Chamavam ela de “Mãe Preta” e “Pretinha”. Aos 62 anos, a mulher resgatada em um condomínio de luxo em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, passou 55 anos trabalhando para a mesma família sem receber salário, segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT). A história começou quando ela ainda era criança, aos sete anos de idade, e atravessou três gerações de empregadores.
A trabalhadora iniciou as atividades domésticas em 1971, quando morava no Piauí. De acordo com a fiscalização, ela foi levada para a residência da primeira empregadora e permaneceu no local por décadas, acompanhando o crescimento da família e chegando a cuidar dos bisnetos da mulher que inicialmente a recebeu.
O caso foi enquadrado pelos órgãos responsáveis como uma situação de trabalho análogo à escravidão, considerando principalmente a ausência de remuneração durante décadas, a falta de direitos trabalhistas e a condição de vulnerabilidade em que a trabalhadora estava inserida desde a infância.
Mulher chamada de “Mãe Preta” começou a trabalhar aos 7 anos no Piauí
Segundo informações apuradas pela reportagem, a mulher construiu uma relação de forte vínculo emocional com a família para a qual trabalhava. A fiscalização informou que ela se considerava parte daquele grupo familiar e demonstrava dificuldade em reconhecer a situação vivida ao longo dos anos.
A agente responsável pelo acompanhamento do caso afirmou que a ocorrência foi uma das situações mais complexas de sua carreira, justamente pela relação construída durante mais de cinco décadas. Durante a abordagem dos órgãos públicos, a trabalhadora chegou a defender os empregadores, comportamento interpretado pela equipe como consequência da forte ligação emocional desenvolvida ao longo da vida.
A fiscalização relatou que houve resistência inicial para a entrada dos agentes na residência, sob a justificativa de que a idosa poderia passar mal. Após a intervenção, ela foi encaminhada para atendimento junto aos órgãos responsáveis.
Resgate em Eusébio revelou relação de décadas sem salário e sem direitos trabalhistas
A história da trabalhadora também envolve um contexto de vulnerabilidade social. Conforme informado pela fiscalização, a família dela enfrentava dificuldades financeiras quando ela era criança. A mãe da vítima já prestava serviços para a mesma família e, segundo relato da agente responsável pelo caso, teria sido informado à época que a permanência da menina na residência atendia a uma vontade materna.
A trabalhadora era a penúltima entre seis irmãos e também teria convivido com um ambiente familiar marcado por violência. Diante da realidade em que vivia, acabou permanecendo naquele espaço por enxergar ali acesso a alimentação, roupas e moradia.
Sem alfabetização formal, ela chegou à fase adulta sem construir autonomia financeira fora daquela relação de trabalho. Apesar disso, a fiscalização destacou que a mulher demonstrava inteligência, disposição e boas condições aparentes de saúde.
Dependência emocional foi considerada na decisão sobre futuro da idosa
Após o resgate, os órgãos envolvidos avaliaram alternativas para garantir proteção à trabalhadora. A possibilidade de encaminhamento para um abrigo ou uma mudança imediata de rotina foi considerada, mas a relação construída ao longo de décadas tornou o processo mais delicado.
A avaliação dos responsáveis foi de que uma mudança brusca poderia provocar impactos emocionais significativos para a idosa. A trabalhadora continua sendo acompanhada pela Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará (SEDIH) e pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com o objetivo de garantir proteção social e impedir o retorno às atividades para a família.
TAC prevê indenização e imóvel para trabalhadora
Após a atuação dos órgãos públicos, os empregadores firmaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT). O acordo prevê medidas como a regularização dos recolhimentos previdenciários referentes ao período reconhecido, pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias e aquisição de um imóvel residencial para a trabalhadora. Os empregadores também devem iniciar o pagamento de salário e indenização conforme estabelecido no acordo.




