O Partido Democrata conquistou a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3). O resultado impõe uma derrota política ao presidente Donald Trump, do Partido Republicano, que passa a enfrentar uma oposição com mais força para barrar projetos e fiscalizar o governo no Congresso.
Os democratas, em um balanço parcial, já haviam alcançado pelo menos 54 das 100 cadeiras do Senado, enquanto os republicanos contabilizavam 44. Na Câmara dos Representantes, o partido chegou a 225 vagas, ultrapassando as 218 necessárias para garantir a maioria entre os 435 deputados. Os números finais ainda serão contabilizados, uma vez que a contagem segue acontecendo.
A vitória democrata também alcançou estados tradicionalmente republicanos. Os resultados em locais como Texas, Kansas, Iowa, Ohio, Carolina do Norte e Carolina do Sul indicaram uma mudança importante no cenário político, especialmente em territórios nos quais Trump havia obtido vantagem expressiva na eleição presidencial de 2024.
Além do avanço no Congresso, as eleições foram marcadas por conquistas históricas de representatividade. Mulheres, negros, indígenas, latinos, muçulmanos e pessoas LGBTQIA+ chegaram a cargos que nunca haviam sido ocupados por integrantes desses grupos, em uma das principais marcas do pleito.
Democratas ampliam força no Senado e na Câmara
A maioria democrata nas duas Casas altera a relação de forças em Washington. Com o controle do Senado, a oposição ganha condições de dificultar a aprovação de propostas do governo e rejeitar indicações feitas pelo presidente para cargos importantes, como ministros, embaixadores e juízes federais, inclusive integrantes da Suprema Corte.
Na Câmara dos Representantes, o resultado também amplia a capacidade de oposição à agenda de Trump. Os deputados democratas poderão influenciar negociações sobre o orçamento, bloquear projetos e conduzir investigações relacionadas à administração federal.
Antes da eleição, os republicanos controlavam as duas Casas. No Senado, tinham 53 cadeiras, enquanto os democratas contavam com 45 e dois independentes alinhados à oposição. Na Câmara, a composição era de 218 republicanos, 214 democratas, um independente e duas vagas abertas.
A virada no Senado foi impulsionada por vitórias em estados que costumavam favorecer os republicanos. No Kansas, o pastor Adam Hamilton derrotou Roger Marshall e se tornou o primeiro democrata eleito senador pelo estado em 94 anos. Trump havia vencido a disputa presidencial de 2024 no território por mais de 16 pontos percentuais.
No Texas, James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton e conquistou uma cadeira no Senado. A vitória encerrou uma sequência de derrotas democratas em eleições estaduais para a Casa que durava desde 1988. O estado havia dado a Trump uma vantagem de 14 pontos percentuais na eleição presidencial de 2024.
Em Ohio, o ex-senador Sherrod Brown venceu Jon Husted e garantiu seu retorno ao Congresso. Já em Iowa, Josh Turek derrotou Ashley Hinson, candidata apoiada pelo presidente, conquistando mais uma cadeira que estava nas mãos dos republicanos.
Trump diz que está disposto a aceitar resultado
Em declaração ao The New York Times, Donald Trump afirmou que está disposto a reconhecer o resultado das eleições e trabalhar com os democratas. O presidente também demonstrou expectativa de que os dois partidos consigam chegar a entendimentos. “Provavelmente chegaremos a um acordo”, declarou.
As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, acontecem na metade do período de quatro anos da Presidência dos Estados Unidos. Embora o cargo de presidente não esteja em disputa, o resultado define a composição do Congresso e o grau de apoio que o governo terá para aprovar suas propostas.
Neste ano, os eleitores escolheram representantes para todas as 435 cadeiras da Câmara e para 35 das 100 vagas do Senado. Os deputados têm mandatos de dois anos, enquanto os senadores permanecem no cargo por seis anos, com renovação de aproximadamente um terço da Casa a cada eleição.
Também foram realizadas disputas para governos de 36 estados.
Mulheres e negros conquistam governos estaduais
Na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms derrotou o republicano Rick Jackson e se tornou a primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano. Aos 56 anos, ela também será a primeira mulher a comandar o Executivo estadual e a primeira democrata eleita para o cargo desde 1998.
Ex-prefeita de Atlanta, Bottoms esteve entre os nomes considerados pelo então presidente Joe Biden para ocupar a vice-presidência na chapa democrata de 2020. A escolha acabou sendo Kamala Harris. Depois da eleição, Bottoms integrou a administração Biden.
Durante a campanha, a democrata visitou uma igreja frequentada por sua avó, em Atlanta, e destacou a influência da comunidade religiosa em sua trajetória. Após a vitória, publicou uma mensagem de agradecimento aos eleitores: “Obrigada, Geórgia”.
A Flórida também teve um resultado inédito. O republicano Byron Donalds, de 48 anos, venceu a disputa para governador e se tornou o primeiro homem negro a ocupar o cargo no estado. A vitória manteve o domínio republicano sobre o governo estadual, ocupado pelo partido desde 1999.
Ex-deputado federal com trajetória no setor financeiro, Donalds afirmou que pretende trabalhar para tornar a Flórida mais acessível, manter a segurança das ruas e oferecer oportunidades aos jovens que desejam viver no estado.
Em Wisconsin, o democrata David Crowley derrotou o republicano Tom Tiffany e se tornou o primeiro homem negro eleito governador em 178 anos de história estadual. Aos 40 anos, Crowley era executivo do condado de Milwaukee, o mais populoso da região. Em 2020, já havia sido o primeiro homem negro eleito para comandar o condado e também o mais jovem a assumir a função.
Indígena e latina chegam ao comando de estados
No Novo México, Deb Haaland venceu a disputa pelo governo estadual e se tornou a primeira mulher indígena eleita governadora nos Estados Unidos. Integrante da tribo Laguna Pueblo, ela já havia feito história ao ser a primeira pessoa indígena a ocupar um cargo de secretária no gabinete presidencial, durante o governo de Joe Biden, quando comandou o Departamento do Interior.
Haaland derrotou o republicano Gregg Hull e ampliou a presença democrata no estado. Durante a campanha, prometeu transformar o Novo México em um território de resistência às políticas do governo Trump.
No Texas, a democrata Gina Hinojosa venceu o republicano Greg Abbott e se tornou a primeira mulher latina eleita governadora do estado. Aos 52 anos, ela também encerrou uma sequência de domínio republicano que se estendia por mais de três décadas, derrotando um governador que buscava um quarto mandato.
A eleição de Hinojosa foi considerada uma das surpresas do pleito, já que Abbott era apontado como favorito e contava com uma estrutura de campanha robusta. A vitória democrata também ocorreu em um estado que havia apoiado Trump por uma margem de 14 pontos percentuais em 2024.
Eleições também têm primeiro senador gay e muçulmano
A representatividade avançou também no Senado. Em New Hampshire, o democrata Chris Pappas venceu a disputa contra o republicano John Sununu e se tornou o primeiro homem abertamente gay eleito para a Câmara Alta do Congresso norte-americano.
Aos 46 anos, Pappas é deputado federal desde 2018 e copreside o Grupo Parlamentar pela Igualdade do Congresso. Ele ocupará a cadeira que pertenceu à democrata Jeanne Shaheen, que anunciou sua aposentadoria no início do ano.
Durante a campanha, Pappas defendeu que ninguém deve sofrer discriminação por sua identidade ou por suas relações afetivas. Sua vitória também manteve a cadeira de New Hampshire sob controle democrata.
Em Michigan, o médico e epidemiologista Abdul El-Sayed, de 42 anos, conquistou uma vaga no Senado e se tornou o primeiro muçulmano eleito para a Casa. Filho de imigrantes egípcios, ele também foi apontado como o primeiro senador de origem árabe dos Estados Unidos.
A disputa ocorreu após o democrata Gary Peters decidir não concorrer à reeleição. El-Sayed venceu o republicano Mike Rogers, ex-deputado, ex-agente do FBI e veterano de guerra. O resultado garantiu a manutenção da cadeira para os democratas em um estado importante para o equilíbrio político nacional.
Integrante da ala progressista do partido, El-Sayed construiu sua campanha com críticas à influência de grandes doadores e de organizações pró-Israel na política norte-americana. Entre suas propostas estavam a ampliação da cobertura pública de saúde, o corte de recursos destinados ao Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e o fim do apoio militar dos Estados Unidos a Israel.
A campanha também teve debates sobre a guerra em Gaza e ataques relacionados à origem e à religião do candidato. Michigan abriga uma das maiores comunidades árabe-americanas do país, estimada em aproximadamente 400 mil pessoas.
Brasileiro é eleito para o Legislativo da Flórida
A eleição também teve um resultado inédito para a comunidade brasileira nos Estados Unidos. O democrata Felipe Souza Lazaballet, de 40 anos, venceu a disputa para deputado estadual na Flórida e se tornou o primeiro brasileiro eleito para o cargo no estado.
Ele conquistou a vaga após derrotar um candidato republicano na região metropolitana de Orlando. Durante o discurso de vitória, Lazaballet falou sobre sua trajetória como imigrante e a oportunidade de representar moradores da região.
“A minha história é o ‘sonho americano’. Cheguei aqui sem documentação, sem possuir absolutamente nada e agora terei o privilégio incrível de lutar pelos meus amigos e vizinhos na condição de representante eleito”, afirmou. Ele também declarou acreditar na possibilidade de construir um estado com oportunidades para todos.
Outra novidade foi a eleição de Melat Kiros, representante da geração Z. A socialista democrata venceu a disputa para representar o 1º Distrito do Colorado na Câmara dos Representantes e se tornou a primeira mulher dessa geração eleita para o Congresso. “Isso é um movimento e estamos apenas começando”, declarou.




