O Baobá do Passeio Público completa 115 anos reafirmando seu lugar como um dos principais patrimônios naturais de Fortaleza. Muito além da imponência de seus galhos e da sombra que oferece aos visitantes, a árvore tornou-se uma testemunha silenciosa das transformações da capital cearense, acompanhando mudanças urbanas, acontecimentos históricos e o crescimento de uma cidade que passou de pequenas ruas de areia a uma metrópole.
Plantado em 1910 por Tomás Pompeu de Souza Brasil Filho, o baobá, espécie originária do continente africano, se consolidou como um dos elementos mais emblemáticos do Passeio Público, área conhecida oficialmente como Praça dos Mártires. O local é um dos espaços históricos mais importantes de Fortaleza e recebe diariamente moradores, turistas e pesquisadores interessados na memória da cidade.
Baobá do Passeio Público completa 115 anos em Fortaleza
Ao longo de mais de um século, o Baobá permaneceu no mesmo lugar enquanto Fortaleza se expandia ao seu redor. A árvore atravessou diferentes fases do desenvolvimento urbano e hoje é vista como um marco paisagístico e histórico da capital.
Para o historiador Waldejares Oliveira, a presença da árvore permite estabelecer uma conexão direta com acontecimentos que marcaram o Ceará.
"Essa árvore viu, certamente, o crescimento de Fortaleza de uma aldeia marcada pelas ruas de areia, para o calçamento urbano, para os bondes, para a transformação de uma cidade cosmopolita que é até hoje."
Segundo ele, o desenvolvimento econômico da capital também passou pela região onde o baobá está localizado.
"O crescimento urbano de Fortaleza tem a ver com o comércio, e o comércio passava nessa região da cidade. Então, essa árvore viu isso aí tudo. Sem falar das questões econômicas, sociais e políticas."
Árvore acompanhou momentos marcantes da história da cidade
O historiador lembra que, desde o início do século XX, o Baobá esteve presente durante acontecimentos que influenciaram o rumo político do Ceará.
"Depois que essa árvore foi plantada, Fortaleza passou por uma grande rebelião urbana para a deposição do, na época, o presidente do estado do Ceará, Nogueira Acioli. Um grande movimento público que levou-o a fugir do estado."
Embora tenha sido plantado décadas após a Confederação do Equador, o Passeio Público preserva a memória desse episódio histórico. Foi justamente nessa área que ocorreu a execução de líderes do movimento, motivo pelo qual o espaço recebeu o nome de Praça dos Mártires.
Sobre esse momento, Waldejares Oliveira explica:
"O Ceará participou ativamente desse movimento, tendo sido fundada uma república no Ceará, na cidade de Quixeramobim. No entanto, a repressão imperial fez com que eles fossem derrotados e uma parte dos participantes daquele movimento foi fuzilada aqui nessa região da cidade."
Para o pesquisador, o Baobá acabou incorporando essa memória coletiva ao longo das décadas, tornando-se parte da identidade cultural da capital.
Moradores e turistas mantêm relação afetiva com o Baobá
A grandiosidade da árvore impressiona quem passa pelo Passeio Público, inclusive pessoas que frequentam o local pela primeira vez.
O universitário Eduardo Marques de Lima destaca que o Baobá se impõe naturalmente na paisagem.
"Eu acho uma árvore linda, é uma árvore histórica. Ela não é tão destacada assim de primeira, mas quando você nota a presença dela, você não consegue mais ignorar, porque é uma árvore gigantesca."
A estudante Isabelle Josina Martins, de 8 anos, também guarda lembranças ligadas ao local.
"Teve uma vez que eu tirei uma foto quando eu era pequeno e agora eu tirei quando eu era bem grande."
Já a ferroviária Karina Lima, que visitava Fortaleza como turista, contou que associou imediatamente a árvore ao clássico da literatura O Pequeno Príncipe, obra em que o baobá aparece como um dos símbolos da narrativa.
"A gente está aqui como turista. Passou por aqui e avistou essa árvore enorme. Eu nem sabia, na verdade, que era o Baobá. Quando eu vi escrito ali, logo lembrei da história do Pequeno Príncipe. Aí eu falei: 'vamos tirar uma fotinho'. Não pode perder."
Símbolo natural integra a memória e a identidade de Fortaleza
Além do valor ambiental, o Baobá do Passeio Público representa um elo entre diferentes gerações de fortalezenses. Sua permanência no coração da cidade ajuda a preservar parte da história local e reforça a importância da conservação dos espaços públicos e do patrimônio natural.
Em um momento em que Fortaleza celebra seus 300 anos de história, a árvore segue desempenhando sua função original de oferecer sombra e amenizar o clima, enquanto acumula uma missão ainda maior: guardar as lembranças de uma cidade em constante transformação.
Mais do que uma espécie centenária, o Baobá tornou-se um símbolo de resistência, memória e pertencimento para quem vive ou visita a capital cearense.




