A C&A começou a adotar a escala de trabalho 5x2 em parte de suas lojas no Brasil e identificou redução nas faltas dos funcionários, mas também enfrenta dificuldades para reorganizar as equipes e controlar os custos da operação. O principal desafio está nos domingos, quando o movimento nos shopping centers costuma ser maior e a nova distribuição das folgas pode diminuir o número de trabalhadores disponíveis para atender os consumidores.
O projeto piloto foi implantado em 62 das 343 lojas da rede, o equivalente a aproximadamente 18% das unidades. A companhia também possui três lojas da marca esportiva ACE. A experiência foi discutida nesta quinta-feira (5), durante a teleconferência de apresentação dos resultados do terceiro trimestre, em resposta a uma pergunta sobre os possíveis efeitos do fim da escala 6x1.
A mudança prevê dois dias de descanso remunerado por semana, com preferência para que uma das folgas ocorra aos domingos. A transição para o novo modelo está relacionada à emenda constitucional que prevê o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso, com início de vigência indicado para 16 de dezembro.
A administração da C&A afirma que a redução da jornada exige mudanças na organização das atividades. Caso as lojas mantenham o mesmo funcionamento e a produtividade não aumente, a empresa terá despesas maiores com pessoal. O presidente da companhia, Paulo Correa Junior, explicou que a simples alteração na distribuição dos dias trabalhados não resolve o impacto financeiro.
“Se você fizer exatamente a mesma coisa que faz hoje, o custo aumenta”, afirmou o executivo durante a teleconferência.
Redução das faltas é um dos resultados do projeto
Um dos primeiros efeitos identificados pela empresa foi a melhora na assiduidade dos funcionários. O absenteísmo, indicador que mede as ausências no trabalho, apresentou queda nas unidades que participam do teste.
“Estamos testando em sessenta lojas e já vimos o absenteísmo cair”, declarou o presidente da varejista em entrevista à publicação Exame. A redução das faltas é considerada um dos caminhos para compensar parte dos custos relacionados à mudança na jornada.
A companhia trabalha com duas frentes: diminuir as ausências e elevar a produtividade das equipes. Para isso, passou a utilizar uma ferramenta tecnológica com algoritmos que ajuda a planejar as horas de trabalho e distribuir as tarefas ao longo do dia.
O sistema permite simular o tempo necessário para cada atividade e organizar a quantidade de funcionários em diferentes horários. A intenção é melhorar a distribuição das equipes, evitando períodos com excesso ou falta de trabalhadores em determinadas funções.
A C&A também avalia ampliar modalidades de contratação, incluindo o trabalho intermitente, para atender a períodos de maior demanda. A estratégia busca adequar o número de profissionais às necessidades das lojas sem elevar os custos de maneira desproporcional.
Domingos concentram desafio para o atendimento
A organização das folgas aos domingos é um dos principais pontos de atenção da empresa. O aumento da circulação de consumidores nos shopping centers elevou a importância desse dia para as vendas presenciais, enquanto a escala 5x2 exige uma distribuição diferente dos períodos de descanso.
“Por conta da escala 5×2, o domingo é onde é mais impactado. Vem cada vez mais fluxo e você tem um número de pessoas menor, então tem que melhorar a produtividade. Não tem jeito. Senão, você tem um impacto muito grande, não só de custos, mas de perda de venda”, afirmou Correa.
O executivo disse que o planejamento mais detalhado das atividades é uma das alternativas para reduzir os efeitos da mudança. A empresa também procura diminuir despesas em outras áreas, com simplificação de processos e adoção de tecnologia.
“Uma forma de contrapor esse impacto é exatamente planejar com mais detalhe”, declarou. Ao comentar a revisão dos gastos, Correa afirmou que o controle de despesas precisa ser permanente. “A despesa é igual unha, tem que estar sempre cortando.”
A proximidade do período de fim de ano também exige atenção da rede. Em dezembro, as vendas do varejo de vestuário costumam receber impulso das compras relacionadas às festas de Natal. A empresa precisa organizar as escalas para atender ao aumento da procura sem comprometer a produtividade nem ultrapassar os limites da jornada.
Caixas de autoatendimento ajudam a reorganizar equipes
Outra medida adotada pela C&A é a ampliação do uso de caixas de autoatendimento, conhecidos como self-checkouts. Os equipamentos permitem que os próprios clientes registrem e paguem suas compras em terminais eletrônicos, reduzindo a necessidade de atendimento direto de funcionários nessa etapa.
A tecnologia já está presente em quase metade das lojas da rede. Segundo a administração, os terminais contribuem para aumentar a produtividade e permitem direcionar trabalhadores para outras atividades, como organização dos produtos, reposição de mercadorias e suporte aos consumidores.
A empresa considera que a combinação entre planejamento de tarefas, ferramentas tecnológicas e diferentes formatos de contratação pode ajudar a absorver os efeitos da redução da jornada.
Até o momento, porém, a C&A não apresentou um cronograma para ampliar a escala 5x2 às demais unidades. Também não divulgou uma estimativa financeira do impacto da mudança nem informou quando o modelo poderá chegar a toda a rede.
C&A prevê cautela nos investimentos em 2027
Durante a mesma apresentação de resultados, a companhia também comentou os planos para 2027. Diante dos juros elevados e do endividamento das famílias, a varejista pretende começar o próximo ano com uma postura mais conservadora em relação aos investimentos.
A empresa planeja ajustar o ritmo de aplicação de recursos de acordo com o comportamento da economia. Entre as prioridades estão a preservação de caixa, a redução dos estoques e a concentração de investimentos em projetos com maior potencial de retorno.
A administração também pretende melhorar a gestão do capital de giro e diminuir o tempo de permanência das mercadorias nas lojas e nos estoques, buscando retornar aos níveis registrados em 2025.
Outra decisão é manter critérios conservadores na concessão de crédito aos consumidores. Mesmo com a perspectiva de um consumo mais fraco, a C&A não pretende flexibilizar as regras de financiamento para tentar ampliar as vendas.
Negociações sobre reforma tributária nos aluguéis continuam
A teleconferência também abordou as conversas da C&A com os shopping centers sobre os efeitos da reforma tributária nos contratos de aluguel. Segundo Paulo Correa Junior, as negociações com os empreendedores estão avançando, mas ainda existem dúvidas sobre a aplicação das novas regras.
A transição para o sistema tributário está prevista para começar em 2027. A empresa aguarda definições sobre notas técnicas, orientações operacionais e documentos que deverão ser emitidos pelos órgãos reguladores.
“As conversas estão indo muito bem”, afirmou o presidente. Ele destacou que a relação da varejista com os administradores de shopping centers é antiga, o que favorece o diálogo entre as partes.
Apesar do avanço nas tratativas, o executivo apontou que a falta de definições pode dificultar decisões sobre os contratos. “Existem ainda dúvidas regulatórias, dúvidas operacionais que podem gerar também uma certa insegurança de tomada de decisão”, disse.
A expectativa da C&A é chegar a um entendimento com os parceiros comerciais quando houver maior clareza sobre as regras. Correa acrescentou que as incertezas fazem parte do processo de transição da reforma tributária e não são exclusivas da companhia.




