em 2022, Lula e Jair Bolsonaro voltaram a disputar o segundo turno presidencial. Lula buscava retornar ao Palácio do Planalto, enquanto Bolsonaro tentava a reeleição.
O resultado foi o mais apertado da história das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização. Lula recebeu 50,90% dos votos válidos, totalizando 60.345.999 votos. Bolsonaro obteve 49,10%, com 58.206.354 votos. A diferença foi de 2.139.645 votos, equivalente a 1,80 ponto percentual.
Para Fernando Costa, a comparação entre 1989 e 2022 revela mudanças na natureza da polarização política. Enquanto a primeira disputa foi marcada pelo contexto da redemocratização e pela divisão entre diferentes projetos econômicos, a segunda também envolveu identidades políticas, valores culturais e avaliações dos governos anteriores.
“Essa polarização entre Lula e Bolsonaro em 2022 foi mais intensa e duradoura do que a de 1989, mas com raízes diferentes: em 1989, a divisão foi principalmente ideológica e conjuntural, com Collor representando uma agenda neoliberal e conservadora e Lula o nacional-desenvolvimentismo, ainda na linha de luta pela redemocratização e pelo medo do desconhecido, enquanto em 2022 ela se tornou identitária e afetiva, pois ambos ativaram memórias de seus governos anteriores e transformaram a escolha em uma definição de identidade política, moral e cultural”, analisa o historiador.
A diferença entre as margens de votação também chama a atenção. Em 1989, Collor venceu por 6,06 pontos percentuais. Em 2022, Lula ganhou por apenas 1,80 ponto, demonstrando a competitividade da disputa e a divisão do eleitorado entre os dois candidatos.
Costa também aponta que o antipetismo se consolidou como um elemento importante da política brasileira a partir de 2014, contribuindo para organizar parte do voto contrário ao PT. Ao mesmo tempo, Lula conseguiu reunir uma frente ampla de apoio, incluindo eleitores que não necessariamente compartilhavam todas as posições de seu partido.
A mobilização eleitoral também mudou. Em 2022, redes sociais, WhatsApp, igrejas e influenciadores digitais tiveram participação importante na circulação de mensagens e na organização de apoiadores.
Os efeitos da polarização sobre a democracia
A disputa de 2022 não encerrou as tensões políticas. Após a derrota, Bolsonaro não reconheceu publicamente o resultado nos termos esperados de uma transição política, enquanto grupos de apoiadores passaram a questionar a legitimidade do processo eleitoral.
O período foi marcado por acampamentos em frente a quartéis, com pedidos de intervenção militar, e culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando prédios dos Três Poderes, em Brasília, foram depredados por manifestantes.
Danyelle relaciona os acontecimentos ao enfraquecimento da confiança de parte dos grupos políticos nas instituições democráticas.
“Desde essa eleição, a democracia também é posta em xeque, dado o desapreço de parte dos apoiadores e dos candidatos de extrema direita pela democracia”, avalia a socióloga.
A trajetória eleitoral brasileira, portanto, não pode ser compreendida apenas pela diferença percentual entre os candidatos. Os resultados também refletem mudanças nos partidos, nas estratégias de comunicação, nas alianças políticas e na relação dos eleitores com as instituições.
O que as eleições anteriores ajudam a entender sobre 2026
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro em 2026 ocorre em um contexto diferente daquele de 1989, mas mantém a característica de uma eleição marcada pela competição entre projetos políticos distintos.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula por 1,87 ponto percentual. A diferença reforça a importância da transferência de votos dos candidatos que ficaram fora da disputa, da mobilização dos eleitores e do comparecimento às urnas no segundo turno.
A história dos segundos turnos presidenciais mostra que margens estreitas não são apenas um dado estatístico: elas também expressam a capacidade de cada candidatura de reunir apoios em um cenário competitivo. Ao mesmo tempo, a experiência das últimas décadas demonstra que a polarização pode ultrapassar o período eleitoral e influenciar o debate público e a confiança nas instituições.
Desde a primeira eleição decidida em segundo turno, em 1989, o Brasil passou por mudanças profundas. A retrospectiva permite observar a evolução dos partidos, o papel dos meios de comunicação, a transformação das campanhas e os desafios da convivência democrática em um país politicamente dividido.




