A saída do Brasil não interrompe automaticamente as investigações contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O senador é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), que apuram suspeitas de lavagem de dinheiro em situações distintas: uma envolve sua relação com o advogado Willer Tomaz e negócios ligados ao setor de apostas; a outra investiga a origem dos recursos destinados ao filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os procedimentos têm relatores diferentes no Supremo. O inquérito relacionado a Willer Tomaz está sob responsabilidade do ministro Alexandre de Moraes, enquanto a investigação sobre o financiamento do filme é conduzida pelo ministro André Mendonça. As duas apurações buscam esclarecer suspeitas que ainda dependem da análise das provas e não representam, por si só, uma condenação.
A permanência de um investigado fora do território nacional não impede, por si só, que a Polícia Federal continue analisando documentos, depoimentos e movimentações financeiras. Eventuais medidas que dependam de autoridades estrangeiras, porém, precisam observar as regras legais aplicáveis e os mecanismos de cooperação internacional.
Flávio deixou o Brasil acompanhado da família em meio a uma controvérsia judicial. Antes da viagem, Moraes havia determinado que o senador entregasse os passaportes à Polícia Federal e proibido sua saída do território brasileiro. Após o fim do prazo sem a entrega dos documentos, a PF cancelou os passaportes brasileiros emitidos em nome dele.
Inquérito apura suspeitas envolvendo Willer Tomaz e casas de apostas
Uma das investigações busca esclarecer possíveis irregularidades financeiras envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz. O procedimento chegou ao STF após a Polícia Federal identificar elementos que, segundo os investigadores, justificariam apurar a relação entre os dois e possíveis conexões com empresas e movimentações financeiras do setor de apostas.
Entre os pontos examinados estão registros financeiros ligados à Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Documentos analisados pela PF indicariam que Flávio teve acesso operacional a uma conta bancária relacionada à empresa, circunstância que os investigadores consideram relevante para verificar uma possível participação econômica nos negócios.
A apuração também examina vínculos entre empresas ligadas a Tomaz e atividades no mercado de apostas. Os investigadores procuram determinar a origem dos recursos movimentados, a natureza das relações comerciais e se houve participação não formalizada do senador em negócios sob análise.
Flávio nega ter sido usuário com poderes de administração sobre contas bancárias de empresas do advogado e afirma que as suspeitas são infundadas. A defesa de Tomaz também sustenta que as empresas e participações do advogado são lícitas e que a relação entre os dois é de amizade entre as famílias.
Caso Dark Horse investiga origem dos recursos para o filme
O segundo inquérito apura a origem e a destinação de recursos destinados à produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A investigação envolve contatos entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
O caso ganhou repercussão após a divulgação de informações sobre conversas nas quais o senador teria solicitado recursos a Vorcaro para viabilizar o longa-metragem. A Polícia Federal investiga possíveis crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas.
A investigação foi autorizada por André Mendonça após pedido da PF e manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República. Flávio passou a figurar formalmente entre os investigados em julho de 2026, e o caso teve detalhes divulgados em setembro, após o levantamento parcial do sigilo de procedimentos ligados ao Banco Master.
O senador afirma que buscava financiamento privado para a produção do filme e nega irregularidades. A investigação procura esclarecer a origem dos valores, as condições em que foram oferecidos e se houve alguma prática criminosa nas operações. A existência do inquérito não significa que os crimes investigados tenham sido comprovados.
O que pode acontecer com os inquéritos após a saída do país
A continuidade das investigações não depende exclusivamente da presença física de Flávio no Brasil. A Polícia Federal pode seguir com diligências autorizadas, analisar documentos e reunir elementos para encaminhar aos ministros responsáveis. Se forem necessárias medidas em outro país, como obtenção de registros ou cumprimento de decisões, poderão ser acionados os instrumentos de cooperação jurídica internacional previstos em lei.
A competência do STF, contudo, não é necessariamente permanente. Ela depende das regras de foro por prerrogativa de função e das circunstâncias de cada investigação. O mandato de Flávio como senador termina em fevereiro de 2027, e a perda do cargo pode levar à reavaliação da competência para conduzir os casos, conforme o entendimento aplicável e as decisões judiciais.
Por isso, não é possível afirmar que os dois inquéritos permanecerão obrigatoriamente no Supremo de forma indefinida. A eventual transferência para outra instância dependerá da análise jurídica de cada procedimento. A saída do Brasil também não encerra eventuais medidas cautelares nem resolve as suspeitas investigadas. O andamento dos casos dependerá das provas reunidas, das manifestações das defesas e das decisões das autoridades judiciais competentes.




