O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apagou uma publicação sobre a possível saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil e refez o texto com a inclusão da palavra “supostamente”. As postagens foram feitas nesta terça-feira (27), depois da divulgação de notícias de que Flávio teria deixado o país e seguido para os Estados Unidos.
Na primeira versão, Nikolas questionou a segurança de pessoas que se opõem ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo (25). O deputado escreveu: “Se um candidato a presidente que recebe 60 milhões de votos precisa sair do país, que segurança tem um cidadão comum que se opõe ao atual regime”.
Após apagar a mensagem, o parlamentar publicou uma nova versão, na qual acrescentou uma ressalva à informação sobre o senador. O texto passou a dizer: “Se um candidato a presidente que recebe 60 milhões de votos precisa (supostamente) sair do país, que segurança tem um cidadão comum que se opõe ao atual regime?”.
Em outra publicação, Nikolas criticou a legitimidade da atuação do governo Lula e relacionou o tema à liberdade de quem faz oposição. “Governo legitimamente eleito não persegue oposição, não faz censura e não reprime quem não o escolheu. Quem faz isso é ditador inseguro, sem sustentação, que quer provar que é o dono da casa que não lhe pertence”, escreveu.
O deputado também publicou uma sequência de stories no Instagram sobre a possível saída de Flávio do Brasil. Nas mensagens, criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou medidas envolvendo os passaportes do senador. Nikolas também havia afirmado que considerava “praticamente nula” a possibilidade de anulação da eleição.
O que se sabe sobre a possível viagem de Flávio Bolsonaro
As publicações de Nikolas ocorreram após o portal argentino Infobae divulgar, durante a madrugada desta terça-feira, que Flávio teria atravessado a fronteira com a Argentina na noite de segunda-feira (26) e embarcado em um avião particular com destino aos Estados Unidos.
A notícia indicava que o senador teria passado por Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones. A Polícia Federal (PF) iniciou consultas às autoridades argentinas para verificar se ele entrou no país vizinho. Até as informações mais recentes sobre essa apuração, a entrada não havia sido confirmada pela PF nem pelo governo argentino.
Pessoas próximas à família Bolsonaro informaram ao portal Metrópoles, no início da tarde desta terça-feira, que Flávio estava em um voo rumo aos Estados Unidos. A aeronave estaria no ar naquele momento. O senador não havia se manifestado publicamente sobre essa informação, e sua assessoria de imprensa também não tinha apresentado posicionamento.
Flávio estava sem dar notícias desde o início da manhã. A última mensagem enviada por ele havia sido às 8h, para o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral de sua campanha presidencial. Mais cedo, Marinho havia negado que o parlamentar tivesse deixado o Brasil.
A PF informou que não encontrou registros de passagem do senador pelos postos regulares de controle migratório brasileiro nas horas anteriores à divulgação da notícia. A ausência desses registros não esclarecia, por si só, se ele poderia ter cruzado a fronteira por outro ponto. O uso de carteira de identidade brasileira é permitido para a entrada na Argentina, sem necessidade de passaporte, conforme as regras de circulação entre países do Mercosul.
O Infobae informou que o voo teria decolado às 2h de terça-feira, no horário local, em um jato Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, pertencente à empresa Baires Fly. O portal também afirmou que Flávio teria utilizado um documento nacional de identidade para atravessar a fronteira. O veículo argentino está entre os principais portais jornalísticos do país e foi citado em uma pesquisa de 2026 do Reuters Institute for the Study of Journalism entre os meios de comunicação em que os argentinos mais confiam.
Ordem do STF e prazo para entrega dos passaportes
A possível viagem ocorreu depois de Moraes determinar, na noite de domingo (25), o cancelamento dos passaportes brasileiro comum e diplomático de Flávio e a entrega dos documentos à Polícia Federal em até 24 horas. A decisão também abrange eventuais passaportes de outras nacionalidades e proíbe o senador de deixar o Brasil.
O prazo terminou às 11h desta terça-feira, mas os documentos físicos não haviam sido entregues até aquele horário. A PF já havia cancelado os passaportes comum e diplomático nos sistemas da corporação, impedindo seu uso em viagens internacionais.
Moraes também proibiu Flávio de manter contato com o advogado Willer Tomaz. Os dois são investigados por suspeita de lavagem de dinheiro em um suposto esquema que envolveria empresas ligadas ao advogado e plataformas de apostas.
Na segunda-feira, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais no qual contou que foi abordado por agentes da PF quando saía da residência do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar. A abordagem foi confirmada ao R7 pelo delegado Dennis Cali, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da Polícia Federal.
Na gravação, o senador afirmou que pretendia cumprir a determinação judicial, mas contestou a medida. “Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar”, declarou.
Flávio também relacionou a decisão de Moraes a uma declaração do irmão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que teria sugerido, em 23 de outubro, que ele deixasse o país caso perdesse a eleição presidencial. O senador negou ter cogitado essa possibilidade e questionou a decisão: “Eu nunca falei isso. Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é Justiça?”.
Flávio perdeu o segundo turno da eleição presidencial para Lula no domingo (25) e contestou o resultado. Ele também afirmou que pretendia atuar na oposição ao governo federal. Até a divulgação das informações sobre o voo, o senador e sua assessoria de imprensa não haviam se manifestado sobre a nova publicação de Nikolas.




