Um empresário apontado pela Polícia Federal como responsável por tentar recrutar influenciadores digitais para uma campanha de gerenciamento de crise em favor do Banco Master afirmou, em mensagens, que também fazia o monitoramento das redes sociais do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República em 2026.
A informação aparece em relatório da PF tornado público nesta sexta-feira (11) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e foi adiantada pela Carta Capital.
André Silva Salvador relatou a atuação relacionada às redes de Flávio em uma conversa com Nathan, assessor do vereador Rony Gabriel (PL-RS), em 20 de dezembro de 2025. Na mensagem, o empresário afirmou que acompanhava as redes do então candidato e que havia identificado o perfil do vereador em publicações relacionadas ao trabalho que realizava.
Marqueteiro diz que também monitorava as redes de Flávio Bolsonaro
Na conversa registrada pela investigação, Salvador afirmou que sua equipe fazia o monitoramento das redes de Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, explicou ao assessor que o assunto tratado naquele contato estava relacionado a outro trabalho de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo.
O contato ocorreu poucos dias antes de uma reunião virtual, realizada em 29 de dezembro de 2025, na qual Salvador teria revelado, segundo Rony Gabriel, quem estava por trás da contratação dos influenciadores.
A abordagem fazia parte de uma estratégia que previa a produção de vídeos e publicações seguindo roteiros previamente estabelecidos. Para ter acesso aos detalhes da contratação, os envolvidos deveriam assinar um acordo de confidencialidade, com previsão de multa de R$ 800 mil em caso de vazamento das informações.
Na reunião, Salvador teria informado que Daniel Vorcaro era o contratante e oferecido aos influenciadores valores descritos como remunerações milionárias.
Salvador aparece em investigação sobre campanha para defender o Banco Master
A Polícia Federal identifica Salvador como responsável por abordar e tentar convencer influenciadores de grande alcance a participar da campanha. O objetivo atribuído à iniciativa era defender o Banco Master após o Banco Central determinar a liquidação extrajudicial da instituição.
Entre as orientações previstas estava a publicação de conteúdos que criticassem a atuação do Banco Central e defendessem a intervenção do Tribunal de Contas da União no caso.
A suspeita investigada pela PF é de que a estrutura de conteúdos encomendados pudesse interferir na percepção pública sobre o caso, com o objetivo de descredibilizar a atuação do Banco Central. A investigação considera ainda a possibilidade de que a estratégia buscasse gerar pressão política e judicial para tentar reverter a liquidação do banco e dificultar o andamento das apurações.
Rony Gabriel havia denunciado, no início de 2026, a existência de uma suposta rede destinada a produzir ataques ao Banco Central a partir de uma articulação atribuída a Daniel Vorcaro.
Flávio Bolsonaro é investigado no caso do filme “Dark Horse”
A revelação sobre o monitoramento das redes ocorre em um momento em que Flávio Bolsonaro também é alvo de uma investigação no STF relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O senador foi incluído formalmente como investigado por decisão de André Mendonça tomada em 22 de julho. A apuração busca esclarecer a origem, o valor e a destinação de recursos que teriam sido negociados diretamente entre Flávio e Daniel Vorcaro para financiar a produção.
O valor mencionado nas investigações é de pelo menos US$ 10 milhões, estimados em R$ 61 milhões. A Polícia Federal apura como o dinheiro teria sido transferido, sua origem, o montante efetivamente movimentado e o destino dos recursos.
Entre as hipóteses investigadas está a possibilidade de que parte do dinheiro não tenha sido utilizada na produção do longa-metragem. O inquérito considera suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis crimes.
A Procuradoria-Geral da República foi consultada sobre a abertura da investigação e não apresentou oposição. Mendonça também determinou que a PF realizasse diligências que não dependessem de autorização judicial.
Daniel Vorcaro está preso e é investigado por uma fraude bilionária contra o sistema financeiro brasileiro relacionada ao Banco Master.
Duas investigações no STF apuram financiamento do filme
O financiamento de “Dark Horse” é analisado em duas frentes no Supremo, com objetos diferentes.
A investigação relatada por André Mendonça concentra-se nos recursos que teriam sido negociados com Vorcaro e é a que tem Flávio Bolsonaro como investigado.
Já o inquérito sob relatoria de Flávio Dino apura a suspeita de utilização de emendas parlamentares para financiar a produção por meio da Go Up Entertainment, empresa ligada ao filme.
Essa segunda frente resultou na Operação Make Up, realizada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU). A operação cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em endereços de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-RJ) e Karina Ferreira da Gama, apontada como responsável pela produtora relacionada ao filme. Dino também determinou medidas cautelares contra Frias, que ficou proibido de deixar o país e de manter contato com outros investigados.
Go Up é alvo de investigação em São Paulo
Além das apurações conduzidas pelo STF, a Go Up Entertainment é investigada pela Polícia Civil de São Paulo em um procedimento independente.
O caso envolve um contrato superior a R$ 150 milhões firmado entre a produtora e a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi em bairros da periferia.
De acordo com a investigação paulista, o acordo não teria sido executado integralmente. Há ainda suspeitas de que parte dos recursos tenha sido desviada.
A apuração em São Paulo não está vinculada diretamente aos inquéritos do Supremo que tratam do financiamento de “Dark Horse”, embora a Go Up também apareça na investigação conduzida por Flávio Dino.
Mendonça retira parte do sigilo das investigações do Banco Master
Também nesta semana, André Mendonça determinou a retirada parcial do sigilo dos processos relacionados às investigações do Banco Master. A medida ocorreu depois de um pedido do presidente do STF, Edson Fachin.
A decisão alcançou o inquérito que serve como base para parte das apurações e outros 14 procedimentos relacionados ao caso. A documentação liberada, no entanto, não representa a totalidade dos autos.
Informações sobre diligências ainda em andamento podem permanecer protegidas quando a divulgação tiver potencial para prejudicar a investigação ou a obtenção de provas. Mendonça também determinou o compartilhamento de cópias digitais dos processos com os demais ministros do Supremo.
A divulgação dos documentos ocorre em meio à crise instalada no STF após relatórios da Polícia Federal apresentarem informações sobre a relação do ministro Alexandre de Moraes e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, com Daniel Vorcaro.




